2 de abril de 2025

Pevides e tremoços ao domingo e fiadas de pinhões em dias de festa

 ANEXINS
De ruim cabaça não sai boa pevide.
Carapau sem osso come-se como se fosse tremoço

No tempo em que ter um televisor em casa era um luxo inusitado e as transmissões se resumiam a escassas horas diárias, os jogos de futebol ou de hóquei eram seguidos efusivamente nos postos de rádio pelos fãs duma e doutra modalidade. Ter uma telefonia em casa era então uma realidade mais comum, mas, mesmo assim, havia o hábito de passar as tardes de domingo num local público, onde houvesse um aparelho retransmissor ligado para os relatos mais apetecidos da jornada. As tabernas de bairro constituíam nesses tempos dos meus verdes anos um espaço adequado para tal. A boa companhia dos amigos ajudava a seguir emotivamente o historial da partida, convívio geralmente regado pelos adultos com um copo de cinco branco ou tinto e um pires de pevides e tremoços.

Nunca fui um ouvinte atento dessas reportagens desportivas narradas ao pormenor por vozes estridentes especialmente treinadas para tal. A cacofonia resultante de tal prática radiofónica nunca me arrebatou por aí além os sentidos. O resultado final das partidas bastava-me à saciedade. Lembro-me, todavia, do ambiente de grande euforia que emanava ruidosamente do interior da venda de bebidas e petiscos do Sr. Clementino, junto ao chafariz d'El-Rei, no cruzamento da Capitão Filipe de Sousa com a Sangreman Henriques, arruamentos centrais do meu burgo natal. Passava habitualmente à sua porta nessas ocasiões semanais, para comprar à Ti Maria uma dose bem medida de pevides tremoços, para depois degustar tranquilamente em casa esse manjar pantagruélico digno dos deuses olímpicos.

Para fugir aos golos gritados a plenos pulmões na tasca da esquina, bastava sintonizar como alternativa a EN2. A música clássica cedia lugar nesse horário às séries musicais contínuas, sem palavreado escusado à mistura ou longos hiatos publicitários a separar as faixas instrumentais e vocais selecionadas. A proporção entre as cantigas alternavam na proporção de 1/4 de temas nacionais/internacionais. É que nas décadas pretéritas de 60/70, as rádios ainda reservavam uma parcela relevante de tempo às composições interpretadas em português, espanhol, francês e italiano, para além duma ou outra em alemão e até em inglês. Com um livro requisitado na biblioteca aberto entre mãos e um prato de pevides e tremoços ao lado, as melodias fluíam ao ritmo melódico duma tarde domingueira.

A banca de pevides e tremoços  não se deixa ver à porta da tasca vizinha da minha casa de infância. As partidas de futebol seguem-se atualmente nos diversos canais de sinal aberto ou por cabo das TV e os campeonatos de hóquei há muito deixaram de cativar os espetadores/ouvintes quando passaram a ser ganhos por outros. Tal como as sementes torradas de abóbora que abandonaram o horizonte visível de eventos ao darem autonomia às amarelinhas de trincar rendidas de morte aos encantos duma imperial estupidamente gelada. Amendoins, pipocas e azeitonas só entrariam em cena hoje em dia ou à sua beira. De repente lembrei-me das fiadas de pinhões comprados em dia de festa na praça da fruta nas manhãs de domingo. Haverá que lá voltar para testar se ainda existem.

27 de março de 2025

Luís de Camões, três autos, farsas ou comédias ao gosto maneirista

 
Alcmena
Ah senhor Amphitrião | Onde está todo meu bem | Pois meus olhos vos não vem, | Fallarei c'o coração, | Que dentro n’alma vos tem. | Ausentes duas vontades, | Qual corre móres perigos, | Qual soffre mais crueldades, | Se vós entre os inimigos, | Se eu entre as saudades? | Que a ventura, que vos traz | Tão longe da vossa terra, | Tantos desconcertos faz, | Que se vos levou á guerra, | Não me quis leixar em paz. | Bromia, quem, com vida ter, | Da vida já desespera | Que lhe poderás dizer?
Luís de Camões, Auto dos Anfatriões (1587)

No momento em que se cumpre o quinto centenário do nascimento de Camões, nada melhor do que aproveitar o Dia Mundial do Teatro para dar voz a três peças por si gizadas nesse século dourado das letras lusitanas. Lembrar que o grande poeta lírico das Rimas e épico d'Os Lusíadas também emprestou o seu engenho e arte dramática aos autos, farsas ou comédias de sabor popular vicentino e cultura clássica greco-latina. Gizou-as em português e castelhano, em redondilha maior com algumas cenas prosificadas, publicadas todas elas com caráter póstumo: Anfitriões e Filodemo, juntamente com outros autores maneiristas em 1587 e separadamente em 1615; El-rei Seleuco, algo tardiamente em 1645; e a obra conjunta camoniana em 1782.

Tudo leva a crer que a Comedia dos Enfantriões tenha sido redigida e representada nos últimos anos que o autor terá passado em Coimbra, provavelmente depois de D. João III ter transferido a Universidade para essa cidade em 1537, até então sediada em Lisboa. Tê-lo-á feito enquanto hipotético colegial de Humanidades, onde se terá afeito aos mitos greco-romanos, mormente no do amor de Júpiter por Alcmena, a fiel esposa de Anfitrião, o rei lendário de Tirinto que empresta o nome ao auto. Aproveitando-se da ausência do rival, por se achar a combater os Teléboas, a suprema divindade olímpica toma a forma física do marido legítimo da amada, com quem passa uma noite, advindo desse ardil o nascimento de Hércules. As demais peripécias legadas pela tradição clássica antiga são atualizadas por Camões a seu modo, tal como Plauto o fizera em latim na homónima Amphitruo (c. 206 AEC) e outros o farão também por sua vez.

Pensa-se que a redação da Comedia d'El-Rey Selevco se situe entre 1543 e 1545, a anteceder o seu desterro da Corte para o Ribatejo em 1546. É que segundo a tese tradicional ainda seguida hoje em dia por alguns, o autor teria feito alusões veladas ao casamento em terceiras núpcias de D. Manuel I com D. Leonor de Áustria, até então destinada ao príncipe herdeiro D. João. Está por provar a veracidade da suspeita, o que não impede de se fixar uma série de paralelismos entre os factos históricos conhecidos e o argumento dramático levado a cena. Tal como Plutarco já havia contado nas Βίοι Παράλληλοι (100-120 EC), as Vidas paralelas compostas em grego que Camões terá lido em latim, o príncipe herdeiro da Síria apaixona-se pela madrasta e adoece, levando o pai a cedê-la ao filho em casamento, para evitar assim seu sofrimento e livrar da lei da morte. A versão portuguesa quinhentista segue em linhas gerais a fonte clássica que o inspirara e adapta-o mais uma vez à sua visão maneirista estes enredos singulares de manifesto agrado popular.

A entrada em cena dos interlocutores da Comedia de Filodemo, a mais longa e elaborada da trilogia, é antecedida por um minucioso Argumento, quase dispensando a representação sequente. Camões retoma aqui a divisão em cinco atos, já ensaiado nos dois Anfitriões, o real e o falso, ausente nos amores cruzados de pai-filho-madrasta do imediato, estruturado num extenso Prólogo dialogado e num ato da peça. A ação reparte-se por duas gerações, separadas entre si por um naufrágio e pela morte dos pais dos protagonistas mais jovens. No final, um casal de irmãos acaba por se casar com um outro casal de irmãos e tudo termina em bem. Com um cheirinho fugaz às relações e notícias que mais tarde Bernardo Gomes de Brito reunirá na História Trágico-Marítima (1735-1736), os amores de Filodemo-Dionisa e de Venadoro-Florimana, compostos e representados na Índia por volta de 1555, enviam-nos para a roda das novelas pastoris e dos livros de cavalarias, muito em voga então, num período maneirista de transição veloz dos ideais renascentistas para os barrocos pós-tridentinos.

Lidas as três comédias e confrontados as suas linhas compositivas, apuramos que a vertente clássica presente na designação genérica e temas abordados em duas delas são derrotadas pelo pendor tradicional desenvolvido na sua totalidade. O decassílabo heroico ou sáfico de desenho épico e lírico das rimas construídas segundo os modelos da medida nova é substituído pelo septissílabo usual nas formas cultivadas pela medida velha. O tom sério, grave, sóbrio das grandes formas teatrais greco-latinas são substituídas pelo pendor jocoso, burlesco, cómico dos autos de sabor vicentino. O trágico deixa-se contaminar pelo cómico e surge-nos horizonte a tragicomédia, a comédia formal sai de cena e dá lugar à farsa real. Esta a trajetória de Camões, num século marcado pela mudança de tempos e vontades, mas também e sempre fiel à raízes ancestrais que moldaram de forma particular e indelével do ser portuguesa ou, se preferirmos, lusitana.

Editiones principes: 1587, 1615, 1615, 1645

24 de março de 2025

Natalia Ginzburg e o léxico familiar dos Levi de Palermo instalados em Turim

«Nella mia casa paterna, quand'ero ragazzina, a tavola, se io o i miei fratelli rovesciavamo il bicchiere sulla tovaglia, o lasciavamo cadere un coltello, la voce di mio padre tuonava: – Non fate malagrazie!
Se inzuppavamo il pane nella salsa, gridava: – Non leccate i piatti! Non fate sbrodeghezzi! non fate potacci! Sbrodeghezzi e potacci erano, per mio padre, anche i quadri moderni, che non poteva soffrire.»
Diceva: – Voialtri non sapete stare a tavola! Non siete gente da portare nei loghi!
E diceva: – Voialtri che fate tanti sbrodeghezzi, se foste a una table d'hôte in Inghilterra, vi manderebbero subito via.»

Natalia Ginzburg informa os leitores, na «Advertência» de abertura ao Léxico familiar (1963), de serem todos os lugares, factos, pessoas, nomes e apelidos citados nesse livro reais, verdadeiros, extraídos da sua memória e revelados ao público em forma de romance. Como também confessa, terá omitido um ou outro aspecto que lhe diziam respeito, apenas por não ter muita vontade de falar de si mesma. Deixo em aberto se assim é ou não. É que quer a autora queira quer não, todos os eventos registados num livro, para ser lido como uma crónica, passam a pertencer à esfera da ficção, do faz-de-conta cuspido e escarrado. Não há volta possível a dar. Sem entrar na história propriamente dita, suspeita-se logo da existência duma série de alusões quase obrigatórias a Palermo na Sicília, onde foi dada à luz em 1916, e de sobressaírem referências vividas desde então até à data de publicação do escrito, a uma distância de quase meio século. Nada mal.  

Seguem-se cerca de duzentas páginas concentradas num capítulo unitário, apesar da presença dum conjunto de segmentos narrativos separados entre si por um espaçamento ligeiramente alargado. Se as minhas contas não falharam, perfarão o número redondo de quarenta e quatro fragmentos de dimensão variada, a marcarem o ritmo lento e imperceptível da passagem do tempo, nunca indicado de modo explícito, mas fáceis de precisar, quando confrontamos os eventos internos do relato com as referências aos externos de caráter histórico chamados de tempos a tempos à colação. As duas guerras mundiais, os períodos que as precederam e sucederam, os episódios mais marcantes da ascensão do fascismo na Itália e as suas repercussões por toda parte, como a ocupação nazi do reino e a campanha racial, associadas a prisões, desterros, exílios, fugas e mortes. A história cruza-se a cada passo com a História, mormente quando se acerca, envolve e persegue a comunidade judaica, com a qual a relatora partilha laços familiares e de sangue muito estreitos.

O aparecimento da figura de Leone Guinzburg, a meio das memórias autobiográficas romanceadas em curso, marca, de certo modo, uma viragem do relato para os aspetos mais pessoais que envolvem a autora. A limitação dessa entrada em cena por um par de asteriscos apresenta, de si, uma atenção especial àquele editor, escritor, jornalista, professor, ativista político, resistente e herói antifascista judeu italiano, de origem russa e ucraniana, primeiro marido da narradora, aquele que lhe oferecerá o apelido literário pelo qual é conhecida na república das letras. E nesta fase do discurso que os nomes altissonantes dos protagonistas da oposição à ditadura totalitária dos camisas negras são catapultados para um plano de destaque numa ficção feita de factos efetivamente acontecidos. A sua enumeração exaustiva seria necessariamente copiosa e demorada. Que se encontrem, então, na leitura do texto redigido de viva voz pelo testemunho exemplar de quem os viveu de corpo presente.

Lido o livro de fio a pavio, ponto a ponto, do inicial ao final, podemos confirmar terem os propósitos inscritos na advertência preliminar sido cumpridos. O elemento mais destacado do clã siciliano dos Levi de Palermo instalados em Turim limita-se a seguir à risca o programa discursivo inscrito no título. Prioriza as idiossincrasias de cada um dos seus familiares próximos e distantes, estendidas aos diferentes círculos de amizades traçados e que os ajudam a definir como um todo. Autorrefere-se muito de raspão, em duas penadas, calando mesmo o seu percurso pessoal pela esfera da escrita, pelos seus sucessos editoriais e prémios recebidos. Porém, é no modo como projeta amplamente nos outros a sua visão especial do mundo que muito paulatinamente acaba por se revelar de corpo inteiro aos olhos do leitor. Excelente exercício de quem sabe tratar por tu a arte de dar vida à escrita com palavras do dia a dia, de transformar a prosa poética de que é feita na poesia integral que a envolve.  

EPÍGRAFE
«Na minha casa paterna, nos meus tempos de menina, à mesa, se eu ou os meus irmãos entornávamos o copo em cima da toalha, ou deixávamos cair uma faca, a voz do meu pai retumbava: — Tenham modos! 
Se molhávamos o pão no molho, gritava: — Não lambam os pratos! Não sejam nojentos! Não sejam repugnantes! 
Nojentos e repugnantes eram também, para o meu pai, os quadros modernos, que ele não podia suportar.
Dizia: — Vocês não sabem estar à mesa! Não se pode levar‑vos a lado nenhum.
E dizia: — Vocês, com esses nojos que fazem, se estivessem numa table d'hôte em Inglaterra, eram imediatamente postos fora. — Porque ele tinha a Inglaterra na máxima conta. Via‑a como o mais alto exemplo de civilização de todo o mundo.»
Natalia Ginzburg, Léxico Familiar (1963)

21 de março de 2025

A Fortuna de Camões

José de Guimarães, Camões (1985)
S O N E T O
No Dia Mundial da Poesia

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos

Luís de Camões
Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 25.
Obs.:
Hipotético prólogo duma compilação de poemas líricas, organizado por Camões numa fase adiantada da sua vida e que abre as duas edições quinhentistas do poeta. (1595, 1598)

18 de março de 2025

Olhares de Albrecht Dürer olhados por si mesmo e por quem os quiser olhar

Albrecht Dürer, Selbstbildnis mit Landschaft (1498)
[Madrid, Museo Nacional del Prado]

O autorretrato viajante...

Passei pelo Museu do Prado em 2016 e o meu olhar não se cruzou com o olhar de Albrech Dürer captado em formato de Autorretrato. Na altura, não me apercebi da ausência inexplicável dum olhar seu que já tinham olhado detidamente em visitas anteriores. Quando me apercebi da falta de atenção pessoal então cometida, atribui o facto a ter ocorrido durante uma passagem algo apressada pelas vastas e labirínticas salas da mais famosa coleção de obras de pintura de Madrid. É que a minha atenção nessa primavera já distante e o meu interesse imediato estavam decididamente voltados para a grande exposição ali organizada em honra de Hieronymus Bosch, por ocasião do quinto centenário da sua morte.

Socorri-me da Net para recordar o olhar penetrante do grande mestre renascentista, depois completado nos livros de pintura que o dão a conhecer e até na página oficial do Museu de Arte Antiga de Lisboa. Foi então aí que desvendei o enigma misterioso do seu sumiço madrileno, assinalado aquando da minha última passagem pela capital espanhola. Descobri nessa altura, que o olhar autofixado a óleo numa tela viajara do Passeo del Prado para a rua das Janelas Verdes. Deixara de olhar e ser olhado por quatro meses numa sala majestosa da pinacoteca criada pela rainha Isabel de Bragança por uma sala nobre de exposições temporárias do palácio mandado edificar por D. Francisco de Távora.

Olhados à distância com o olhar duma memória antiga, atualizados com os recursos impressos/virtuais postos à disposição de quem olha e é olhado, revejo o perfil autorretratado a meio corpo do gravurista, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão. Os jogos de olhar de Dürer veem-me à mente como se os estivesse a olhar pela primeira vez. O ambiente cénico que então o envolvia evaporou-se. Supérfluo, inútil, dispensável. Reolho-o sentado de perfil junto a uma janela aberta para o exterior, de mãos cruzadas, em trajo de gala talhado de acordo com as estéticas do olhar da época. A sua, a nossa, a vindoura. Aquela que o olhar da arte fixa para ser olhado para todo o sempre.

12 de março de 2025

Caminhar, pedalar, nadar & yogar

Bastard Helene, Randonnée (2020)

Mens sana in corpore sano...

Nunca fui praticante de grandes desportos. Em miúdo andava de triciclo no largo do chafariz d’el-rei e de bicicleta alugada no parque da rainha das caldas. Nada de mais. Jogar à bola com intuito competitivo nunca fez parte dos meus planos traçados a curto ou a longo prazo. Aliás, a bronquite crónica que me começou a fazer companhia desde tenra idade, sempre me inibiu de grandes folias físicas, como correr, saltar, pular e outras atividades afins.

Abandonado o recreio da primária e entrado já no secundário, deixei gradualmente de participar nas aulas normais de educação física e acabei por integrar um grupo restrito de ginástica respiratória, que, depois, mantive noutras paragens fora das instalações escolares. Completava-as sem dificuldade de maior e com algum prazer pelos amplos percursos palmilhados na malha urbana da grande cidade, para onde me mudara transitoriamente.

Em tempos de férias que vão, lancei-me em atividades físicas de maior fôlego com algum cheiro a desporto. Atirei-me às banhadas nos embalses estremenhos do Guadiana espanhol, pus horas a fio o pé no pedal para bicicletar ao longo dos canais flamengos do Limburgo belga e holandês, pratiquei dia após dia randonnées pédestres nas routes bretãs da Fôret de Brocéliande e walking hikings e nos rails irlandeses do Killarney National Park no Kerry.

Depois de ter ensaiado um pouco de montanhismo nas serras de Sintra e Arrábida, investi q.b. no Massif Central e Alpes franceses, lancei-me a aventuras mais amenas nas serranias algarvias de Monchique e do Caldeirão, em escaladas antigas agora substituídas pelas passeatas mais planas pelos trilhos da quinta do Ludo ou da Ria Formosa, pelos sapais de Castro Marim, nas arribas da Ponta de Sagres e nos areais das ilhas-barreira. 

Nos dias e noites que agora fluem, o sonho antigo de fazer o Caminho de Santiago continua de pé, mas a energia para a efetuar é que se dissipou. Deixadas de lado as bicicletadas pela cintura citadina de Faro e as braçadas nas piscinas municipais, restam-me as marchas de fim de domingo e as sessões bissemanais de yoga. Movimentos tranquilos de quem não tem pressa de chegar e posturas milenares vindas das míticas Índias Orientais. Namastê!     

6 de março de 2025

Haruki Murakami, a busca do carneiro selvagem com uma estrela no dorso

「言いたくないんなら、言わなくてもいい」と男は言った。「その代わり君が羊を探し出すんだ。これが我々の最後の条件だ。今日から二ヵ月以内に君が羊を探し出せれば、我々は君が欲しいだけの報酬を出す。もし探し出せなければ、君の会社も君もおしまいだ。それでいいか?」
 村上春樹, 『羊をめぐる冒険 (1982)

Ao que consta, Haruki Murakami terá obtido o seu primeiro grande sucesso editorial dentro e fora das fronteiras insulares do Japão com o Em busca do carneiro selvagem (1982). Para quem entrou em contacto com a sua obra publicada em data posterior, as frases e páginas iniciais deste romance remetem-nos de imediato para a arte de contar muito especial deste eterno candidato ao Prémio Nobel da Literatura, galardão este que, com toda a probabilidade, nunca virá a receber. Palpites que, para o autor, pouco ou nada afetarão ou tirarão aos seus fiéis leitores, espalhados pelas várias partes do mundo, a vontade e prazer de viajar pelas histórias por si criadas ao longo dos tempos. Junta-se ao enorme rol de escritores ostracizados por Estocolmo e com mais ledores do que muitos dos distinguidos pela Academia Sueca.

O mais estranho neste texto maiormente Estranho, enquanto género teórico da literatura do insólito, é a omissão clara de sérias fugas da esfera do natural para a do sobrenatural, ao invés do verificado em títulos mais recentes. A presença dum Fantástico de hesitações seguidas no rasto das diversas variantes do Maravilhoso, nitidamente assumido, atestado e aceite, primam pela ausência. Tudo se passa num ambiente nipónico atual ‒ ou daquele em que foi captado pela ficção, centrada na década de 70 ‒, povoado por personagens sem nome próprio e apelido ou reduzido a etiquetas estereotipadas, provenientes do imaginário infantil dos contos da carochinha, nem sempre maiusculizados ou reduzidas a uma mera sigla, tais como maria-vai-com-todos, Líder Supremo, Homem Estranho, Rato, J., Condutor, Professor Carneiro, homem-carneiro, bem como ao «eu» implícito ou explícito do narrador, um jovem publicitário de Tóquio, divorciado e a caminho dos 30 anos de idade.

A badana de abertura da versão portuguesa, dado à estampa pela Casa das Letras, resume em três curtos parágrafos as linhas gerais que estruturam o relato, notas precisas que as casas distribuidoras depois registam ipsis verbis nas suas páginas de divulgação digital. Em poucas palavras, envia-nos para a tarefa detetivesca imposta ao relator-ator de encontrar um carneiro selvagem, invulgar, diferente dos demais, por exibir uma mancha de nascença em forma de estrela gravada no dorso e ser possuidor de propriedades extraordinárias que ultrapassam a compreensão humana. É certo que as oito partes e quarenta e três capítulos, enquadrados por um Prelúdio e um Epílogo, nos fornecem um número desmedido de pormenores pouco práticos de elencar neste espaço, mas que a arte do grande mestre japonês de associar palavras faz muito melhor nas mais de três centenas e meio de páginas que compõem a crónica de factos acontecidos ou tidos como tal. Leiamo-los com proveito e deleite. Não custa nada.

Na reta final do relatório investigativo redigido em forma de romance, ouvimos um dos partícipes afirmar estar morto, confissão singular de âmbito irreal até então afastado e que, à luz dos eventos até então revelados, nos leva a duvidar da sua veracidade. O predomínio dos sonhos descritos pelo fabulador leva-nos a dirigir a natureza de tal testemunho para o domínio restrito/total do imaginário onírico ou até do ilusório, causado pela solidão extrema a que se vira condenado. Coagido pelas exigências persecutórias do mandatário, sujeito às alucinações geradas por um coágulo de sangue no cérebro ou nas drogas tomadas para o debelar, o detetive forçado vê-se obrigado a achar o paradeiro do carneiro estrelado, suposto causador de todos os delírios prodigiosos, como o de invadir o corpo das pessoas, pondo ponto final às suas buscas policiais e relato das mesmas. Fá-lo à sua maneira, sem apelo nem agravo. Refaz o seu estilo de vida e prepara-se para encetar um novo capítulo da sua existência, longe agora do olhar atento dos leitores, que, ao fecharem o livro, já estarão à espera de de encontrar um outro, feito à medida única do grande criador de heróis/anti-heróis da imaginação literária.

EÍGRAFE
«- Não és obrigado a falar, se não queres – referiu o homem. – Em vez disso, vais partir em busca do carneiro. São essas as nossas condições. Se dentro de dois meses, a partir de agora, conseguires dar com o carneiro, estamos dispostos a oferecer-te a recompensa que pedires. Agora, caso não o encontres, tanto tu como a tua empresa estarão acabados. De acordo?»
Haruki Murakami, Em busca do carneiro selvagem 
(Lx: CdL, 2007; P.6, cap.18, p.155)