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Acácio Lino, Batalha de São Mamede (1922) [Lisboa, Sala Acácio Lino, Palácio de São Bento] |
«O primeiro significado que à batalha de S. Mamede (1128) sempre foi atribuído ‒ e ainda hoje o é por muitos, senão pela maioria dos portugueses ‒ foi o de um confronto interno, doméstico, uma espécie de "guerra civil": o seu objeto era a posse e chefia do Condado Portucalense, os sujeitos eram D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa, bem como os partidários de uns e de outros. Este aspeto existiu, foi importante e teve efeitos políticos imediatos: a chefia do Condado Portucalense, atribuído ‒ como se sabe ‒ a D. Henrique e a D. Teresa hereditariamente, passou num ápice da filha do Imperador de Leão para o filho varão dos condes portucalenses. E este não tardou em, desde logo, extrair consequências da sua vitória ‒ por exemplo, nomeando certos companheiros seus para cargos importantes da administração do condado (chanceler-mor, alferes-mor, etc).»Diogo Freitas do AmaralEm que momento se tornou Portugal um país independente (2001)
Tem-se falado muito ultimamente nos 900 anos da fundação de Portugal, número redondo centrado na batalha de São Mamede, travada no dia 26 de junho de 1128, entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa de Leão. O vencedor transformou-se no novo Conde de Portucale, cargo até então desempenado pela vencida. Uma simples querela familiar entre mãe e filho teria levado ao ponto de partida duma nova entidade política soberana, cujo aniversário agora se celebra ou começa a celebrar.
Vistas bem as coisas, tudo ficou rigorosamente na mesma. Nada mudou. Condado era, condado ficou. Uma condessa-rainha, gerada por um rei-imperador, é trocada por um conde-infante, filho e neto de condes. O Condado Portucalense governado até então por uma Domina passa a ser governado por um Dominus. A linha dinástica condal iniciada em 1096 pelo Conde Dom Henrique de Borgonha manteve-se de pé pelos séculos fora até à queda da Monarquia e ao advento da República em 1910.
Se quisermos recuar alguns séculos, podemos assentar arraiais na Presúria do Porto, campanha militar liderada por Vímara Peres, que tomou em 868 a região de Entre-Douro-e-Minho e delimitou pela primeira vez a Terra Portucalense. Afonso III das Astúrias confia-lhe a administração do território como entidade distinta da Galiza, como primeiro Conde de Portucale, a que se seguiu uma dezena de descendentes por linha reta ou cognata.
Episódio após episódio, a certidão de nascimento dum território, estado ou nação empurra-nos para balizas históricas cada vez mais distantes entre si. Um longo processo de formação dum país, reconhecido dentro e fora das fronteiras que o delimitam e projetam no mundo. E tudo isto há 1158 anos, cumpridos ou a cumprir nos dias de hoje, já que os ecos remotos que até nós chegaram do evento primevo não indicam uma data precisa para fazer um bolo, cantar os parabéns e soprar as velas.
