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12 de julho de 2024

Virginia Woolf e as singularidades biográficas de Lord/Lady Orlando

“Memory is the seamstress, and a capricious one at that. Memory runs her needle in and out, up and down, hither and thither. We know not what comes next, or what follows after. Thus, the most ordinary movement in the world, such as sitting down at a table and pulling the inkstand towards one, may agitate a thousand odd, disconnected fragments, now bright, now dim, hanging and bobbing and dipping and flaunting, like the underlinen of a family of fourteen on a line in a gale of wind.”

Entrei no universo imagético de Virgínia Woolf duas décadas e de modo indireto. Fi-lo através das longas e iteradas alusões ao Orlando: uma biografia (1928), traçadas nas seis dezenas e meia de páginas dum conto de Lídia Jorge sobre o desejo, cujo nome partilha com a antologia que o aloja, «O Belo Adormecido» (2004). Deste primeiro contacto com o icónico romance da ficcionista britânica, vieram-me de imediato à mente ecos remotos doutros relatos igualmente centrados num insólito virado para a esfera explícita do maravilhoso puro, com um destaque especial para os cenários sobrenaturais pintados por Oscar Wilde no Retrato de Dorian Gray. Um encontro fortuito com uma edição de bolso dum dos textos pioneiros da pós-modernidade europeia permitiu-me conhecer a história singular desse/a lord/lady sui generis, nascido/a nos finais da era isabelina e ainda vivo/a e de boa saúde à data da publicação do livro. Tinha então 36 anos de idade e testemunhara a substituição dinástica dos Tudor pelos Stuart, na passagem da centúria de quinhentos para a de seiscentos, e ter atravessado como se nada fosse a república efémera instituída pelo Protetorado Britânico e os sucessivos reinados dos Hanôver, Saxe-Coburgo-Gota e Windsor.

O caráter prodigioso no trajeto existencial do biografado capaz de impressionar os leitores está, pois, ancorado em dois polos axiais que percorrem os seis capítulos da crónica: a mudança enigmática de sexo do aristocrata inglês e a sua misteriosa longevidade de mais de 300 anos bem contados. Tudo acontece dum modo inesperado e sem obedecer a uma regra espectável de causa-efeito. As varinhas de condão dos contos tradicionais estão ausentes na totalidade da sua tessitura textual. Tudo se passa com a maior tranquilidade. A barreira racional entre o natural e o sobrenatural só se verifica fora da mancha gráfica do livro. No seu interior tudo é possível e aceite sem reboliços. A beleza e graciosidade masculina/feminina não é retratada numa tela como o fez o dramaturgo e romancista irlandês já referido. Tão pouco recorre a uma pele de onagro para satisfação dos desejos do seu proprietário, como Balzac idealizou em La peau de chagrin (1831), ou duma campainha mágica capaz de eliminar à distância um riquíssimo funcionário chinês, como Eça de Queiroz gizou n'O Mandarim (1880). As palavras escritas são mais do que suficientes para a criadora inglesa em apreço. A alotopia instala-se lentamente na fábula e mantém-se de pedra e cal até ao seu derradeiro ponto final.

O mundo alternativo plasmado nesta resenha memorialista, aquele que nos permite aceitar que a nossa condição de seres viventes é diferente daquilo que é, ou seja, que se pode passar por artes de berliques e berloques desconhecidos da condição de homem para a de mulher, sem recorrer a nenhuma intervenção cirúrgica e terapia hormonal, ou de manter uma eterna juventude, sem se submeter à voragem insaciável dos dias, semanas, meses, anos e séculos. O senso comum obriga-nos a separar os eventos trazidos à colação num duplo fluxo temporal da realidade factual e do imaginário fictício. Os sucessivos espíritos de época sucedem-se paulatinamente uns aos outros, modelando simultaneamente o perfil do protagonista na dimensão cronotópica desenhada pela História e pela Literatura. A verdade, a franqueza e a honestidade, o vício, o crime e a miséria, o amor, nascimento e morte tidos pelas pessoas anónimas/nomeadas coetâneas dos reis e rainhas, nobres e plebeus, amos e serviçais, funcionam como autênticos mestres da personagem desenhada com engenho e arte pela entidade demiúrgica que lhe deu vida nas laudas impressas duma efabulação de faz-de-conta.

As aventuras e desventuras, as conquistas e derrotas, as viagens e pousadas, recebidas, descritas e vividas em ambientes urbanos e rurais, constituem as peças-chave com que se vai erigindo o percurso labiríntico do/a herói/heroína da trama. Jornal fingido de múltiplas leituras, nem sempre claras, é considerado pelos seus exegetas como o produto diegético mais acessível composto pela sua artífice. Avaliação difícil de confirmar por quem não conhece a totalidade da sua obra, como é o meu caso. Não descarto a hipótese de preencher esta lacuna, caso detete algum título seu numa próxima visita a uma livraria. A ver vamos. Entretanto, não me coíbo de expressar a minha vontade de ver a performance de Tilda Swinton no écran (1992), gorada que está, a possibilidade de ver a de Isabelle Huppert no palco (1993), atrizes aludidas por Lídia Jorge na mise en abyme literária referida. As intenções estão tomadas. Assim os fados que nos dizem dirigir os passos me permitam concretizá-los quando para aí estiverem voltados.

20 de junho de 2024

O Orlando de Virginia Woolf visto por Lídia Jorge n'O Belo Adormecido

QUANDO A LITERATURA FALA DE LITERATURA...

Começamos a ler um conto e este remete-nos uma e outras vezes para um romance que desconhecíamos e cuja intriga resumida nos convida a visitar o original. Assim se passa das palavras de Lídia Jorge n'O belo adormecido (2004) para a tessitura narrativa de Virgínia Woolf no Orlando (1928).

Acontece na vida dos atores, mesmo aqueles cuja intimidade não se torna matéria universal da intriga dos magazines. Acontece. Tudo isso porque me tinham proposto e eu havia aceitado desempenhar o papel do único personagem colhido da Literatura, que vive durante vários séculos, que a meio do percurso muda de sexo, modos e trejeitos e fatos, meios de transportes e palácios, e procede a todas essas mudanças através de um striptease mental mirabolante, praticado diante de toda a gente. Isto é, eu iria ser Orlando, ele mesmo.

A personagem que eu representava invocava a Grande Geada que se abatera sobre a Inglaterra, na altura em que Orlando era moço. A tirada referia o momento em que a corte inglesa fora para Greenwich e o rio gelado pudera ser varrido com vassouras como se fosse o soalho dum palácio. Sobre o rio patinava uma princesa russa com título Romanovitch, a linda Sacha, da qual eu, jovem ardente me enamorava. Era o início do século dezassete britânico. [...Estava eu, precisamente, a repetir palavras, embrulhada na cama de rede, a decorar a passagem em que a personagem invocava o momento em que o Tamisa, iluminado pelos archotes, mostrava silhuetas dos peixes congelados no interior da sua massa de água solidificada, podendo os príncipes e as princesas de todas as nações patinar por cima, e eu, que não era príncipe mas lorde, encontrava-me precisamente nesse transe de ser jovem lorde patinador, quando me tinha apercebido de que da realidade surgia uma sombra.

Por mim, poderia garantir à pessoa que me esperava no Salão do Ritz, que por aqueles dias o meu melhor divertimento tinha consistido em decorar o meu papel, estando a personagem que me era cara cada vez mais volátil e mais densa, a aproximar-se, de hora a hora, da configuração burlesca para a qual fora concebida, feita de propósito para pulverizar a identidade e a História, e eu pronta para a interpretar. Dez folhas daquelas já eu fora capaz de reproduzir, de olhos fechados, e agora eu abria a janela que dava para o poito de cimento o seu guarda-sol aberto, e prosseguia como se estivesse mudando de sexo, passando de homem a mulher, fora do lugar e do tempo ‒ «Damas, cavalheiros, despertei. Que as trombetas digam a verdade. Verdade, verdade, verdade, estou nu na vossa frente…»

Mal olhava para os papéis, o tempo fazia-se outrora, eu passava a ser um jovem lorde inglês transformado em lady, e decorava o meu papel de mulher recente, agora amante de um homem, tendo de proferir frases retumbantes, a propósito da cerimónia do meu casamento ‒ «Eu chamei por ele, ele chamou por mim, e as nossas palavras subiram e giraram como falcões bravios por entre os campanários…». Diria eu pela minha personagem, tanto ela quanto o meu marido, ambos para sempre e definitivamente ambíguos, pois apenas uma célula, quando muito célula e meia, nos distinguia em matéria de ser e sexo.

Fechei os olhos, entregue à personagem que me levava agora pelas longínquas estradas de gravilha rasgadas ao longo dos prados das Ilhas Britânicas, gares ogivais do fim do século dezanove, automóveis pioneiros do século vinte, estava agarrada  ao soalho, a medir a cintura e a barriga das pernas, estava como deve estar uma profissional de teatro atenta, dominada, cumprindo um programa por objetivos, etapa após etapa. Completamente lúcida.

Eu duvidava, porém, que as palavras que Martim havia recolhido do filme da Tilda para rematar as minhas falas de quatrocentos anos, fossem adequadas para encerrar o século vinte de Orlando. Diria eu, de calção pelo joelho ‒ «Nem senhoras nem senhores. Estou entre a vida e a morte, entre o princípio e o fim. Não sou homem, nem mulher… Já estou começando outro início e ainda nem terminei este fim Estou entre a vida e a morte» [...] Eu preferia que se regressasse, de facto, àquele ano de mil novecentos e vinte e oito, metade da personagem voasse no aeroplano, e a outra metade mostrasse os seios à lua e tivesse um colar de pérolas que ardesse na escuridão, conforme o original, e os dois fossem só um, que por instantes da vida se separavam. Para quê separar o que era de Orlando?

Lídia Jorge, O belo adormecido (Lisboa: Dom Quixote, 2004, pp. 15, 32-33, 40, 56, 63, 68-69)

Tilda Swinton no écran (1992) & Isabelle Huppert no palco (1993)