21 de julho de 2026

Amigos-fantasma, silenciosos e virtuais

Bagagem do Viajante
H C Andersens Hus - Odense  (Dk)
[Foto de capa da página pessoal fb]
«Oh! Viajar, viajar! É, na verdade, o destino mais feliz. E por isso viajamos todos nós. Tudo viaja em todo o Universo. Mesmo o mais pobre ser tem o cavalo alado do pensamento e quando fica fraco e velho, então toma-o a morte consigo na viagem, que todos fazemos. Viajamos todos, mesmo os mortos, nos seus túmulos silenciosos, voam com a terra à volta do Sol.»
Hans Christian Andersen, Uma visita a Portugal em 1866

É rara a vez que abro o Facebook e não sou avisado do aniversário de alguém. Sou instado a festejar a data do seu nascimento mesmo após o seu falecimento. O livro das caras tem destas singularidades. Boas/más, insólitas. Lembra-nos a data mais importante dos nossos amigos virtuais. Aquela em que entraram em cena neste palco real de gente vivente, mesmo quando já terão ido desta para melhor. Anuncia-se o início da viagem e omite-se o termo da mesma. Entra-se muito discretamente nos meandros desconhecidos da eternidade sem bagagem de mão, sem dizer água-vai e sem regresso à vista.

Tenho o meu ciberespaço repleto de amigos-fantasma, silenciosos e virtuais. O mundo está mais pobre para mim. Os emojis no meu FB são cada vez mais escassos. Os meus contactos em-linha cresceram, estabilizaram e definharam. Ainda me resta uma meia dúzia de nomes mais ou menos conhecidos dentro e fora da rede com quem interajo esporadicamente quando o rei faz anos e até sou republicano. Em dezassete anos de navegações solitárias sem rumo certo e terra à vista, a apetência pela comunicação à distância entrou num período comatoso, como as reações a esta mensagem poderão comprovar.

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