
No tempo em que ter um televisor em casa era um luxo inusitado e as transmissões se resumiam a escassas horas diárias, os jogos de futebol ou de hóquei eram seguidos efusivamente nos postos de rádio pelos fãs duma e doutra modalidade. Ter uma telefonia em casa era então uma realidade mais comum, mas, mesmo assim, havia o hábito de passar as tardes de domingo num local público, onde houvesse um aparelho retransmissor ligado para os relatos mais apetecidos da jornada. As tabernas de bairro constituíam nesses tempos dos meus verdes anos um espaço adequado para tal. A boa companhia dos amigos ajudava a seguir emotivamente o historial da partida, convívio geralmente regado pelos adultos com um copo de cinco branco ou tinto e um pires de pevides e tremoços.
Nunca fui um ouvinte atento dessas reportagens desportivas narradas ao pormenor por vozes estridentes especialmente treinadas para tal. A cacofonia resultante de tal prática radiofónica nunca me arrebatou por aí além os sentidos. O resultado final das partidas bastava-me à saciedade. Lembro-me, todavia, do ambiente de grande euforia que emanava ruidosamente do interior da venda de bebidas e petiscos do Sr. Clementino, junto ao chafariz d'El-Rei, no cruzamento da Capitão Filipe de Sousa com a Sangreman Henriques, arruamentos centrais do meu burgo natal. Passava habitualmente à sua porta nessas ocasiões semanais, para comprar à Ti Maria uma dose bem medida de pevides e tremoços, para depois degustar tranquilamente em casa esse manjar pantagruélico digno dos deuses olímpicos.
Para fugir aos golos gritados a plenos pulmões na tasca da esquina, bastava sintonizar como alternativa a EN2. A música clássica cedia lugar nesse horário às séries musicais contínuas, sem palavreado escusado à mistura ou longos hiatos publicitários a separar as faixas instrumentais e vocais selecionadas. A proporção entre as cantigas alternavam na proporção de 1/4 de temas nacionais/internacionais. É que nas décadas pretéritas de 60/70, as rádios ainda reservavam uma parcela relevante de tempo às composições interpretadas em português, espanhol, francês e italiano, para além duma ou outra em alemão e até em inglês. Com um livro requisitado na biblioteca aberto entre mãos e um prato de pevides e tremoços ao lado, as melodias fluíam ao ritmo melódico duma tarde domingueira.
A banca de pevides e tremoços já não se deixa ver à porta da tasca vizinha da minha casa de infância. As partidas de futebol seguem-se atualmente nos diversos canais de sinal aberto ou por cabo das TV e os campeonatos de hóquei há muito deixaram de cativar os espetadores/ouvintes quando passaram a ser ganhos por outros. Tal como as sementes torradas de abóbora que abandonaram o horizonte visível de eventos ao darem autonomia às amarelinhas de trincar rendidas de morte aos encantos duma imperial estupidamente gelada. Amendoins, pipocas e azeitonas só entrariam em cena hoje em dia ou à sua beira. De repente lembrei-me das fiadas de pinhões comprados em dia de festa na praça da fruta nas manhãs de domingo. Haverá que lá voltar para testar se ainda existem.

As fiadas de pinhões ainda surgem na praça, mas a um preço incomparável ao desse tempo.
ResponderEliminarRecordo muito bem o vendedor que percorria as ruas do bairro num triciclo adaptado, transportando um manancial de coisas boas: tremoços, pevides, amendoins, alfarrobas, nougats, chupas, etc e tal…
ResponderEliminarAinda hoje adoro degustar uma cervejinha com tremoços ou amendoins (que eu chamo de “alcagoitas), as pevides é que desaparecem do cardápio, quiçá por causa do sal…
Sabores que ficam para sempre…
Ainda me lembro dos pregões alfacinhas à fava rica, que tive o privilégio de saborear quando a minha avó materna se lembrava de as preparar. Havia também as castanhas piladas e, naturalmente os amendoins a que alguns ainda chamam de alcagoitas. Tudo coisas boas e, na altura, a preço razoável. A minha nostalgia, todavia, continua ligada ao casamento das pevides e tremoços...
Eliminar"Os colares" de pinhões, penso que saíram do rol das iguarias! O que eu gostava de me abonecar com eles e ao mesmo tempo, ir comendo-os, até ficar só o fio, penso que cordelito!
ResponderEliminarAo que parece, as fiadas de pinhões da nossa infância ainda se vendem na praça da fruta das CdR, mas agora a preços concorrentes dos legítimos colares de pérolas ou diamantes...
ResponderEliminarTremoços e pevides, tão bons para a saúde, a tomar uma imperial com os amigos na esplanada da Tentadora ou outra, em Campo de Ourique... Bons tempos!
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