23 de maio de 2026

João Ramires: contos, amores e viagens do tio Sebastião e do sobrinho Gonçalo

A CAIXA DE CARTÃO
No dia dos meus anos, estávamos então em 1975, o meu Avô chamou-me a sua casa e recebeu-me na sala, o que significava que o assunto era sério; pegou numa mala que colocou numa mesa à sua frente e, com um ar solene, disse-me:
— Gonçalo, fazes hoje quinze anos. O teu tio Sebastião, que há dois tristes meses nos deixou, pediu-me, quando adoeceu, para te entregar esta mala onde irás encontrar uma parte da sua vida; nunca a abri, pois o que lá se encontra apenas diz respeito a ti e ao teu tio; vê tudo com muita atenção porque alguma razão de peso terá havido para que, de entre todos os parentes, fosses tu o escolhido; o teu tio não tomava as suas decisões de ânimo leve; tudo o que estiver aqui dentro, terá sido importante na sua vida e certamente também virá a ser para o teu futuro.
João Ramires, A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023)

A arte de dizer não é muito mais difícil de praticar do que a contrária de dizer sim. Desde que in illo tempore me afastei das lides académicas que me debato, sem grande sucesso, com o propósito firme de a levar a bom termo. Um dia destes ainda o concretizo. Duvido. É que aos amigos, um pedido feito é um pedido satisfeito. Edição de texto, notas de leitura, apresentação de livro. Assim me foi solicitado pelo João Ramires, a propósito d'A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023), uma trilogia de contos, amores e viagens entrecruzados em forma de romance. 

A etapa inaugural da série convida-nos a fazer Uma viagem no «Oriente Expresso», primeiro na companhia do tio Sebastião e a segunda na do seu sobrinho Gonçalo, efetuadas respetivamente em 1974 e 1997. Nessa dupla ligação de Paris e Istambul, separada por um hiato temporal de pouco menos dum quarto de século, os dois protagonistas terão ocasião de reviver, cada um à sua maneira, o ambiente exótico recriado por Sidney Lumet no Crime no Expresso do Oriente, numa adaptação à linguagem cinematográfica dum dos mais emblemáticos romances policiais traçados por Agatha Christie. O entrelaçar de histórias vividas/imaginadas por ambos remete-nos a cada passo para o universo do insólito, a roçar as fronteiras do estranho, do fantástico ou do maravilhoso narrativos. Os viajantes pelas suas páginas que decidam qual o caminho a seguir.

A jornada intermédia da saga leva os seus intervenientes centrais até à Índia, em busca d'O dente de Buda, o tio em 1954 e o sobrinho em 1994. Chegam à velha cidade de Goa, a colonial portuguesa e a já integrada na União Indiana, e adentram-se depois no vasto país para aclarar a intrincada teia de segredos, conspirações e intrigas que envolvem a valiosa relíquia budista. A atmosfera sentida pelos Ramires Reis toca de muito perto a tensão constante e trepidante dos thrillers clássicos, bem como a resolução dum conjunto de enigmas, mistérios e sectarismos políticos e religiosos com mais de 400 anos de existência. Os ecos históricos do domínio luso na antiga «Pérola do Oriente», no tempo do Vice-rei. Dom Constantino de Bragança, à sombra persecutória da Santa Inquisição, reverberam ao longo da investigação, cujos resultados são revelados no interior do livro.

O derradeiro lanço da trilogia trata agora do dúplice trajeto dos dois globetrotters tenazes até Macau, com acesso a outros locais exóticos do Império do Meio, tais como o Tibete e os Himalaias. Fazem-no à vez em 1964 e 1998, com o fino propósito de descobrir o paradeiro d'A Clepsidra de Su Sun, descrita e desenhada pelo jesuíta Ruggero Rizzetti, num manuscrito oitocentista, achado na Biblioteca da Ajuda. As peripécias vivenciadas por um e por outro no decurso da pesquisa são arduamente explanadas no relato, bem ao modo dos romances de aventuras peregrinas, detetivescas e policiais, num cotejo seguido de tempos históricos e culturas ancestrais, de usos, mitos e lendas, unidos todos eles às emoções fascinantes de amores inesperados e de resultados imperecíveis.

Lidos os livros que constituem as inquirições encetadas pelos dois Ramires Reis em tempos distintos, apercebemo-nos o quanto cada um deles rende um testemunho valioso à tradição milenar do romance à escala global. Aquele em que a epopeia em prosa malvista pelas poéticas clássicas antigas e modernas se converteu, passo a passo, no mais popular género literário atual. Nas suas sete centenas e meia de páginas, o seu artífice conjuga na tessitura narrativa por si gizada uma sucessão de roteiros de viagens, memórias históricas e relatos de amor, unidos por um par de membros da mesma família, o tio Sebastião e o sobrinho Gonçalo. A saga anunciada no título da tríade fica justificada, brindando os leitores com um percurso pleno de deleite e proveito, convocados pela ficção recreativa.   

3 comentários:

  1. É constante na sua prosa, uma atitude positiva e realista, necessária para, com verdade e respeito analisar valorativamente um trabalho neste nível.

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    1. É que, Tal como dizia Cervantes no «Quixote», «No hay libro tan malo que no tenga algo bueno»...

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  2. Sou apreciadora de um “bom”, às vezes subjectivo, romance histórico.
    Gostei da apresentação…

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