19 de fevereiro de 2026

Histórias de Hospital

 Hospital Real de Todos os Santos antes do Terramoto de Lisboa de 1755
[Anónimo, 1.ª metade do séc. xviii]
"hospital": latim hospitale [domus], casa de hóspedes.

Faz hoje seis anos precisos que ingressei no CHUA de Faro para um internamento rápido de três dias, logo transformado num conjunto alternado de entradas e saídas distendidas até abril do ano seguinte. É da primeira e mais prolongada permanência de dois meses e meio que guardo mais recordações, mas que agora me escuso de relembrar. De certo modo, já deixei alguns testemunhos aqui por estas bandas na altura em que ocorreram. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a todos os meus companheiros de enfermaria e a resposta não me surge por nenhuma fonte. Ali os vi ao chegar, ali os deixei ao partir. Relações rápidas e fugazes que o fluir dos dias se encargou de apagar. O Zé Cocho, o Desenfiado, as Mulheres Barbeiras e a Princesa das Astúrias me perdoem, bem como as Bailarinas Flutuantes seguidoras de Florence Nightingale naquelas unidades de cuidados intensivos, intermédios e enfermarias cirúrgicas, me fizeram companhia assídua dia e noite, enquanto a recuperação tardava em chegar e o COVID-19 a partir. 

As minhas lembranças seletivas remontam agora aos derradeiros estertores dos tempos da outra senhora. Passei aquele verão de 73 no HME, a tentar livrar-me duma ida forçado para os campos de batalha africanos. A minha permanência ali à Estrela foi muito meteórica, porque os exames à minha bronquite asmática foram tratados no HU à Junqueira. Recordo-me muito fragmentariamente dalguns episódios ali vividos. Ter assistido às chegada de muitos estropiados de guerra, de ter visto morrer alguns ali à minha beira e de ter recebido a visita de duas militantes do MNF. Deixaram-me uma esferográfica, uma medalha não sei de que santo e muitas palavras de circunstância que me encarreguei de esquecer até hoje. A minha hospitalização na capital do império terminou no BC5, no antigo Colégio de Campolide, onde durante uma meia dúzia de semanas me mantive isolado até receber a ordem definitiva de soltura. Tive a companhia dum exemplas de bolso das As palavras de Jean-Paul Sartre que nunca mais voltei a abrir.

Recuo uma década até onde a minha vista chega e dou comigo na primeira quinzena de setembro no HTRDL, a casa de hóspedes criada pela Rainha Perfeitíssima que deu o nome ao local. Na década em que a frequentei, as bronquites eram curadas com parches de álcool canforado, papas de linhaça e aspirações de pó-pinheiro, mezinhas rematadas com uns dias na praia e outros nas termas. Para evitar a humidade estremenha, aconselhava-se um internamento preventivo das recaídas invernais. Foi o que me aconteceu durante dois ou três anos da minha pré-adolescência. Ali fui submetido a duas sessões diárias de inalações, pulverizações e nebulizações, permanência na nascente nas águas sulfurosas, associadas a um vigoroso duche de espadana matinal para relaxamento muscular completo. Muitas foram as aprendizagens colhidas na enfermaria, refeitório, salas de repouso e demais instalações do vasto complexo termal. Guardo-as no arquivo das minhas vivências longínquas, aquelas que só se podem visitar com a ajuda inigualável da memória.

SIGLAS
CHUA: Centro Hospitalar Universitário do Algarve; HME: Hospital Militar da Estrela; HU: Hospital do Ultramar; MNF: Movimento Nacional Feminino; BC5: Batalhão de Caçadores n.º 5.; HTRDL: Hospital Termal Rainha D. Leonor.

11 de fevereiro de 2026

Fragmento entre fragmentos

Os jogos da macaca de Julio Cortazar

Morelliana.
¿Por qué escribo esto? No tengo ideas claras, ni siquiera tengo ideas. Hay jirones, impulsos, bloques, y todo busca una forma, entonces entra en juego el ritmo y yo escribo dentro de este ritmo, escribo por él, movido por él y no por eso que llaman el pensamiento y que hace la prosa literaria u otra. Hay primero una situación confusa, que sólo puede definirse en la palabra; de esa penumbra parto, y si lo que quiero decir (si lo que quiere decirse) tiene suficiente fuerza, inmediatamente se inicia el swing, un balanceo rítmico que me saca a la superficie, lo ilumina todo, conjuga esa materia confusa y el que la padece en una tercera instancia clara y como fatal: la frase, el párrafo, la página, el capítulo, el libro. Ese balanceo, ese swing en el que se va informando la materia confusa, es para mí la única certidumbre de su necesidad, porque apenas cesa comprendo que no tengo ya nada que decir. Y también es la única recompensa de mi trabajo: sentir que lo que he escrito es como un lomo de gato bajo la caricia, con chispas y un arquearse cadencioso. Así por la escritura bajo el volcán, me acerco a las Madres, me conecto con el Centro ‒sea lo que sea. Escribir es dibujar mi mandala y a la vez recorrerlo, inventar la purificación purificándose; tarea de pobre shamán blanco con calzoncillos de nylon.
Julio Cortázar. Rayuela (1963. cap. 82)

3 de fevereiro de 2026

À espera dum novo e desejado salvador

Espelhismos do Dom Sebastião de Cristóvão de Morais
«Felices los que eligen, los que aceptan ser elegidos, los hermosos héroes, los hermosos santos, los escapistas perfectos.»
Julio Cortazar, Rayuela (1963: 3)

Oitenta governantes, se as contas me não falham, à espera dum novo e desejado salvador. Mais um para juntar aos 22 condes, 38 reis e 20 presidentes, a tomar as rédeas do poder, por nascimento, nomeação, conquista, usurpação e eleição, em 1158 anos de devir histórico.

A escassos dias da votação final, o próximo inclino de Belém já está escolhido a apreciável distância do seu mais direto opositor. Dizem as sondagens diárias que às vezes até acertam, quando as contas lhes não trocam as voltas. Será o vigésimo primeiro da série republicana.

Saudoso duma monarquia idílica há muito extinta, andou perdido na campanha um pretendente à cadeira presidencial disfarçado de Dom Afonso Henriques, O Conquistador. Melhor fora tê-lo feito d'el-rei Dom Sebastião, O Encoberto, após o desastre de Alcácer-Quibir.

Para trás ficaram outros cavaleiros-messias, empenhados na cruzada patriótico-nacional de livrar o país dos mil-e-um perigos a que estaria votado sem a sua prestimosa ajuda. Abyssus abyssum invocat. Uma dúzia, nem mais nem menos, entre paladinos aceites e rejeitados.

E como na res publica o render da guarda se faz amiúde, dentro de cinco anos o circo mediático de vendedores da banha da cobra e da peculiar horda de comentadores de tudo e de nada voltará de novo à nossa companhia. É que, como se diz, the show must go on.

João Ribeiro, D. Afonso Henriques (2004)