«La rayuela se juega con una piedrita que hay que empujar con la punta del zapato. Ingredientes: una acera, una piedrita, un zapato, y un bello dibujo con tiza, preferentemente de colores. En lo alto está el Cielo, abajo está la Tierra, es muy difícil llegar con la piedrita al Cielo, casi siempre se calcula mal y la piedra sale del dibujo. Poco a poco, sin embargo, se va adquiriendo la habilidad necesaria para salvar las diferentes casillas (rayuela caracol, rayuela rectangular, rayuela de fantasía, poco usada) y un día se aprende a salir de la Tierra y remontar la piedrita hasta el Cielo, hasta entrar en el Cielo, (Et tous nos amours, sollozó Emmanuèle boca abajo), lo malo es que justamente a esa altura, cuando casi nadie ha aprendido a remontar la piedrita hasta el Cielo, se acaba de golpe la infancia y se cae en las novelas, en la angustia al divino cohete, en la especulación de otro Cielo al que también hay que aprender a llegar. Y porque se ha salido de la infancia (Je n'oublierai pas le temps des cérises, pataleó Emmanuèle en el suelo) se olvida que para llegar al Cielo se necesitan, como ingredientes, una piedrita y la punta de un zapato.».Julio Cortazar, Rayuela (1963)
Na vitrine exterior da Vértice ou da Giraldillo, duas livrarias fronteiras à Universidade de Sevilha, avistei uma edição de bolso um dos textos de topo da ficção literária de então, criado por um dos mais influentes e inovadores autores argentinos do século XX, fulcral para a emersão do designado Boom Latino-Americano das décadas de 60-70. Entrei na casa de livros, peguei no volume, dei-lhe uma vista de olhos rápida e trouxe-o comigo debaixo do braço, com o propósito de averiguar os sentidos ocultos que terão levado Julio Cortazar a intitular aquela obra de Rayuela (1963). Descobri tratar-se da designação castelhana do jogo da macaca, semana, avião ou amarelinha, tão popular «na minha infância. Comecei a lê-lo, mas depressa me apercebi da dificuldade labiríntica da tarefa. Interrompi a viagem pelo seu interior e só agora, decorridas mais de quatro décadas, retomei esse árduo percurso de prospeção pelos trilhos peculiares do texto.
As singularidades sui generis de leitura do relato com um título lúdico são logo anunciadas pelo próprio autor no «tabuleiro de direção» com que abre a obra, ainda antes das esperadas histórias a contar terem começado a surgir. Avisa que, à sua maneira, o livro posto entre mãos à disposição do leitor funciona como um conjunto de muitos outros livros, com um destaque especial para dois que passa a explicitar. O primeiro obedece a uma estrutura linear, começando no capítulo 1 e seguindo depois até ao 56, no termo do qual há três pequenas estrelas ***, equivalentes à palavra Fim. A segunda, mais sinuosa, principia no capítulo 73, avançando depois pela ordem saltitante indicada na base de cada um deles, cuja lista passa a registar num quadro completo de todo o percurso. Resolvi optar pelo trajeto mais completo, para não deixar nenhum recanto paisagístico ficcionado por visitar, e imediatamente me apercebi estar o núcleo tido com fulcral subdividido em duas partes, «Do lado de lá» (1-36) e «Do lado cá» (37-56). Em contrapartida, o bloco considerado de prescindível ficava-se por um significativo «De outros lados» (57-155), a marcar a sua composição marcadamente fragmentária.
De salto em salto, de casa em casa numerada, tal como no jogo de equilíbrio e motricidade que empresta o nome à fábula, as vivências traçadas pelos obreiros da ação, na passagem simbólica duma Terra de partida para um Céu de chegada, decorrem nos anos de cinquenta e tantos, centradas inicialmente em Paris, para depois se deslocarem para Buenos Aires, as cidades de referência mais significativa do escritor e professor argentino, nascido em Bruxelas e naturalizado francês. A forma dispersa e fragmentária dos rumos de vida, trazidos à boca de cena novelesca pela instância narrativa e intervenientes centrais/laterais, é-nos dada num castelhano coloquial próximo dos registos lunfardos praticados nas duas margens do Rio da Prata, onde o voseo dialectal é rei, mesclado indiferentemente com longas tiradas em inglês e francês, sem o cuidado de os distinguir entre si. E assim, ao sabor dos pulos a pé-coxinho, de capítulo em capítulo, de estilhaço em estilhaço, as crónicas agregadas do jogo do mundo ou da amarelinha se vão fazendo, placidamente, ao sabor da pena e ao ritmo do lançamento da malha nas quadrículas da rayuela ou macaca.
As peripécias boémias dos intelectuais do «Clube da Serpente», as relações turbulentas, caóticas e triangulares dos protagonistas, unido à ânsia de liberdade de todos eles experienciadas no duplo espaço cénico franco-argentino, bem como os excertos discursivos, recortes de jornais, citações de autores diversos e pensamentos literário-filosóficos de Morelli, hipotético alter ego de Cortazar, remetem esta novela de novelas para o âmbito teórico do antirromance ou contra-romance experimental, muito em voga em meados da centúria passada. As formas cristalizadas do romance tradicional são postos em causa, mas a sua essência mantém-se mesmo assim incólume ao longo das mais de seiscentas páginas da edição de bolso do mais popular género literário dos nossos dias, aquele em que a autonomia expressiva e fuga expressiva a regras fixas de época é total. Esse o segredo que os autores sem nome gregos ofereceram aos amantes da leitura individual e silenciosa há mais de dois mil anos, no final da era axial, para deleite e elevação de todos nós. Aproveitemo-la e agradeçamos.

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