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| Heinrich Füger Dichter trinken am Kastalischen Quell das Wasser der Wahrheit [Poetas bebem a água da verdade na Fonte Castália] (1790) |
Escrevo para subir às fontes. E voltar a nascer...Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede (2001)
No sopé do Monte Parnaso, mesmo ali às portas do Oráculo de Delfos, jorra a Fonte de Castália, rodeada dum pequeno bosque de loureiros consagrados a Apolo, o deus da divina distância, protetor olímpico da verdade, símbolo da inspiração artística, líder orientador das nove musas do panteão helénico. Conta o mito que os aedos cantaram, os rapsodos divulgaram e a tradição preservou, ter o filho de Zeus e Leto acossado uma donzela local, que, para fugir ao assédio indesejado, se atirou à fonte sagrada a que deu o nome.
Tive ocasião de visitar em tempos a nascente de fluidos cristalinos e infundidores das profecias da sacerdotisa Pítia. Aproveitei para me refrescar à sua sombra e para beber das suas águas límpidas. Não pretendi ser como os poetas que ali procuravam o auxílio do divino Febo luminoso e das exímias cantoras das ciências e das artes. Limitei-me a aproveitar o momento para recuperar a energia exigida na escalada íngreme até ao mais importante centro religioso da Grécia Antiga, designado por muitos como o umbigo do mundo.
Através das letras, protagonizou Miguel de Cervantes a Viaje del Parnaso (1614), uma jornada composta em tercetos encadeados compostos em verso decassilábico, com sabor satírico, alegórico e burlesco. A pedido do deus Mercúrio, efetua uma demanda bélica à residência de Apolo Délfico e das Musas Parnasianas, para assim defender o monte sagrado dum exército de maus poetas que o pretendiam assaltar e tomar. No final da contenda, a boa poesia sai vencedora e a ordem poética é restaurada em toda a sua pujança.
Tenho cá por casa umas quantas estantes pejadas de livros de todos os géneros, tipos e tamanhos, grandes, médios e pequenos. À medida que vão chegando, agrupo-os nas prateleiras disponíveis, lado a lado, uns por cima dos outros por baixo, em primeira e segunda fila, uns à frente outros atrás. Abro-os, leio-os, sublinho-os, comento-os, protejo-os. Dia após dia, ano após ano, década após década. De manhã, à tarde e à noite. Incessantemente. Sempre à espera de novas surpresas quotidianas a alegrar-nos a vida.
Na Castália mítica do Monte Parnaso, a água da fonte sagrada jorra liberta dos maus poetas extirpados pelo Príncipe de los Ingenios e Manco de Lepanto. Na minha biblioteca caseira nenhum deles precisa de ser banhado nas águas do rio do esquecimento do reino das sombras. O Lethes foi convertido na Academia Sénior onde continuo a dar voz aos criadores dos heróis da imaginação. As agruras da vida ficam à porta, os prazeres da leitura entram na sala. O proveito e deleite são reis e senhores nesta visita das fontes.
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| Κασταλία Qsar Lybia (Neápolis): Mosaico bizantino séc. vi |


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