29 de junho de 2026

Visita das Fontes

Heinrich Füger
Dichter trinken am Kastalischen Quell das Wasser der Wahrheit, 1790
[
Poetas bebem a água da verdade na Fonte Castália]

Escrevo para subir às fontes. E voltar a nascer...
Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede (2001)

No sopé do Monte Parnaso, mesmo ali às portas do Oráculo de Delfos, jorra a Fonte de Castália, rodeada dum pequeno bosque de loureiros consagrados a Apolo, o deus da divina distância, protetor olímpico da verdade, símbolo da inspiração artística, líder orientador das nove musas do panteão helénico. Conta o mito que os aedos cantaram, os rapsodos divulgaram e a tradição preservou, ter o filho de Zeus e Leto acossado uma donzela local, que, para fugir ao assédio indesejado, se atirou à fonte sagrada a que deu o nome.

Tive ocasião de visitar em tempos a nascente de fluidos cristalinos e infundidores das profecias da sacerdotisa Pítia. Aproveitei para me refrescar à sua sombra e para beber das suas águas límpidas. Não pretendi ser como os poetas que ali procuravam o auxílio do divino Febo luminoso e das exímias cantoras das ciências e das artes. Limitei-me a aproveitar o momento para recuperar a energia exigida na escalada íngreme até ao mais importante centro religioso da Grécia Antiga, designado por muitos como o umbigo do mundo.

Através das letras, protagonizou Miguel de Cervantes a Viaje del Parnaso (1614), uma jornada composta em tercetos encadeados compostos em verso decassilábico, com sabor satírico, alegórico e burlesco. A pedido do deus Mercúrio, efetua uma demanda bélica à residência de Apolo Délfico e das Musas Parnasianas, para assim defender o monte sagrado dum exército de maus poetas que o pretendiam assaltar e tomar. No final da contenda, a boa poesia sai vencedora e a ordem poética é restaurada em toda a sua pujança.

Tenho por casa umas quantas estantes pejadas de livros de todos os géneros, tipos e tamanhos, grandes, médios e pequenos. À medida que vão chegando, agrupo-os nas prateleiras disponíveis, lado a lado, uns por cima dos outros por baixo, em primeira e segunda fila, uns à frente outros atrás. Abro-os, leio-os, sublinho-os, comento-os, protejo-os. Dia após dia, ano após ano, década após década. De manhã, à tarde e à noite. Incessantemente. Sempre à espera de novas surpresas quotidianas a alegrar-nos a vida.

Na Castália mítica do Monte Parnaso, a água da fonte sagrada jorra liberta dos maus poetas extirpados pelo Príncipe de los Ingenios e Manco de Lepanto. Na minha biblioteca caseira nenhum deles precisa de ser banhado nas águas do rio do esquecimento do reino das sombras. O Lethes foi convertido na Academia Sénior onde continuo a dar voz aos criadores dos heróis da imaginação. As agruras da vida ficam à porta, os prazeres da leitura entram na sala. O proveito e deleite são reis e senhores nesta visita das fontes.

Κασταλία
Qsar Lybia (Neápolis): Mosaico bizantino séc. vi

22 de junho de 2026

Ekphrasis Diacrónica

Manuel Ortega
Doña Inés de Suárez en la defensa de la ciudad de Santiago (1897)
[Museo Histórico Nacional, Santiago do Chile]

E assim se faz um herói ou uma heroína…

–¡Matadlos a todos! –ordené a los guardias en un tono imposible de reconocer como mi voz. 
Tanto los presos como los centinelas quedaron pasmados. 
–¿Que los matemos, señora? ¡Son los rehenes del gobernador! 
–¡Matadlos, he dicho! 
–¿Cómo queréis que lo hagamos? –preguntó uno de los soldados, espantado. 
–¡Así! 
Y entonces enarbolé la pesada espada a dos manos y la descargué con la fuerza del odio sobre el cacique que tenía más cerca, cercenándole el cuello de un solo tajo. El impulso del golpe me lanzó de rodillas al suelo, donde un chorro de sangre me saltó a la cara, mientras la cabeza rodaba a mis pies. El resto no lo recuerdo bien. Uno de los guardias aseguró después que decapité de igual forma a los otros seis prisioneros, pero el segundo dijo que no fue así, que ellos terminaron la tarea. No importa. El hecho es que en cuestión de minutos había siete cabezas por tierra. Que Dios me perdone. Cogí una por los pelos, salí a la plaza a trancos de gigante, me subí en los sacos de arena de la barricada y lancé mi horrendo trofeo por los aires con una fuerza descomunal, y un pavoroso grito de triunfo, que subió desde el fondo de la tierra, me atravesó entera y escapó vibrando como un trueno de mi pecho. La cabeza voló, dio varias vueltas y aterrizó en medio de la indiada. No me detuve a ver el efecto, regresé a la celda, cogí otras dos y las lancé en el costado opuesto de la plaza. Me parece que los guardias me trajeron las cuatro restantes, pero tampoco de eso estoy segura, tal vez yo misma fui a buscarlas. Sólo sé que no me fallaron los brazos para enviar las cabezas por los aires. Antes de que hubiese lanzado la última, una extraña quietud cayó sobre la plaza, el tiempo se detuvo, el humo se despejó y vimos que los indios, mudos, despavoridos, empezaban a retroceder, uno, dos, tres pasos, luego empujándose, salían a la carrera y se alejaban por las mismas calles que ya tenían tomadas. Transcurrió un tiempo infinito, o tal vez sólo un instante. El agobio me vino de golpe y los huesos se me deshicieron en espuma, entonces desperté de la pesadilla y pude darme cuenta del horror cometido. Me vi como me veía la gente a mi alrededor: un demonio desgreñado, cubierto de sangre, ya sin voz de tanto gritar. Se me doblaron las rodillas, sentí un brazo en la cintura y Rodrigo de Quiroga me levantó en vilo, me apretó contra la dureza de su armadura y me condujo a través de la plaza en medio del más profundo estupor.

Isabel Allende, Inés del alma mía (2006)
Obs.: 
Inés de Suárez (Plasencia, 1507-Santiago, 1580): conquistadora, enfermeira e militar espanhola, participante na conquista do Chile e na fundação de Santiago, tida como figura-chave na defesa da cidade durante o assédio mapuche de 1541.

16 de junho de 2026

Sono & Sonhos

Evelyn De Morgan, Nigth and Sleep (1878)
[London - De Morgan Centre]

Morrer, dormir, sonhar, talvez...

INTERRUPTOR

Clica-se a tecla dum interruptor e faz-se luz. Clica-se de novo essa tecla e reavemos o breu inicial. A sucessão do claro/escuro faz-se ao ritmo dum único click. Alternadamente, o tudo e o nada são-nos fornecidos por um dispositivo mecânico que suspende a passagem da corrente elétrica com um simples toque manual. O processo pode repetir-se amiúde até atingir o colapso final do comutador de energia. A eternidade é mais uma vez om produto da imaginação dos homens criadores dos deuses.

Mais fantasista do que os fabricantes de mecanismos atuais, Hesíodo atribuiu a Nyx o poder de dar à luz por partenogénese o incansável Thánatos e o seu irmão gémeo Hypnos, bem como a imensa tribo dos Oneiros. Por outras palavras do dia a dia, a Noite pariu sem fertilização masculina a dócil Morte e o pacífico Sono, o seio divino de todos os Sonhos humanos. Para compor o ramalhete mítico, Ovídio introduz a figura de Morfeu, capaz de dar forma às fantasias noturnas dos meros mortais adormecidos.

A resistência da irmandade pré-rafaelita à gramática renascentista não impediu Evelyn De Morgan de retratar, na Nigth and Sleep (1878), as figuras aladas da Noite e do Sono a pairarem sobre uma paisagem crepuscular, no seu afã imemorial de espalharem às mãos cheias papoilas vermelhas, inspiradoras dos Sonhos e das suas incontáveis fantasias. Nada nos garante que nesse esvoaçar idílico das duas potestades helénicas houvesse o propósito fatídico de privar algum adormecido de voltar a acordar pela manhã.

Para dramatizar um Sono sem Sonhos, com ou sem retorno ao mundo dos seres viventes, teremos de recorrer às palavras versificadas de Shakespeare, no Hamlet (c.1601), em que o ser ou não ser trágico se resume ao morrer, dormir, sonhar talvez. A frieza prosaica do estalido seco do interruptor que liga/desliga, entre Gaia e Thânatos, entre a personificação da Vida e da Morte, divindades primevas da Mãe Terra e do Pai Caos, origem do tudo e do nada, matéria-prima de onde tudo derivou e aonde tudo voltará.

10 de junho de 2026

Amor, tempo, rezão, fortuna e morte a celebrar o dia de Luís Vaz de Camões

Camões sobre tela a óleo de Abel Manta, Largo de Camões (1932)

S O N E T O 

A Morte, que dá vida, o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contra ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que ũa a outra mata,
a Morte contra Amor ajunta e altera;
ũa é Rezão contra a Fortuna austera;
outra, contra a Rezão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma.
Duas num corpo o Amor ajunte e una,

por que assi leve triunfante a palma
Amor da Morte, apesar da ausência,
do Tempo, da Rezão e da Fortuna.
 
Luís de Camões, Lírica completa - II [Sonetos]org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 298.

4 de junho de 2026

La copine bretonne

Le vrai bol breton en faïence

Nous nous sommes rencontrées pour la première fois en 1976, au lendemain de la Révolution des Œillets. Mon amie Gigi avait décidé de venir voir sur place de ses propres yeux ce qui se passait. Elle a commencé son voyage à Lagos et l'a terminé à Faro. Ce qui devait être un court séjour a duré toute une semaine. Ce qu'elle a découvert l'a immédiatement captivée. Cette rencontre fortuite l'a marquée à jamais et reste gravée dans sa mémoire jusqu’à présent.

Elle est revenue ici il y a une semaine à peine pour fêter ensemble l'anniversaire d'une amitié ininterrompue d'un demi-siècle. Elle était accompagnée d'autres copains communs, rencontrés au fil de nos voyages incessants entre la Bretagne et l'Algarve, la France et le Portugal. Ils ont rejoint les amis tissés de ce côté-ci de la frontière entre ces deux patries sœurs. Indifférents les et les autres au fil des jours, des mois et des années, comme s'il était passé hier.

Au fil du temps, de vacances en vacances, pas à pas, nous avons découvert l'hexagone gaulois, le rectangle portugais et d'autres coins plus ou moins éloignés des environs européens. Îles atlantiques et normandes, pays flamands et maghrébins. Bro Armor et Bro Argoat, Sotavento et Barlavento. Nous avons gravi des montagnes, traversé des mers, visité des bourgs et bourgades. Nous avons pique-niqué, fait du vélo et célébré la vie. Copains et copines. Voilà !

En cinquante ans, la jeunesse s'en est allée sans arrêt, la maturité s'est épuisée tout d'un coup et le troisième âge s'est installée à grand vitesse. Seule l'amitié est venue pour rester, et la voici, prête à donner et à persister pour toujours. Indifférent à l'usure du temps, aux rides, malaises, raideurs, douleurs et faiblesses, éventuelles et permanentes, à l'écume des jours. Patine empilée impossible à enleverDécade après décade, appelant à bien d'autres.