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11 de maio de 2026

Sinestesias datilográficas

1920’s Antique Underwood No. 5 Desktop Typewriter

Vejo-o entrar no auditório com uma máquina de escrever debaixo do braço. Pousa-a numa mesa colocada no centro do palco e senta-se. Atrás de si fica o maestro de batuta na mão e a orquestra prestes para entrar em funções. À frente da boca de cena encontra-se o público ávido de ouvir a melodia fluir em perfeita sintonia harmónica. As luzes da sala apagam-se e os primeiros acordes compostos por Leroy Anderson ecoam ao ritmo imposto pelo bater cadenciado das teclas numa folha de papel em branco e da campainha de mudança de linhas do processador de notas da peça musical instrumental The Typewriter (1950) aqui registada.

A sonoridade distante das aulas de datilografia vem-me à memória. O som sincronizado do batimento dos carateres móveis da máquina de escrever a da toada melódica emitida em pano fundo veio ao meu encontro. A aprendizagem fazia-se às cegas mas com um suporte musical de apoio. Cada uma das teclas estava tapada e a visão era movida para a ponta dos dedos. Cada um teria de saber de cor a posição das teclas a acionar. E assim o texto fluía ao ritmo da cantilena matraqueada e do cheiro da tinta de escrever, do verniz corretor e do papel químico utilizados. Uma sinestesia conjugada, que o tempo se encarregou de apagar.

Olho com olhar de ver para o solista do miniconcerto para orquestra e máquina de escrever e reparo que este só utiliza dois dedos para executar todos os compassos da partitura ou uma mão inteira na mudança dum sistema para outro. Neste sentido, um pouco menos hábil do que eu. Julgo. É que apesar de ter dado folga a muitos deles, ainda uso os dois indicadores no teclado do PC associado por vezes ao polegar direito e muito raramente ao esquerdo. Uma redução drástica vedada a um qualquer pianista mas perfeitamente viável a um mero datilógrafo musical, por muito mediano que seja, um grupo em cujo número talvez me pudesse inserir.

Leroy Anderson © Matt HerringLeroy Anderson © Matt Herring

18 de abril de 2025

Uvada, um sabor agridoce da infância

Uvada da Estremadura

A seu tempo vêm as uvas e as maçãs maduras...

De repente, uma lufada inesperada de cheiros, sabores, texturas, ruídos de fundo e visões duma infância distante muito perdida surgiu-me no horizonte. Sinestesias concentradas num simples boião de uvada, encontrado por acaso no expositor duma mercearia de bairro transvertida num supermercado dos nossos dias. Peguei rapidamente num e trouxe-o para casa, não fosse alguém arrebatá-lo. O encanto duma era sumida para sempre prometia-me um encontro feliz com uma guloseima agridoce estremenha doutros tempos, espalhada generosamente  numa fatia de pão saloio ou num crepe bretão acabadinho de fazer num fim de semana.

No interior dum frasco de doce de uva, relembrei o processo de confeção do precioso maná da meninice, o tal manjar quotidiano de néctar e ambrosia dos helénicos deuses olímpicos. Primeiro era a vindima depois o pisar da uva no lagar da escola agrícola, onde o meu pai trabalhava e nós brincávamos. Com o mosto assim obtido e com a adição duns peros ali recolhidos, passava-se à preparação em lume brando dos ingredientes a que se juntaria algum açúcar q.b. No final, a compota assim obtida era guardada em tigelas de barro bem protegidas com uma folha de papel vegetal embebido em aguardente. Tudo muito artesanal e caseiro.

Cheguei a casa, esperei uns dias, fiz umas panquecas suculentas, espalhei uma colherada generosa de uvada enfrascada e o sonho desfez-se. Abruptamente. Todo o encanto que até então me habitava partiu sem demora para outras paragens. Não deixou saudades. Os sabores, cheiros, texturas, ruídos e visões de antanho mantêm-se guardados para sempre na memória. Guardados juntamente com todas as demais reminiscências sobreviventes do meu percurso pessoal de décadas pela vida. Estão ali alojadas ao lado dos picles, tomatada, conservas, marmelada e demais conservas preparadas ano a ano na estação devida. Inamovíveis.

6 de dezembro de 2024

Sinestesias miradas

Vincent van Gogh

De sterrennacht | A noite estrelada (1889)

[NY, Museum of Modern Art - MoMA]
Olhares, Visões, Prismas, Miragens 
Dizem que Vicent van Gogh era daltónico. O mesmo se diz também de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Tintoretto, Claude Monet, Paul Cezanne ou Andy Warhol. Outros haveria decerto a apontar, se esse modo especial de olhar o mundo perturbasse o jeito como os seus adeptos olham essas sinestesias de cores pintadas a óleo, guache, pastel, aguarela e acrílico nas telas, tábuas, frescos que nos legaram.

Como teria o grande mestre neerlandês colorido A noite estrelada, se não sofresse da alegada anomalia genética de visionar as diferentes frequências de luz refletida nos corpos? Como seria o sorriso da Mona Lisa, se a paleta cromática do seu criador tivesse sido outra? Por certo não atrairiam as multidões habituais no MoMA e no Louvre. Um se muitíssimo longo, inexistente na mancha gráfica que o regista.

As outras suposições fantasiosas para os demais gestores de cores elencados seria igualmente incomensurável. Os fitares, enfoques, prismas e miragens planas vistas com profundidade imaginada pelo engenho e arte da perspetiva. Perceções combinatórias de natureza sensorial distinta, que os espreitares atentos conseguem enxergar nos espaços cobertos com todas as matizes presentes no arco-íris. 

Olhar distorcida da Mona Lisa de Leonardo da Vinci

4 de novembro de 2024

Sinestesias escutadas

Rubens & Brueghel
El oído, 1617-1618
[Museu del Prado, Madrid]

Ouvires, Fragores, Rumores, Soares

O tum-tum-tum-tum tum-tum-tum-tum de abertura da Sinfonia do Destino (1804-1808), a popular 5.ª sinfonia em dó menor op. 67 de Beethoven, faz-me lembrar como a sucessão melódica de toques bem dados pode gerar uma das melodias mais conseguidas da música clássica de todos os tempos. Funciona como o início duma vasta conversa travada entre todos os instrumentos que a tornam audível e compreensível. Uma extensa pergunta que só obterá uma resposta cabal no termo do quarto andamento com o tum-tum final. 

O tá-tá-rá-tá ascendente seguido do tá-tá-rá-tá descendente dos primeiros acordes da Grande Sinfonia (1788), a célebre sinfonia n.º 40 em sol menor KV. 550 de Mozart, atacam o imenso jogo de perguntas/respostas presentes ao longo da totalidade da peça. A expressão vienense do rococó em sons então vigente divergia em muito das sonoridades mais intimistas produzidas pelo romantismo alemão predominante na época. Sinestesias claras do toque táctil da orquestra com o tato ligado ao toque sentido com os tímpanos.

O tã-tãrãrã ‒ tã-tãrãrã 'rãrã contínuo de dois compassos repetidos cento e sessenta e nove vezes pela caixa-de-guerra do Bolero (1928) de Ravel, como se se tratasse uma prolongada afirmação proferida num único movimento, a ritmo uniforme e invariável, a rondar um quarto de hora. Os ouvires, fragores, rumores e soares deste tempo di Bolero, moderato assai, foi criado para balett, mas pode ser apreciado com todos os sentidos numa simples interpretação orquestral, num auditório musical, gravado num disco ou trauteado de memória.

Os soídos musicais nunca se deixam traduzir por uma cadeia sonora verbalizada de vocábulos concretos, com ou sem recurso à imitação onomatopaica. É que se uma imagem vale mais do que mil palavras, então atrevo-me a dizer que uma melodia inspirada vale mais do que mil imagens. Veem-se quando se ouvem, saboreiam-se quando se tocam, respiram-se quando se escutam e nos sabem aprisionar. São sentidas com todos os sentidos que o sistema sensorial pôs ao nosso dispor, a única língua universal fruto do engenho e arte humanos.

Edvard Munch, Skrik (1893)

24 de setembro de 2024

Sinestesias tateadas

Jan Miense Molenaer
De vijf zintuigen: Het gevoel, 1637

Toques, Afagos, Carícias, Mimos 

A inocência infantil dos meus verdes anos acreditava piamente que, se fechasse os olhos muito bem fechados, teria a capacidade de ver um qualquer objeto se o tateasse depois com a ponta dos dedos, Tentei-o várias vezes sem conseguir uma só volta recuperar a visão tal como ouvira dizer já não sei bem a quem. Os cegos veem com os dedos. Fiquei convencido que esse prodígio só acontecia com os verdadeiros cegos, não com os fingidos como eu. O sentido próprio e o figurado trocaram-me então as voltas. Só mais tarde me apercebi da existência da escrita braille e do significado da frase que tanto me impressionara nesses tempos.

De olhos abertos mas como se estivessem fechados eram as aulas de datilografia antes dos PC entrarem em cenaOs teclados HCESAR nacionais ou AZERTY internacionais estavam literalmente tapados e a escrita ansiada fazia-se com toques vibrantes nas teclas desejadas, executados com o mínimo-anelar-médio-indicador da mão esquerda, e as teclas restantes, com os dedos correspondentes da mão direita, reservando-se as maiúsculas-pausas-diacríticos à ação alternada dos polegares das duas mãos. Os toques eram entoados por toda a turma, numa cadência sincronizada de melodia metálica mesclada com as campainhas das máquinas de escrever.

Testar a textura dum Camembert com o afago ligeiro numa das pálpebras dum olho fechado da ponta de um dedo é uma prática há muito aprendida e de resultados comprovados. Se a consistência sentida nas duas texturas for idêntica, isso significa ter o queijo atingido o grau de maturação adequado para ser servido à mesa e regalar o palato assim mimado à distância com o toque experiente do olhar. Ao que parece, a avaliação sinestésica descrita poderá ser também aplicada a outros queijos de pasta mole levemente terrosa, tais como o Neufchâtel, o Livarot, o Pont-l'Évêque, o Reblochon, o Brie e muitos outros que não cabe aqui enumerar.

Com os olhos abertos ou fechados, o contacto das mãos com uma bola de neve é de veras singular. O bom senso diz-nos ser gelada, a sensação táctil diz-nos estar a escaldar. A entreajuda sinestésica de perceção dos objetos exteriores de natureza sensorial distinta pode levar-nos de quando a em quando ao engano. O frio que parecia quente, torna-se de novo gelado, assim que aquele conjunto de água congelada se derrete entre os dedos e voltamos a tatear o ambiente envolvente com as mãos expostas diretamente ao ar. O ser e o parecer dependem de muitos fatores, capazes de levar os sentidos dos sentidos a sentirem com sentidos distintos.

Michelangelo Buonarroti, Creazione di Adami ( c. 1511)
 [Cappella Sistina, nei Musei Vaticani a Roma]

16 de julho de 2024

Sentidos consentidos

PERPÉTUAS-DAS-DUNAS

Sentado numa cadeira de abrir/fechar na praia da Alagoa em Altura, sinto o sol a tatear-me as partes do corpo expostas à natura, livres de vestuário e protegidas por um finíssimo filtro solar 50+ fabricado num centro termal com pedigree do além-Pirenéus. Os raios do astro-rei a traçarem uma rosa-dos-ventos completa: norte, sul, este, oeste.

O meu olhar daltónico vislumbra um mar pintado de azul vivo na lonjura do horizonte meridional, esverdeado a meia distância do meu ângulo de visão e a desvanecer-se na transparência translúcida, sem cor definida, antes de se transformar no branco total da mexida rebentação das miniondas no areal dourado junto aos meus pés.

Paira no ar um perfume intenso emanado das perpétuas-das-areias, trazido até mim por uma ligeira brisa setentrional a soprar sobre a imensidade das dunas estendidas ao longo do sotavento algarvio. Fragrâncias suaves a misturarem-se com o leve olor a maresia que se faz sentir bem à beira-mar onde estrategicamente me deixo estar.   

Dum lado e doutro, ouve-se o refrão das bolas-de-berlim, a aguçar o palato de miúdos e graúdos. Com creme ou sem creme e sempre com muito açúcar. Resiste-se ou sucumbe-se. Uma por ano ou por semana, é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal. Os sentidos consentidos agradecem e suspiram por mais. Talvez sim, talvez não.

2 de julho de 2024

Sinestesias gustativas

CLARA PEETERS
Stilleven met kazen, artisjokken en kersen, c. 1625
[Los Angeles, LACMA]

Gostos, Paladares, Sabores, Gulodices

tantos queijos franceses como dias tem o ano. Dizem. Não me custa a acreditar que assim seja ou que até os ultrapasse. Basta visitar uma crèmerie local para o confirmar. Os guias gastronómicos que os elencam, descrevem e localizam, dão-lhes também um nome próprio e um apelido de família, excedendo facilmente a barreira das três centenas de designações distintas, distribuídas pelos plateaux de fromages à base de lait de vache, de chèvre et de brebis.

O número de queijos portugueses é de longe menor. Na infância, cheguei a pensar que o cardápio se reduzia a três únicos casos: Saloio, Merendeira e Flamengo. Mais tarde descobri os gostos, paladares, sabores e gulodices do Serra, Ilha e Azeitão, ampliados depois com a concorrência cerrada do Serpa, Nisa, Castelo Branco e alguns mais. Um manjar dos deuses de fazer crescer água na boca, um estímulo para o palato e demais órgãos dos sentidos.

A fusão de duas ou mais sensações na presença de algumas iguarias comestíveis tem o condão de aguçar o apetite incontrolável próximo da gula. Para os apreciadores, o queijo tateia-se com o nariz, saboreia-se com os odores que exala, admira-se com os olhos que o devora, provoca a salivação só de ouvir soletrar o nome de alguns deles, antecipa todos os prazeres do paraíso, mal toca o céu-da-boca. Sinestesias gustativas difíceis de traduzir por palavras.

Leon-Paule Faque refere-se ao Camembert, como o queijo que cheira aos pés do bom deus. Imagino o que diria este poeta sobre o Munster da Alsacia-Lorraine. Decerto o mesmo que terá pensado uma passageira de autocarro sentada ao meu lado num percurso de Lisboa-Faro, quando os calores de julho lhe fizeram chegar ao nariz os vapores exalados por um exemplar que eu comprara numa loja gourmet da capital e depositara piamente debaixo do banco.

Gostos, paladares, sabores e gulodice não se discutem ou partilham. O tópico triângulo pão-queijo-vinho só se aplica a alguns. Tal como o recurso aos pimentos amarelos, tomates vermelhos, uvas de todas as cores, aipo, alcachofras e cerejas. Iguarias para delícia da vista-boca-mãos-ouvidos-nariz de quem as enxerga, mastiga, toca, escuta e cheira, a dizerem a uma só voz de sua justiça no prato onde são postos, para serem desfrutados com todos os sentidos.

27 de maio de 2024

Sinestesias perfumadas

Aromas, Odores, Cheiros, Fragrâncias

Maio é considerado o mês da flores, mas como se diz que Portugal é um jardim à beira-mar plantado, digamos haver também por aqui um imenso canteiro vicejante durante todas as estações do ano. Uma paleta matizada de eflúvios, aromas, odores, cheiros, exalações e fragrâncias luminosas, numa sinestesia perfumada de cores, formas e olores mil, catalisadoras de todos os sentidos com sentido.

As minhas memórias olfativas enviam-me para as emações intensas da maresia atlântica, das flores do verde pino, dos eucaliptos e das laranjeiras estremenhas, do musgo nos presépios natalícios e da terra molhada depois duma chuvada há muito esperada. De vez em vez, até me recordo dos vapores sulfurosos das termas da minha infância. Flashes fugazes que o tempo traz e leva a cada momento.

E quem fala de flores fala de pólens fala também de alergias, de coça-coça e de espirra-espirra. É que afinal não há bela sem senão. Olhá-las e cheirá-las tem os seus prós e contras bem definidos. Bálsamo e lenitivo para os olhos, espinhos e abrolhos para o nariz. Só nos resta recorrer às naturezas mortas com vida duma Josefa d'Óbidos a cheirar a verniz sem os efeitos nefastos dos jardins.