
PRESÉPIO1. Estrebaria, estábulo.2. Nicho ou construção que se arma nas festas católicas de Natal e Reis, representando geralmente o estábulo onde terá nascido Jesus Cristo.Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
Assim que começavam as férias natalícias, principiava a tarefa anual de armar o presépio lá de casa. Numa ida a um pinhal estremenho, eu e o meu irmão recolhíamos o musgo necessário para cobrir o tampo da mesa onde se estenderiam os campos daquele país inventado. Com meia dúzia de seixos apanhados à beira-mar e um punhado de areia das dunas, erguíamos as montanhas e traçávamos os caminhos a perder de vista no nosso imaginário infantil. A terminar, pegávamos nas pratas de embrulhar chocolate e transformávamo-las em rios agitados, cascatas saltitantes e lagos tranquilos de faz-de-conta.
A passagem da paisagem natural para a humanizada fazia-se com as figuras de barro comprados na praça da fruta, religiosamente embrulhadas em papel de jornal e guardadas, ano após ano, num recanto protegido do sótão, dentro dum caixote de madeira. Depois era só dispor a preceito cada um deles no local mais adequado do espaço cénico levantado. O pai, a mãe e o recém-nascido no centro do nicho simbólico, rodeados da vaca e do burro, dos pastores visitantes e respetivos rebanhos visitantes. Tudo o mais era fruto da imaginação que os oleiros da região punham à nossa disposição.
Caminhando a passo lento e por entre o casario envolvente, os três Reis Magos lá se iam deslocando até à gruta estrelada de Belém. O afastamento do castelo altaneiro, colocado na parte mais recôndita daquela representação plástica do nascimento de Jesus de Nazaré, era marcado, dia após dia, pelo movimento milimétrico dos camelos inseparáveis de Belchior, Gaspar e Baltasar. É que alguém havia de os ajudar a transportar o ouro, o incenso e a mirra que tinham carregado tão devotamente desde o remoto Oriente para oferecer ao anunciado Messias Salvador do Mundo há tanto tempo esperado.
O meu presépio dinâmico de antanho transformou-se no presépio estático de hoje em dia. Foi dado o devido descanso aos camelos dos adoradores do Rei dos Judeus. Estes encontram-se já de joelhos junto à sagrada família, na companhia dum casal de pastores, três ovelhas e um anjo protetor. Catorze figuras do meu presépio atual, comprado a preço justo numa loja de artesanato tradicional latino-americano. Talvez incas, maias ou astecas. Para o caso tanto faz. Cumprem o mesmo efeito simbólico que os portugueses e nem precisam de musgo do campo, areia do pinhal ou seixos do mar para brilhar.
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