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17 de maio de 2026

Grande gabador, pequeno fazedor...

Sou tão incrível, sou tão incrível, e por perto há gemidos, tormentos, gritos...
Sergey V. (colagem)
Megalomanias                                                        

«O campo na cidade foi moda para durar, inspirada pela megalomania demencial de Nero Cláudio Eneobardo. Cópias contrafeitas e comparativamente diminutas da soberba mansão dourada ergueram-se outrora até aos confins do Império, mesmo depois de não restarem vestígios das edificações do matricida. Desmesurados jardins, pavilhões de fantasia, lagoas artificiais, ninfas de pedra a espreitar por detrás dos arbustos exóticos, assim fora a casa urbana de Máximo Cantaber erigida por um seu antepassado e muitas vezes remodelada depois...»

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde (1994)

Assim começa o Cap. VIII dum dos mais conseguidos romances dados à estampa entre nós nos finais do derradeiro século e milénio. A megalomania toma conta do relato para relatar a antiga mansão familiar dum dos interveniente centrais da ficção. Tudo se passa aos 213 anos da era de Augusto, 928 da fundação da Urbe, i.e., por volta de 175 EC, na imaginária cidade de Tarcisis, da muito real província romana da Lusitânia, imperava então Marco Aurélio Antonino, o Filósofo.

Muita água passou entretanto debaixo das pontes deste mundo, mas os delírios megalómanos de alguns senhores do mundo nunca deixaram de se manifestar e seria demasiado exaustivo arrolá-los um atrás doutro. Mansões desmedidas, palácios deslumbrantes, castelos descomunais, metrópoles colossais, impérios globais, verdadeiras feiras de vaidades a concorrerem em grandeza faraónica uns com os outros, a erigirem-se e a caírem, quais gigantes com cabeça de ouro e pés de barro.

O Führer nazi do bigode de piaçaba queria construir um império de 1000 anos que caiu ao fim de 12 antes de erigir uma mega cidade capital do mundo. A nova Germânia projetada não chegou a sair do papel e a velha Berlim teve de ser reerguida dos escombros no final da guerra. Desfez-se em fumo sem ter visto a cúpula do Salão do Povo, capaz de reter a respiração da multidão e criar nuvens e chuva no seu interior, nem ver o Arco do Triunfo a superar em altura o napoleónico de Paris.

Duce fascista com pose de forcado de caras não se satisfez com um único arco triunfal. A cidade eterna já tinha um número q.b. dessas estruturas monumentais herdadas do período imperial. Ao invés, promoveu a construção do Palazzo della Civilità Italiana, ou Coliseu Quadrado, símbolo da nova Roma. Teria 54 arcos por fachada, 9 em linha e 6 em coluna, num total de 216. Ainda hoje pode ser visto, adaptado agora aos novos tempos que os antigos legaram aos recentes.   

O Trumpoleon yankee, o Sweet Potato Hitler e Mango Mussolini, não se fica por menos. Entre muitas minudências, mandou demolir parte da Casa Branca para construir o maior salão de baile jamais visto, pretende erguer em Washington um Arco do Triunfo digno da sua galática grandeza e juntar um busto seu no Monte Rushmore, o padrão evocativo dos fundadores da terra do Tio Sam. Megalomanias do T.A.C.O., o Trump Always Chickens Out, ou grande gabador, pequeno fazedor.

Na saga do Harry Potter, J. K. Rowling refere o abjeto Lord Voldemort, cujo nome não se pode dizer. No mundo real, o jeito a tomar com alguns figurões devia ser exatamente o mesmo, de modo a mitigar a visibilidade que os mass media lhes aferem dia a dia. Resta-nos esperar que a queda do atual manda-chuva global seja breve e eficaz, sem recorrer para tal ao suicídio, linchamento ou exílio dos seus modelos. A destituição seria suficiente para acenar com um bye-bye e um farewell sentidos.

23 de abril de 2026

A loucura que acaba cedo é a melhor

Gustave Courbet, Le Désespéré (c.1844-1845)
[
Collection Qatar Museums - Musée d’Orsay]
FALA A LOUCURA
I - Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscia como os tolos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses. [...] III - Não considero sapientes aqueles que julgam estultíssimo o elogio próprio. Se isto é estulto, é o que me convém. Não quadra tão bem à Loucura como soprar na trombeta da fama e autoelogiar-se. Quem é que pode exprimir-se melhor do que eu mesma? [...] «Já que ninguém me gaba, gabo-me eu a mim mesma».
Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura (1511)

Trampomanias, Trampolinices & Trampopitecas...                      

Abro a rádio e a telefonia logo pela manhã e os ruídos estridentes dos conflitos bélicos ecoam sem descanso em todos os canais noticiosos. A loucura instalou-se de vez à nossa volta por pensamentos, palavras e atos. Veio com armas e bagagens para ficar e sem levantar arraiais. Os senhores do mundo não dão tréguas aos vassalos submissos. A lei do mais forte impera. É um fartar vilanagem. Os novos imperadores, czares, basileus, pretensos reis dos reis, crescem como cogumelos em terreno baldio, estação após estação, sem apelo nem agravo.

Suetónio traça n'A Vida dos doze Césares (121EC) as excentricidades, vícios e loucuras de cada um até à derrocada final. Calígula nomeou o cavalo Incitatus como cônsul e declarou-se um deus vivo com direito a adoração. Nero terá cantado e tocado lira enquanto a cidade de Roma ardia, mandada incendiar a fim de nela construir um mega palácio à sua dimensão imperial. Um foi assassinado por um tribuno da guarda pretoriana, o outro foi obrigado a suicidar-se com a ajuda do secretário para fugir a um soldado romano que se aproximava.

As monarquias europeias não necessitaram de meios tão drásticos para afastar os seus soberanos atacados com surtos de insanidade mental. Limitaram-se a substitui-los no poder por uma regência adequada. Assim o fizeram os reis cristianíssimos com Carlos VI de França, os católicos com Joana-a-Louca de Castela, os fidelíssimos com D. Maria I de Portugal, Algarves e Brasil, os britânicos com Jorge III do Reino Unido ou os germânicos com Luís II da Baviera. Deram-lhes um exílio mais ou menos dourado e lavaram as mãos.

O bota-fora dos presidentes narcisistas, paranoicos e megalómanos agilizou-seFindo o mandato, toda a psicose autoritária, arrogante e criminosa é lançada às ortigas. Por vezes sente-se a necessidade de antecipar a retirada dos tiranetes maquiavélicos o mais rápido possível. É que, como se diz, a loucura que acaba cedo é a melhor. Assim se faça com o pretenso xerife do mundo. As fanfarronices, trampomaníacas, trampolinieiras e trampolitecas já excederam há muito todos os limites viáveis. Xô-xô, vade-retro para nunca mais!

22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

29 de maio de 2025

Original & Imitação

Um peixinho dourado com barbatana dorsal de tubarão

Não queiras sapateiro tocar rabecão…

Qualidade & Quantidade

Quando os complexos de inferioridade se transformam em complexos de superioridade, a mania das grandezas manifesta-se em toda a sua extensão. Desmesuradamente. A originalidade evapora-se e a imitação explode. Os exemplos não faltam. Pequenos e grandes, antigos e recentes, imprevisíveis e expectáveis. Deixemos os de menor calibre de fora e convoquemos alguns dos mais visíveis. Nascidos numa etapa civilizacional longínqua, desenvolvidos num fluxo civilizacional contínuo e prenúncio duma evolução civilizacional vigente, perdida num horizonte de eventos ignotos, mas cada vez mais próximos do nosso ângulo de visão.

Começando com os Sumérios, não se sabe ao certo de onde vieram nem para onde foram. Provavelmente, quando inventaram a escrita, já teriam esquecido a sua proveniência e acabaram por se diluir no seio dos Acádios semitas. Nem uns nem outros se encarregaram de registar em nenhuma placa cuneiforme estes dados que em nada lhes interessaria documentar. As lendas do rei sumério de Uruk uniram-se na epopeia acádia de Gilgamesh. Estes aproveitaram-se da matéria-prima original, ampliaram-na a seu belo prazer e criaram um género novo que muitos outros depois imitaram, com Homero, Virgílio e Camões à cabeça de todos eles.

Na Idade dos Heróis épicos, Troia foi tomada, saqueada e incendiada pelos Aqueus, após um cerco de dez anos. Eneias consegue fugir e protagonizar um sem número de aventuras por terra e por mar até chegar à anelada península italiana. Aí, estará na origem da fundação lendária de Roma, cidade imperial que posteriormente conquistará toda o Mare Nostrum mediterrânico, incluindo os antigos territórios gregos. Com esta anexação punitiva, a nova senhora incontestável do mundo conhecido tenta demonstrar a alegada superioridade bélica latina sobre a invejada superioridade cultural helénica. Exageros à parte, cá se fazem cá se pagam.

Os eixos do poder mudaram-se para o novo mundo, levando consigo a secular matriz do velho continente. Para a ereção da capital, os seus arquitetos associaram as colunas e pilastras gregas aos arcos e cúpulas romanas. A acumulação desregrada de originais alheios imitados à exaustão encontra o expoente máximo no Capitólio, um misto de templos helénicos e de basílica latina ou dum bolo de noiva com vários andares. A sujeição da qualidade à quantidade, feita à medida do atual inquilino da Casa Branca, a alimentara-lhe o ego e a transformá-lo num lídimo César global, a vencer aos pontos a loucura de Nero, Calígula ou Caracala.

WASHINGTON, THE CAPITOL. (US-D.C.(1891) 

23 de fevereiro de 2020

As serpentinas coloridas do Rei Momo

M  O  M  O
"The Fool"
[from an 18th century minchiate playing card deck].
Γένος Νύκτας
Νὺξ δ᾽ ἔτεκεν στυγερόν τε Μόρον καὶ Κῆρα μέλαιναν καὶ Θάνατον, τέκε δ᾽ Ὕπνον, ἔτικτε δὲ φῦλον Ὀνείρων· - οὔ τινι κοιμηθεῖσα θεὰ τέκε Νὺξ ἐρεβεννή, - δεύτερον αὖ Μῶμον καὶ Ὀιζὺν ἀλγινόεσσαν Ἑσπερίδας θ᾽, ᾗς μῆλα πέρην κλυτοῦ Ὠκεανοῖο χρύσεα καλὰ μέλουσι φέροντά τε δένδρεα καρπόν.
Ησίοδος - Θεογονία (211-216)

Contam-nos os mitos helénicos registados pela tradição escrita e oral ser Momo a personificação do Sarcasmo. Hesíodo diz na Teogonia tratar-se duma divindade primordial dos escritores e poetas, filha da Noite e irmã das Hespérides, as fiéis guardiãs do jardim dos pomos de ouro ou dos Imortais. Luciano lembra no Hermotimus a avaliação trocista proferida contra as criações de Atena, Poseidon e Hefesto na qualidade de jurado dum concurso de deuses. Filóstrato ridiculariza nas Epístolas as infidelidades de Zeus para com Hera, pelo que se viu exilada do Monte Olimpo.

Um dos lances mais marcantes da sua faceta etiológica situa-se entre duas querelas armadas mítico-lendárias do mundo antigo: a Guerra de Tebas e a Guerra de Troia. Sem se ter batido em nenhuma delas, criticou a primeira e causou a segunda. Aconselhou Zeus a abandonar o plano de fulminar os mortais através dum contínuo bélico artificial. Para diminuir o excesso de população, bastava criar uma mulher muito bela que levasse as nações a baterem-se pela sua posse e assim se destruírem. Helena de Argos nasceu e preparou a entrada de Menelau e Páris em cena.   

Quando o mais belo soldado romano passou a desfilar nas Saturnais, com uma coroa na cabeça, uma máscara a tapar-lhe o rosto e um boneco na mão a simbolizar a loucura, a subida do Rei Momo ao trono das folias acabava de surgir. As festividades rituais dedicadas a Saturno, o deus das colheitas, resistiram aos caprichos do tempo e converteram-se aos poucos nas atuais batalhas de flor do Entrudo. Na sua aparição anual, empunha o cetro do poder real e brinda-nos com mãos-cheias de serpentinas coloridas de papel a celebrar o efémero reinado de três dias.

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A realeza portuguesa foi mandada para o caixote de lixo da História na primeira década de novecentos. A coisa pública que lhe sucedeu só guardou no seu calendário de festividades toleradas quatro cabeças coroadas dum reino fingido de faz-de-conta. Tolera-as em duas únicas ocasiões e sem direito a feriado civil ou religiosoOs Reis Magos em janeiro e o Rei Momo em fevereiro/março. O ouro, incenso e mirra da tríade natalícia foi substituída pelos confetti do monarca carnavalesco. Tudo muito q.b. Noblesse oblige. E assim a lenda se fez fábula e o mito contramito.

22 de outubro de 2019

Os gigantes e castelos manchegos do Cavaleiro da Triste Figura

Octavio Ocampo, Visiones del Quijote, 1989
INCIPITS
En un lugar de la Mancha de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor...»
Miguel de Cervantes
El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, 1605 (I, 1)
«El sabio Alisolán, historiador no menos moderno que verdadero, dice que siendo expelidos los moros agarenos de Aragón, de cuya nación él decendía, entre ciertos anales de historias halló escrita en arábigo la tercera salida que hizo del lugar del Argamesilla el invicto hidalgo don Quijote de la Mancha, para ir a unas justas que se hacían en la insigne ciudad de Zaragoza, y dice desta manera...»
Alonso Fernández de Avellaneda
Segundo tomo del ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, 1614 (V, 1)
Uma viagem de R5 ao Perigord Vert francês levou-me a atravessar a Espanha de cabo a rabo. A mudança de século e milénio ainda não se dera e as minhas filhas ainda nos acompanhavam de bom grado nas férias de verão e sem grandes protestos no horizonte. Para tornar o percurso menos monótono, decidimos alternar as grandes tiradas das autoestradas por pequenas etapas traçadas sem pressas nas estradas secundárias. Resolvemos aventurar-nos na Meseta Central e visitar com algum pormenor as rotas seguidas pelo Cavaleiro da Triste Figura, El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha.

E como Cervantes omitiu expressamente o local de origem do leitor compulsivo de livros de cavalarias, seguimos a versão de Avellaneda e rumámos a Argamesilla. O sucesso do desvio de percurso foi total. E se a ficção atrai ficção, então a fantasia atrai mais fantasia e põe a imaginação a alimentar a imaginação. Ali encontrámos a cada canto e recanto a recriação de todas as aventuras e desventuras do pacato fidalgo Quijada ou Quesada, que aos cinquenta anos se converteu no cavaleiro Don Quijote de la Mancha, o companheiro inseparável do fiel escudeiro Sancho Panza de Barataria.

O castillo de Peñarroya, o Pósito de la Tercia e a Casa de Medrano levaram-nos aos cenários seiscentistas da novela. Trocámos a Casa Rural Alonso Quijano pelos antigos trilhos percorridos pela dupla manchega. O nosso Rocinante de quatro rodas não se cruzou com a Dulcineia del Toboso, mas passou por muitos moinhos de vento e montes de casas que à distância se confundiam à perfeição com os gigantes e castelos quixotescos. E assim a ilusão ótica do mundo real virou loucura no mundo romanesco dum cavaleiro andarilho desenhado pela pena criativa do célebre Manco de Lepanto.
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As férias costumam passar a correr mas as lembranças que delas temos perduram sempre no tempo. No regresso a casa, comprei uma versão infantil ilustrada do Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, que durante algumas noites de inverno visitámos de fio a pavio. O volume ainda existe no meio doutros contadores de histórias impressas em livro. Um dia destes tiro-me de cuidados e ainda vou ao seu encontro. Entretanto fico-me com o original que numa outra viagem trouxe do Principat d'Andorra, local por onde o grande sonhador de sonhos impossíveis nunca terá passado.


29 de maio de 2017

De sábio e de louco...

HIERONYMUS BOSCH

«A extração da pedra da loucura»

[Museo del Prado - Madrid - 1475-1480]
«Haverá coisa mais louca, dizem, do que adular o povo com uma candidatura, comprar os votos, conquistar os aplausos de tantos loucos, comprazer-se com as aclamações deles, deixar-se  levar em triunfo como um ídolo, ou estar no fórum como uma estátua? Acrescei a isto a ostentação dos nomes e cognomes. Acrescei as honras divinas prestadas a homúnculos, acrescei as cerimónias públicas em que são celerados tiranos. Tudo coisas louquíssimas, para se rir das quais não bastaria um Demócrito».
Erasmo de Roterdão, Elogio da loucura (1511, xxvii)

Taxa de demência dos grandes do mundo

Adolfo Hitler queria conquistar um império que durasse mil anos. Es-palhou a morte aos milhões durante doze anos e depois suicidou-se numa casamata de Berlim. Napoleão Bonaparte queria conquistar o maior império europeu de todos os tempos. Foi derrotado pelo general inverno e morreu envenenado no exílio Santa Helena. Filipe II foi o primeiro líder dum império global onde o sol nunca se punha. Faleceu entregue às suas mil maleitas no mosteiro-palácio do Escorial e o mundo não tremeu como se temia.

Die Welt ist ein Irrenhaus und hier ist die Zentrale. Le paradis des fous est l'enfer des sages. Cada loco con su tema. De sábio e louco todos temos um pouco, dizemos nós em português, língua familiar ao tio de D. Sebastião, o Desejado, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Aquele que queria conquistar o Quinto Império do Mundo e desapareceu em Alcácer-Quibir.

The different sorts of madness are innumerable. Reza em inglês o provérbio árabe que se pode aplicar a todos os tiranetes do mundo, no idioma que mais se identifica hoje em dia com a globalização. Dizem os mass-media planetários que Donald Trump foi eleito o Rei dos Loucos (König der NarrenRoi des fousRey de los locosKing of the Fools) na parada do primeiro de abril deste ano em Nova Iorque. Mentira ou verdade, os incautos que se cuidem, pois a loucura anda por aí à solta, em liberdade.