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12 de novembro de 2025

O bicentenário discreto de Camilo Castelo Branco


O silêncio é uma confissão
Camilo Castelo Branco, O bem e o mal (1863)

Deixei passar em branco o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Não posso esperar pelo bicentenário da sua morte, porque nessa data já não terei possibilidade de o fazer.

Vasculhei nos escaparates das livrarias ainda abertas aqui do burgo e não encontrei quase nada da vasta obra que nos legou. Nem a diversidade de géneros cultivados ajudou nessa pesquisa.

Sacudido o das edições antigas e munido duma máscara sobrante da Covid-19, reinicio a tarefa de reler os títulos residentes nas minhas estantes pessoais. Já os tenho à minha beira. Mãos à obra.

Um dia destes ainda me vou pôr a falar dum deles. Até pode ser O bem e o mal que me emprestou o tema para retirar do silêncio um dos imortais da república das letras portuguesas. Veremos.

Obs.:
Camilo Castelo Branco  (Lisboa, 16 de março de 1825 – São Miguel de Seide, 1 de junho de 1890)

5 de julho de 2017

Do básico ao essencial...

Passando a palavra para que não se perca no tempo...

LIVROS RTP

Em 6 de novembro de 1970 ainda me encontrava a frequentar no ICL um curso que não me levaria a lado nenhum. Nesse mesmo dia e ano, logo pela manhã, adquiri num quiosque do largo de Camões o primeiro exemplar da «Biblioteca Básica Verbo - Livros RTP», pela módica quantia de 15$00. Tratava-se da Maria Moisés, um conto de Camilo Castelo Branco, e vinha acompanhado a título de oferta do segundo volume da coleção, Cem obras-primas da pintura europeia. Ainda os guardo na minha estante pessoal de livros de bolso e de todos os tamanhos adquiridos ao longo dos tempos.

Em 2016, passado quase meio século sobre esse lançamento editorial inédito, surgiu no mercado livreiro a coleção «Essencial RTP - Leya». O tamanho reduzido foi substituído pelo normal, continuando a manter-se um preço acessível às bolsas menos recheadas. Por apenas 10€00 mensais, o leitor poderá aceder a algumas das obras de referência da literatura contemporânea. Desconfio que o sucesso semanal alcançado na primeira iniciativa esteja longe de ser alcançado, a ponto de esgotar edições ou atingir os números astronómicos de vendas medidos aos milhões.

O meu contributo para atingir essas cifras colossais é modesta. Acedi a uma dezena de relatos da série inicial e a um único da atual. A frequência da FL exigiu-me edições alternativas e a viagem pelo universo das letras levou-me ao encontro dos textos entretanto publicados. É possível que nos próximos meses me deixe cativar por um ou outro que me suscite uma vontade imperiosa de visitar. Quem sabe se nesta passagem do básico ao essencial não toparei o tal livro da minha vida. Quizá o último que terei entre mãos, à falta de tempo para mais aventuras de demanda do inefável.


28 de fevereiro de 2015

Sem um vê de volta na ponta...

Unabridged Audiobook

Deparei-me um destes dias com uma edição recente da Servidão Humana de Somerset Maugham. Estava exposta na secção dos livros mais vendidos duma megalivraria à escala global já instalada no megacentro comercial da minha cidade. Olhei para ele, senti um impulso muito forte de lhe pegar, mas deixei-o pousado onde estava. É que ainda não perdi a esperança de recuperar o exemplar que em tempos emprestei a alguém e ainda não se lembrou de mo devolver ou se esqueceu de mo ter pedido.

Imagino tratar-se duma edição comemorativa do primeiro centenário da sua editio princeps que neste ano de 2015 se celebra. Apresenta na capa um grande plano de Bette Davis e um menor de Leslie Howard, intérpretes de celuloide escolhidos em 1934 por John Cromwell para dar corpo no cinema a Mildred Rogers e Philip Carey, os protagonistas dum dos romances mais emblemáticos do século passado. Esta a opinião defendida pelos profissionais da crítica literária contratados pelos editores como operação de marketing.

Adquiri o volume que anda perdido em mãos alheias, numa altura em que as questões existenciais colocadas pelo herói central da história narrada tocavam de muito perto as questões existenciais que a minha adolescência inquieta me colocava. Anotei-as de modo exaustivo nas margens de papel do exemplar que um dia me deixou sem um vê de volta na ponta. Mais do que o livro extraviado do meu convívio, o que a mim me faz falta é esse testemunho pessoal de jovem leitor que arrisco a perder para sempre.

O sumiço por empréstimo dum dos livros da minha vida fez-me lem-brar uma história antiga que em tempos li não sei onde ou ouvi contar não sei a quem. Camilo Castelo Branco teria afixado na sua biblioteca pessoal duas frases lapidares que evitariam estas via-gens inglórias sem bilhete de ida-e-volta. Os livros só se emprestam aos bons amigos | Os bons amigos não pedem livros emprestados. Remédio santo que evitaria os efeitos nefastos do velho ditado chinês: Se emprestar um livro é estupidez, pior ainda é devolvê-lo.