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7 de julho de 2026

Fronteiras de Conil de la Frontera

CONIL DE LA FRONTERA
[Archivo de la Fundación Casa Medina Sidonia]
frontera
(De fronte y -era.)
f. Confín de un Estado.  
aduana, confín, demarcación, divisoria, término.
Diccionario de la lengua española

No final dos anos 60, fui convidado a passar parte das férias de verão em Conil de la Frontera. Os tempos de guerra colonial impediram-me de rumar até à Costa de la Luz andaluza. As fronteiras políticas então traçadas entre o sagrado torrão lusitano e o resto do mundo estavam totalmente vedadas a todos os mancebos nacionais em idade militar.

Em meados da década de 80, atravessei um par de vezes a pele de touro ibérica em direção a outras paragens. Passei sempre ao largo de Conil de la Frontera sem ter ensejo de visitar o casario branco e as praias douradas do pueblo gaditano. Na sua malha urbana não tinha os braços dos meus amigos de juventude abertos à minha espera.

Na entrada do segundo quartel do novo milénio, o perfil de Conil de la Frontera voltou a acenar-me no horizonte. O gesto foi feito à distância por um sobrevivente dessa pandilla de antanho. Decidira residir nesse local de veraneio onde em tempos fora feliz e queria reviver. A fruir o sol, o mar, a natureza e a presença dos amigos.

A ligação a Conil de la Frontera faz-se hoje numa assentada. O Espaço Schengen suprimiu as fronteiras tão bem como a conquista de Granada fizera outrora com as aduanas cristãs e muçulmanas. Após 350 km de autoestradas, pisei por fim a terra prometida nos verdes anos e concretizada agora nos bem maduros. Nem mais!

Dibujo de Conil y su costa, 1727

4 de junho de 2026

La copine bretonne

Le vrai bol breton en faïence

Nous nous sommes rencontrées pour la première fois en 1976, au lendemain de la Révolution des Œillets. Mon amie Gigi avait décidé de venir voir sur place de ses propres yeux ce qui se passait. Elle a commencé son voyage à Lagos et l'a terminé à Faro. Ce qui devait être un court séjour a duré toute une semaine. Ce qu'elle a découvert l'a immédiatement captivée. Cette rencontre fortuite l'a marquée à jamais et reste gravée dans sa mémoire jusqu’à présent.

Elle est revenue ici il y a une semaine à peine pour fêter ensemble l'anniversaire d'une amitié ininterrompue d'un demi-siècle. Elle était accompagnée d'autres copains communs, rencontrés au fil de nos voyages incessants entre la Bretagne et l'Algarve, la France et le Portugal. Ils ont rejoint les amis tissés de ce côté-ci de la frontière entre ces deux patries sœurs. Indifférents les et les autres au fil des jours, des mois et des années, comme s'il était passé hier.

Au fil du temps, de vacances en vacances, pas à pas, nous avons découvert l'hexagone gaulois, le rectangle portugais et d'autres coins plus ou moins éloignés des environs européens. Îles atlantiques et normandes, pays flamands et maghrébins. Bro Armor et Bro Argoat, Sotavento et Barlavento. Nous avons gravi des montagnes, traversé des mers, visité des bourgs et bourgades. Nous avons pique-niqué, fait du vélo et célébré la vie. Copains et copines. Voilà !

En cinquante ans, la jeunesse s'en est allée sans arrêt, la maturité s'est épuisée tout d'un coup et le troisième âge s'est installée à grand vitesse. Seule l'amitié est venue pour rester, et la voici, prête à donner et à persister pour toujours. Indifférent à l'usure du temps, aux rides, malaises, raideurs, douleurs et faiblesses, éventuelles et permanentes, à l'écume des jours. Patine empilée impossible à enleverDécade après décade, appelant à bien d'autres.

10 de outubro de 2025

Le jambonneau du Mont Saint-Michel

 Le Mont Saint-Michel dans la Fête de l'Archange
« Les très riches heures du duc de Berry »

DICTON
Le Couesnon dans sa folie a mis le Mont en Normandie

 Un piquenique dans les rives du Couesnon                

A história do Mont-Saint-Michel é antiga e cheia de peripécias. Há séculos que funciona como fronteira disputada entre dois ducados franceses há muito extintos como entidades independentes, a Bretanha dos arminhos negros em fundo branco e a Normandia dos leões dourados em campo vermelho. Aquele que já foi bretão e deixou de ser e voltou a ser normando tal como ao nascer. Dizem que terá sido do Couesnon, que na sua corrida furiosa para o mar, colocou o monte na orla direita do seu leito.

Nas diversas vezes que passei por ali, tive sempre o ensejo de testemunhar a impetuosidade extrema da corrente daquele riacho fronteiriço e a magnitude desmedida da maré que cobre todo o seu largo estuário em menos dum nada. Nessas ocasiões de preia-mar total, a formação rochosa converte-se numa ilhota perdida na vasta baía do Mont-Sant-Michel no Canal da Mancha, o grande braço de mar pertencente ao Oceano Atlântico que separa a Pequena Bretanha francesa da Grã-Bretanha inglesa.

Deixando de parte as conflitos ancestrais transfronteiriças gaulesas, carregados de mitos e contramitos ancestrais, vem-me à memória uma dessas visitas estivais ao site touristique du pays montois, associada a um piquenique memorável na margem oriental do rio, realizado numa zona verdejante aprazível junto ao parque de estacionamento. Fi-lo na companhia dum grupo animado de copains et copines, ávidos de ver/rever a abadia dedicada a Saint-Michel, o anjo mensageiro divino que deu nome ao monte.

Estendida a toalha usada nestas alturas e postos os pâtées, rillettes, andouilles, fromages, fruits et boissons habituais, a nossa anfitriã Gigi avisou que ia comprar la spécialité d'un traiteur du coin qu'il fallait forcément goûter. Voltou ao fim duma hora bem contada. A demora devera-se mais à turba que entupia as ruelas exíguas do burgo do que à distância percorrida. Trouxe-nos um jambonneau de porc plus bon marché qu'une omelette de la Mère PoulardDe facto, há surpresas que superam as nossas melhores expectativas.

 Jambonneau de porc & Omelette de la Mère Poulard

18 de setembro de 2025

Un balcon de l'Armor à Bourg-l'Évêque

                           Le bourg-l'Évêque à Rennes                           

Petits-déjs d'été au pays rennais...

No coração da antiga Roazhon, ergue-se um dos mais emblemáticos edifícios da capital bretã, o Armor (bret. ar mor = port. «o mar»). Do alto do 6.º andar do apartamento da minha amiga Gigi, admirei pela primeira vez a globalidade do antigo quarteirão do Bourg-l'Évêque, limitado pela rua de Brest nos subúrbios da cidade.

O verão de 77 foi particularmente quente, permitindo-nos tomar as refeições na larga varanda panorâmica do prédio, tal como faríamos numa esplanada de café. Destaco sobretudo os pequenos-almoços, já que durante o resto do dia se piquenicava ao ar livre num prado verde do pays rennais ou numa praia à beira-mar.

Recordo-me do odor inebriante do café acabado de fazer e do sabor particular dos craquelans, brioches ou croissants que alternavam entre si, bem como a presença fiel duma baguette artesanal bem crocante, barrados uns e outros com uma compote reine-claude ou uma dose generosa de beurre salé de Guérrande.

Com um Guide Vert aberto e um mapa Michelin sobre a mesa daquele balcão sobre o Bourg-l'Évêque, traçávamos cada manhã os itinerários de descoberta do BZH (a sigla bê-zed-hache da histórica Breizh). Bosques, costas, campos e mares dos departamentos ducais de Ille-et Vilaine, Côtes-d'Armor, Finistère et Morbihan.

Cela fait plus de deux ans que je n'ai pas visité la Bretagne. La compagnie de mes copains et copines bretons me manquent de plus en plus. Il faut absolument les revoir aussi tôt possible. Cela fera un demi-siècle que nous nous sommes rencontrés, une date qui ne peut rester sans être célébrée. Voilà, ça y est !

Brioche - Craquelans - Baguettes - Croissants
Beurre salé - Compote Reine-Claude - Tasse à café

25 de agosto de 2025

La saveur d'été de la ratatouille niçoise

Ratatolha - Ratatouio - Ratatoulho - Retatouille

C’est pas d’la soupe, c’est du rata...

Viajei para França pela primeira vez em meados de 70. Depois da travessia épica do Alentejo, apanhei em Santa Aplónia o Sud-Express até Bordéus com uma paragem técnica em Hendyaia, que me permitiu fazer a ligação a Bordéus. mudei para um comboio regional até Redon, no departamento bretão de Ille-et-Vilaine, que me levou numa velha Micheline ligeira até à estação central de Rennes, onde cheguei com 24 horas de atraso. Por então, o TGV ainda estava longe de entrar em cena, tal como nos nossos dias entre nós. Tant pis !

A travessia dos Pirenéus catapultou-me num ápice para um universo de singularidades difíceis de imaginar por quem conhecia à data parcelas do espaço ibérico. Esta nova realidade vivenciada a todos os níveis, incluindo a língua que eu julgava dominar e só então me dei conta do abismo colossal existente entre a livresca aprendida nos manuais escolares e a falada no dia a dia. O espanto veio logo à mesa com as entradas da Gigi: rabanetes com manteiga, cenoura ralada, beterraba com salsa, milho cozido, toranja rosada à colherVoilà ! 

O mais saboroso prato de resistência ligeira desse verão talvez tenha sido a ratatouille, uma receita niçoise à base de legumes frescos da época. É feita com berinjelas, courgettes, pimentos, cebolas, alho e tomates, cortados em cubos e estufados lentamente em azeite. No final, tempera-se com uma pitada de ervas da Provença: alecrim, manjericão, tomilho, segurelha, manjerona, estragão, funcho, salva, louro e orégãos. Uma sinestesia plena de sabores, cores, texturas e aromas naturais para comer, repetir e chorar por mais. C'est tout !

Carte recette illustrée - Etsy France

10 de julho de 2025

A cantar y a bailar por sevillanas

Tomàs - Sevillanas

Qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años
Cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | Cuando tienen veinte años
qué alegría en su mirada y en sus andares qué garbo
qué alegría en su mirada | y en sus andares qué garbo
Morenita de ojos negros 
rubita de ojos azules, trigueña pelo castaño 
qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años 
Amigos de Ginés, Niñas de veinte años (1972)

Aprendi a gostar das sevillanas com a minha amiga Sónia. Amiga será um termo exagerado, quando centrada em alguém que tinha vergonha de me olhar ou falar. É que nessas idades ditas dos -teen, a diferença de seis anos mais corresponde a uma eternidade. Estou a vê-la à distância de muitas décadas a passar a ferro a roupa da família e a ouvir e a cantar uma seguidilla sevillana gravada numa cassete áudio de fita magnética. O ferro a vapor que manejava com vigor era uma novidade absoluta para mim. O leitor de cintas então em voga é, agora, um arcaísmo há muito caído em desuso.

Ainda tentei aprender a cantar e a bailar por sevillanas com a M. Esther, a irmã mais velha dos meus amigos extremeños, essa com uma idade bem mais próxima da minha. Mesmo assim, não se inibiu de me encarar e dizer sem tibieza no olhar e timidez no falar, que me faltava requiebro al canto y salero al bailar. Escusado será dizer que nem me atrevi a rascar una guitarra ou atirar-me com afinco ao repique de palillos. Fiquei-me pelo palmateo a marcar o rítmo da melodia e deixei de parte a arte da precursão acertada das castañuelas, na presença de entendidos ou tidos como tal.

A minha atração melódica pelas sevillanas não esmoreceu com o desaire obtido in illo tempore ao tentar cantá-las e bailá-las. Muito pelo contrário. Aquelas Niñas de veinte años, interpretadas pelos Amigos de Ginés e ouvidas à exaustão ficaram-me nos ouvidos. Até hoje. Esqueci-me de quase todas as rimas que lhe dão corpo, mas a melodia que as acompanhavam resistiu na sua totalidade ao tempo. Trauteio-as sem a presença de testemunhas indiscretas. E nem estou a falar das duas nenas minhas amigas de adolescências pretéritas há muito afastadas do meu horizonte de contactos. ¡Y olé!

14 de junho de 2024

Triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina

 Atahualpa Yupanqui - José Larralde - Jorge Cafrune 

Era un lindo caballo, mi caballo | Abría su relincho en la mañana, saludándolo al sol | Caracoleaba sobre el parche del camino cuando íbamos al pueblo | Y una noche, no sé qué le pasó, no sé qué le pasó | Y era un lindo caballo, mi caballo...
Zamba de mi esperanza | Amanecida como un querer | Sueño, sueño del alma | Que a veces muere sin florecer...
Quién me enseñó a ser bruto | Quién me enseñó, quién me enseñó | Si en la panza de mamá | No había ni escuela ni pizarron...

Entrei no universo mágico de Atahualpa Yupanqui ainda em Lisboa. numa época em que as rádios não se limitavam a passar a qualquer hora do dia e da noite música anglo-saxónica. Não me recordo bem do momento exato em que ouvi pela primeira vez a voz, a guitarra e os versos de Don Ata, ao ritmo tradicional cantado-recitado-dedilhado das payadas, chacareras, tonadasvalses, milongas, coplas e zambas argentinas. Os textos originais ou coligidos do ¡Basta ya!, do Duerme negrito e das Preguntitas sobre Dios já os teria lido e relido nos encontros semanais da Capela do Rato. Surpreendente. Depois gastei uma cassete magnética que uma amiga minha me gravara e oferecera, à força de tanto a reproduzir.

O fascínio por uma zamba cantada, recitada e trinada ao som duma guitarra criolla não deixou de crescer até hoje. Ampliou-se com as aprendizagens que as minhas amizades estremenhas de longa data me foram ofertando. Lembro uma incursão noturna pelas vastas planícies raianas de Olivença e da charla que tive com o meu amigo Fernando G. sobre os cantautores, pesquisadores, compiladores e divulgadores da cultura nativa argentina. Dos grandes vultos então referidos, fixei o de Jorge Cafrune. Já em Badajoz, comprei uma cinta do recém-descoberto El Turco que ainda ouço sempre que para aí estou virado. Delicio-me agora com os duetos partilhados com o jovem Marito na Virgen India. ¡Precioso! 

A triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina, moldada pelos sentires dos aedos, vates, jograis atuais, culmina com José Larralde, El Cantor Orillero, ainda hoje ativo e a encantar-nos com o seu sentir profundo e pungente. Notei-o desde os primeiros acordes declamados e entoados do Hombre e das demais fachas incluídas no álbum a que dá nome. Os dialetos, falares e formas particulares de realizar a língua oficial do país andino-atlântico, imposta pelos invasores e conquistadores vindos do outro lado do mar 500 anos antes. Escutei-o religiosamente em terras hispânicas e escuto-o agora enquanto escrevo. paixões que vêm para ficar e perdurar. Afortunadamente.

28 de setembro de 2023

Las rebeldías de Jeanette

Jeanette, Soy Rebelde Tour 2023 T-Shirt

«Yo soy rebelde | porque el mundo me ha hecho así | porque nadie me ha tratado con amor | porque nadie me ha querido nunca oír. | Yo soy rebelde | porque siempre sin razón | me negaron todo aquello que pedí | y me dieron solamente incomprensión || y quisiera ser como el niño aquel | como el hombre aquel que es feliz | y quisiera dar lo que hay en mi | todo a cambio de una amistad | y soñar | y vivir | y olvidar el rencor | y cantar | y reir | y sentir solo amor.»
Manuel Alejandro, Soy rebelde (1971)

Ecos lejanos de La Inglesita...

No início da década de 70, falhei umas apetecíveis férias de verão em Conil de la Frontera, uma estação balnear andaluza da Costa de la Luz, a dois passos de Cádiz e Gibraltar. O Botas de Santa Comba acabara de esticar o pernil cerca dum ano, mas a perpetuação do anquilosado império colonial português teimava em manter-se de pé e à custa de muitos balões de oxigénio, ministrados cirurgicamente em três frentes africanas de combate antiguerrilha independentista. A maioridade estava às portas e de mãos dadas com o serviço militar obrigatório, a impedirem-me de cruzar as estremas do Caia e rumar decididamente até às águas cálidas do sul ibérico.

Nesses tempos de espera prolongada por uma mudança que tardava a chegar, seguia com apreensão contida o evoluir da situação pouco invejada do tal jardim à beira-mar plantado. De Espanha não vinham nem bons ventos nem bons casamentos. Não vinha em bom rigor absolutamente nada. Os dois eviternos rivais de glórias perdidas no passado viviam de costas voltadas como se ignorassem a existência efetiva do outro. Um encontro recente numa estância termal alterara de modo radical as minhas ideias feitas e batidas sobre a realidade vivida do lado de da raia. Fiz amigos perenes naquele ambiente sulfuroso de águas mornas e conversas calorosas. 

Dias vêm, dias vão, salta-se à vez do lazer para o quefazer. Os meus ócios/negócios de estudante na grande cidade resumiam-se então a muito pouco. Omito-os. Recebi nesses dias uma lembrança dos meus amigos das termas com quem estabelecera um contacto que dura até hoje. Um disco que ocupava à data os tops musicais de vendas. Um sencillo 45rpm da desconhecidíssima Jeanette. Na Cara A do vinil, La Inglesita rendida à cultura espanhola interpretava uma muita juvenil Soy rebelde (1971). Como recado subliminar escreviam-me desde a margem interdita do além Caia que, de vez em quando, urgia exercer o direito capital a uma certa e acertada à rebeldia.

Quando voltei ao convívio adiado dos meus amigos em terras outrora vedadas, a fama efémera da jovem londrina radicada na pele de touro peninsular  se perdera muito na espuma dos dias. Os acordes das rebeldias adolescentes com que fora lançada permaneceram todavia gravados na memória coletiva das gentes. As palavras entoadas pela cantante hispano-britânica mantêm-se teimosamente no ar, de pedra e cal, sem darem o menor sinal de cair e a justificarem a realização dum world tour comemorativo do 50.º aniversário da sua criação. Mistério análogo à fugaz existência das estrelas-cadentesSurgem, brilham, morrem e renascem viçosas no ano seguinte.