22 de junho de 2021

Modiano, a busca da identidade perdida no labirinto da rua das lojas obscuras


« Jusque-là, tout m'a semblé si chaotique, si morcelé... Des lambeaux, des bribes de quelque chose, me revenaient brusquement au fil de mes recherches... Mais après tout, c'est peut-être ça, une vie...
   Est-ce qu'il s'agit bien de la mienne ? Ou de celle d'un autre dans laquelle je me suis glissé ? »
Patrick Modiano, Rue des boutiques obscures (1978)

Um ano antes de ter recebido o Prémio Nobel da Literatura, Patrick Modiano publicou com o selo editorial da Quarto-Gallimard uma coletânea de dez Romans (2013) que, a seu ver, fariam parte duma só obra e seriam a espinha dorsal de toda a sua produção criativa. No aparato mínimo que a acompanha, conta-se um breve Prefácio assinado pelo autor, seguido dum dossier fotográfico e documental, que ajudam a contextualizar a obra tanto em termos factuais como ficcionais. A componente real das individualidades constantes desse álbum inicial a preto e branco marca uma presença muito forte no todo impresso, muito embora a defina como uma espécie de biografia sonhada ou imaginada. Aproveita-se da sonoridade dos nomes citados para os converter de personalidades concretas identificáveis em personagens inventadas como notas musicais inseridas no tecido narrativo dos relatos.

Prosseguindo a minha viagem progressiva pela escrita do escritor e roteirista gaulês, dediquei a minha atenção ao sexto romance dado à luz em dez anos, que na versão portuguesa foi batizado de Na rua das lojas escuras e na brasileira de Uma rua de Roma, o que lhe valeria receber nesse ano de 1978 o prestigiado Prix Goncourt, depois de já ter visto o Les boulevards de ceinture galardoado em 1972 com o Grand prix du roman de l'Académie française. Um palmarés invejável para o jovem criador de histórias fingidas baseadas nas vividas. Apesar de assistirmos ao longo de todo o texto às peregrinações do narrador-protagonista por esplanadas de café, salas de restaurante e quartos de hotel, de o termos visto vaguear à toa por bairros das duas margens do Sena, a ter transposto pontes e arcadas, a atravessar parques e jardins, a palmilhar passeios e cais, a transitar por gares de metro e estações de caminho de ferro, a deambular sem parar por alamedas e avenidas, becos e calçadas, praças e pracetas, ruas e ruelas de Paris, das mais luminosas às mais sombrias, a verdade é que o arruamento que empresta o nome ao livro, Rue des boutiques obscures, nos transfere da França para a Itália, e nos remete para a Via delle Botteghe Oscure, de Roma, bem conhecida de Modiano, por aí ter vivido algum tempo, famosa por ter integrado o antigo gueto judaico da cidade e por ter albergado no seu seio a sede do PCI, o extinto Partito Comunista Italiano.

Lidos os livros inaugurais escritos entre 1968-1978, apercebemo-nos dum autêntico jogo de memórias criado pelas entidades narrativas que, em modo confessional a confundir-se com a autoficção, encetam uma busca incessante pela juventude perdida ou esquecida das décadas que enquadraram a Segunda Guerra Mundial, tempos de agressão e ocupação alemãs e resistência às forças invasoras do Reich. É o que se passa com Guy Roland, nome de empréstimo de Pedro McEvoy, ou talvez de Jimmy Pedro Stern, o herói/anti-herói amnésico e autor detetivesco do relatório de investigação que nos serve de guia nesse processo de clarificação das suas origens individuais apagadas na bruma dos factos vividos numa época indefinida e de fronteiras vagas e incertas. De vez em quando surge-lhe bruscamente um breve clarão do passado, logo rodeado duma bateria de dúvidas de espaços e de tempos indecisos, de resolução difícil de determinar, num exercício lúdico constante de imagens desfocadas de reminiscências feitas de claros-escuros, de luzes fugidias e de sombras persistentes.

As pesquisas encetadas por este homem sem passado não chegam a revelar-lhe, à distância dos anos anteriores à década de 60, a história espectral que o envolve e gostaria de ver contada com todos os pormenores muito obliterados por uma lembrança despovoada de ideias consistentes. A temática da ausência, anunciada logo nos parágrafos iniciais da exposição escrita em forma de romance, aprofundada pelo desconhecimento do paradeiro/sobrevivência de pessoas desaparecidas no deserto labiríntico da existência humana, associada à esperança sempre gorada de as rever, mantém-se inalterada até ao derradeiro parágrafo de inquirição confiada ao leitor, processo investigativo rematado, muito significativamente, por um ponto de interrogação irrevogável. As incertezas sentidas à partida da corresponde com a falta de certeza expressa à chegada. A penumbra das origens reina em todo o percurso encetado pelo detetive de serviço. Assim acontece muitas vezes no mundo real que nos rodeia. Assim acontece outras tantas vezes no universo das letras regidas pela imaginação.

2 comentários:

  1. Um texto fabuloso, Prof., a definir a escrita deste autor que ainda não conheco. Um sentimento de falta de identidade emana deste relato, envolto numa certa angústia existencial, despertando a vontade de saber mais...

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  2. Um texto muito bom e convidativo. Do autor apenas li um título, ficou a vontade de descobrir outros...

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