16 de abril de 2026

Olhares do Pai Tomás

Anónimo, Idealized view of a plantation in the 'Sunny South', with African Americans picking cotton (1883)
[Everett Historical Collection]

MISSISSÍPI

Ao longo de cem milhas, ou mais, a norte de Nova Orleães, o rio é mais alto do que as margens e o seu imenso caudal desliza entre diques maciços de mais de seis metros de altura. Do convés do vapor, como se habitasse um castelo flutuante, o viajante consegue abarcar toda a paisagem por milhas e milhas em redor. Dessa forma, nas extensas plantações que se desenrolavam diante dos seus olhos, uma após outra, Tom via estender-se um mapa da vida que o esperava. 

Via, ao longe, os escravos na sua labuta; via, mais distantes, em inúmeras plantações, os povoados de casebres dispostos em longas filas que reluziam à luz do sol, afastados das mansões imponentes e das zonas de ócio dos senhores; e enquanto este cenário animado se desenrolava, o seu pobre e insensato coração voltava a ver a herdade do Kentucky com as suas frondosas faias, a casa do senhor com os seus grandes e frescos aposentos e, logo ao lado, a pequena cabana coberta pela roseira brava e pela begónia. Conseguia ver os rostos familiares dos amigos, que haviam crescido com ele desde a infância; via a sua mulher atarefada com a preparação do jantar; ouvia as gargalhadas alegres dos filhos a brincar e o gorjeio do bebé nos seus joelhos; então, de súbito, tudo se desvanecia e ele via novamente os canaviais e os ciprestes e as plantações deslizando, e ouvia de novo o ronco e o ranger das engrenagens, e tudo lhe dizia, claramente, que essa fase da sua vida desaparecera para sempre.

Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)

11 de abril de 2026

Arthur's birthday parties

Team Arthur Lifetime Member
Happy birthday! - Tillykke til dig! - Buon compleanno!

Varreu-se-me da memória a minha primeira festa de aniversário. Provavelmente porque nessa época recuada a data se celebrasse duma forma mais tranquila, em família, sem magotes de convidados a cantar os parabéns a você e a bater palmas depois de apagadas as velas do bolo de anos. Lembro-me em contrapartida dos postais ilustrados que a minha avó Cristina então me enviava. Infelizmente, não guardo nenhum deles, deixados perdidos em caixas e gavetas há muito desaparecidas com a voragem dos tempos.

Os vislumbres mais nítidos apanharam-me crescidinho fora do país. Em 1995, as minhas meninas levaram-me a um rodízio de pizzas da Whitehall de Londres, tendo soprado a vela simbólica no President Hotel da Russel Square. Em 2015, ouvi cantar os parabéns no Parque Nacional dos Veados de Jægersborg, num piquenique com o meu núcleo familiar de Copenhaga. Em 2019, celebrei-o entre amigos, no Ristorante Il Bargello da Piazza della Signoria de Florença, à volta dum pizza napolitana mas sem velas a marcar o evento.

Todos as manhãs acordamos um dia e uma noite mais velhos. Cada dia de aniversário somamos ou diminuímos um ano à vida já vivida ou por viver. E continuamos a festejar indiferentes aos mais e menos quotidianos, a repetir o já dito e a dizer aqui ou algures. Em 2020 cantaram-me os parabéns na enfermaria dum hospital, em 2025 nos bastidores do Teatro das Figuras. Sem o canto e das palmas dos familiares, afastados pelas restrições do COVID e da arte de cena. Este ano será mais calmo. Quiçá sim, quiçá não...

2 de abril de 2026

Mente sã em corpo são

Corrida de atletas gregos em Olímpia

[Vaso grego, 431-434 - gettyimages]

Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
Fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium vitæ extremum inter munera ponat
naturæ, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis ærumnas credat saevosque labores
et venere et cenis et pluma Sardanapalli. 
Monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe 
tranquillæ per virtutem patet unica vitæ.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

Neste primeiro septenário de reformado, aposentado ou jubilado, tenho praticado a mente sã em corpo são a caminhar, a yogar, a cantar, a lecionar e a blogar. Faço-o regularmente todos os dias da semana de modo alternado, com breves intervalos nos meses mais quentes do estio meridional.

O intervalo este ano foi mais prolongado no dois primeiros itens da série. O município laranja da urbe findou as suas funções camarárias fechando as portas a todas as atividades desportivas inseridas no programa sénior, tendo sido retomadas nove meses escoados com a nova equipa camarária rosa.

Voltei ao equilíbrio lunar e solar das asanas, pranayamas, pratyharas e dharanas do Ioga, depois de ter passado em passo de corrida pelas práticas sem registo sânscrito do Pilatos. Hábitos antigos não se mudam do dia para a noite. Juntei as mãos e reavivei a ancestral saudação ritual hindu: Namastê!

As passeatas, marchas e corridas pelos trilhos, veredas e carreiros algarvios, por vales, campos e montes da região, a vencer riachos rurais, asfalto urbano ou terra batida, a andar é que se faz caminho. Sapatilhas nos pés, bastões nas mãos e a meta bem à vista no horizonte ou ao virar da esquina.

Leciono uma manhã por semana. Arejo os livros da biblioteca cá de casa, para lhes dar vida enquanto os abro, leio e comento. Garanto que os neurónios ainda continuam despertos e a funcionar em termos académicos, embora submetidos ao regime pro bono e dirigidos a um pública sénior, tal como eu.

Quem canta seus males espanta. Se for num coral ameniza a vida, se for em dois ainda melhorDepois vêm os concertos, participações, encontros dentro fora das divisas do quotidiano habitual. Plateias, anfiteatros, auditórios abrem-nos as portas e os acordes entoados a várias vozes ecoam em liberdade.

Palavra a palavra, frase a frase, ideia a ideia, as histórias vão surgindo dia a dia, mês a mês, ano a ano neste blogue composto em nome dum herói imaginário nado num romance medieval de cavalaria. E assim, o exercício semanal do corpo são em mente sã lá vai surgindo no fluir dos dias, dos meses e dos anos. 

EPÍGFRAFE 
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. | Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, | que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos | da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, | que desconheça a ira, nada cobice e creia mais | nos labores selvagens de Hércules do que | nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanápalo. | Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; | certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364)