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18 de fevereiro de 2025

Rato de biblioteca

Carl Spitzweg, Der Bücherwurm, 1850
[Berlim, Museum Georg Schäfer]
«Os livros escrevem-se para se fazerem ouvir, não para estarem calados [...] não se escreve só por escrever, escreve-se para fazer mal a quem quer fazer mal. Um mal de palavras contra um mar de murros e pontapés e instrumentos de morte.»
Elena Ferrante, História da menina perdida (2014)

Nos dias em que havia um canal de televisão entre nós, sobrava muito mais tempo livre dedicado à leitura. A realidade é que nessa época cinzenta de brandos costumes, os livros não eram um bem essencial. Nem de longe. Os preços proibitivos para os rendimentos não permitiam o luxo de os adquirir. A ida às bibliotecas impunha-se. Assim estas estivessem à nossa disposição e nos oferecessem os títulos a que ansiávamos aceder.

O prazer pela leitura revelou-se-me muito cedo. Primeiro limitei-me à decifração periclitante das histórias aos quadradinhos que me chegavam às mãos. Lembro-me das tiras coloridas publicadas por alguns jornais de tiragem nacional. Depois restava-me o prazer de entrar nas livrarias do meu burgo, para olhar as capas dos livros e tocar num ou outro se me fosse possível. Ficaram-me os nomes sonantes da Parnaso, Tália e Tertúlia.

O gosto pelos livros impressos a cheirar a tinta atingiu o seu pleno quando a carrinha da Gulbenkian começou a visitar a minha cidade, carregada de tomos na biblioteca itinerante sobre rodas. Por essa altura, também, passei a usufruir dos exemplares acabadinhos de chegar à biblioteca de turma que a minha turma do Ciclo Preparatório começara a organizar de Língua, História Pátria, como então julgo se chamava a disciplina de Português.

Não sou nem nunca fui um rato de biblioteca. Sempre que recorri aos seus (em)préstimos fi-lo pela ausência de livros em casa. Foi esta necessidade absoluta que me levou a frequentar com algum afinco a biblioteca municipal do parque da cidade da rainha. Nesse in illo tempore distante, explorei estante atrás de estante, autor atrás de autor, livro atrás de livro. Depois, comecei a compor a minha própria biblioteca pessoal com a qual coabito.

Junto a mim, tenho agora comigo a Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, ancorada na história das duas amigas geniais que tinham uma paixão muito especial pela leitura e alguma aptidão pela escrita. Tanto uma como outra eram leitoras assíduas à biblioteca do bairro onde viviam. Uma delas requeria em seu nome e da família o número máximo permitido, que os livros se escrevem para serem ouvidos e não para estarem calados. Nem mais.