
"من الضروري أن يوجد في حياة الإنسان شيء تنعقد حوله آماله، شيء يقرر لحياته قيمة ولو وهمية أو سخيفة."ننجيب محفوظزقاق المدق، ١٩٤٧
São incomensuráveis os caminhos que nos conduzem à presença dum livro. O mais espectável será entrar numa livraria e adquirir um ou encomendá-lo on-line sem sair de casa. Outras vezes tropeça-se por acaso com um na rua ou recebe-se um outro como presente dum amigo sem fazer anos ou coisa que o valha. Podia ampliar a lista, mas ficaria sempre uma travessa, vereda ou atalho mais ou menos surpreendente de acervos bibliográficos por revelar. Recebi há dias um exemplar já marcado pela patine dos anos contados em quase quatro décadas. Fazia parte da coleção particular dum amigo hispano de longa data que me quis fazer depositário duma história de histórias entrecruzadas que havia lido avidamente in illo tempore. Trouxe-o comigo como companheiro de percurso e já o percorri com olhos de ver de fio a pavio. Foi criado pelo único autor árabe laureado com o Nobel da Literatura, Naguib Mahfouz, intitulado pela Alcor El callejón de los milagros e pela Caminho A viela de Midaq (1947), uma solução menos sugestiva mas mais próxima do original.
O relato abre com uma descrição minuciosa do palco onde a ação dramática irá decorrer e dos atores que lhe darão vida, ao longo de trinta e cinco capítulos, distribuídos por três centenas de páginas. Tudo se passa na tradicional ruela, beco ou impasse sem saída do bairro histórico de Gamaliyya, situado no centro islâmico da cidade do Cairo dos anos quarenta, a tal viela de Midaq ou dos milagres que empresta o nome ao romance. Através dos esboços minuciosamente traçados da malha urbana e dos seus residentes locais ou visitantes eventuais, adentramo-nos passo a passo do misterioso microcosmos formado pela sociedade egípcia dos tempos da guerra, tão estranho a um olhar ocidental comum, pouco afeito ao ambiente algo exótico da maior metrópole mediterrânica do mundo árabe e do continente africano, herdeiro de impérios faraónicos desfeitos e, porventura, doutros ainda por fazer ou por cumprir.
O recitador público de versos corânicos e o filho tocador de violino entram e saem rapidamente de cena, expulsos pelo proprietário do café de Kirsha, onde os demais intervenientes efabulados na epopeia coletiva de heróis obscuros se vão revezando ao longo dos dias, dos meses e dos anos. O protagonismo da crónica recai no próprio burgo, nos diversos espaços públicos e privados do aglomerado de casas erguidas nos dois lados do arruamento e habitados quotidianamente pelos vizinhos que lhe dão vida. O vendedor de caramelos, a padeira que espanca o marido, o feitor de falsos aleijados e lídimos mendigos, a alcoviteira pícara e casamenteira oficial, o dentista improvisado e roubador de dentes aos cadáveres, o barbeiro ingénuo apaixonado pela beldade local, o comerciante bem-sucedido dono dum bazar, o antigo funcionário e professor de inglês, senhorios e inquilinos, fumadores de haxixe e bebedores de chá, novos e velhos, ricos e pobres, conservadores enraizados e renovadores embrionários.
Quando ao abrir a narrativa os cantos do poeta levantino são trocados pelas vozes sem rosto dum aparelho de rádio, o seu obreiro estava a anunciar a chegada dos novos tempos àquele espaço pacato perdido no coração duma imensa pólis fervilhante feita de muitas gentes a sul do delta, nas margens e ilhas do Nilo. O conflito travado entre o apego à práxis ancestral e a atração pela modernidade vai-se instalando em grande crescendo na teia efabulativa retratada. O espaço fechado da Zuqaq al-Midaqq cairota abre-se para o mundo exterior, numa ânsia desmedida de substituir a pobreza secular reinante por uma riqueza material fácil de obter. O impacto da presença militar britânica terá ajudado os mais jovens a vencer a raia invisível entre as rotinas, desditas e reveses pretéritos e a visionar as novidades, alegrias e anseios futuros, mas o final anunciado desse conflito bélico global terá levado a reformular as estratégias de base até então seguidas e a efetivar daí para a frente. As entidades enunciadoras não o chegam a fazer, o que não impede os destinatários potenciais a presenciá-las.

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