16 de abril de 2026

Olhares do Pai Tomás

Anónimo, Idealized view of a plantation in the 'Sunny South', with African Americans picking cotton (1883)
[Everett Historical Collection]

MISSISSÍPI

Ao longo de cem milhas, ou mais, a norte de Nova Orleães, o rio é mais alto do que as margens e o seu imenso caudal desliza entre diques maciços de mais de seis metros de altura. Do convés do vapor, como se habitasse um castelo flutuante, o viajante consegue abarcar toda a paisagem por milhas e milhas em redor. Dessa forma, nas extensas plantações que se desenrolavam diante dos seus olhos, uma após outra, Tom via estender-se um mapa da vida que o esperava. 

Via, ao longe, os escravos na sua labuta; via, mais distantes, em inúmeras plantações, os povoados de casebres dispostos em longas filas que reluziam à luz do sol, afastados das mansões imponentes e das zonas de ócio dos senhores; e enquanto este cenário animado se desenrolava, o seu pobre e insensato coração voltava a ver a herdade do Kentucky com as suas frondosas faias, a casa do senhor com os seus grandes e frescos aposentos e, logo ao lado, a pequena cabana coberta pela roseira brava e pela begónia. Conseguia ver os rostos familiares dos amigos, que haviam crescido com ele desde a infância; via a sua mulher atarefada com a preparação do jantar; ouvia as gargalhadas alegres dos filhos a brincar e o gorjeio do bebé nos seus joelhos; então, de súbito, tudo se desvanecia e ele via novamente os canaviais e os ciprestes e as plantações deslizando, e ouvia de novo o ronco e o ranger das engrenagens, e tudo lhe dizia, claramente, que essa fase da sua vida desaparecera para sempre.

Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)

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