26 de agosto de 2026

A madeira norueguesa de Murakami

Haruki Murakami with The Beatles
[Adrian Tomine, The New Yorker (2020)]
I once had a girl | Or should I say, she once had me? | She showed me her room | "Isn't it good, Norwegian wood?" || She asked me to stay | And she told me to sit anywhere | So I looked around | And I noticed there wasn't a chair. || I sat on the rug | Biding my time, drinking her wine | We talked until two | And then she said, "It's time for bed" || She told me she worked in the morning | And started to laugh | I told her I didn't |And crawled off to sleep in the bath.
The Beatles, Norwegian Wood (1965)

Histórias contadas e cantadas...

Na altura, eu tinha trinta e sete anos e seguia a bordo de um Boeing 747. Descrito como um pássaro gigantesco, o avião deu início à descida, atravessou as densas nuvens carregadas de chuva e fez-se à pista do aeroporto de Hamburgo. A fria chuva de novembro tingia de cinzento a terra e transformava tudo em redor numa lúgubre paisagem digna da pintura flamenga: o pessoal de terra com impermeáveis, a bandeira no topo de um edifício térreo do aeroporto, um painel publicitário da BMW. Alemanha, aqui estou eu de novo, pensei.

Mal o aparelho completou a aterragem, apagaram-se os sinais luminosos que indicavam a proibição de fumar. Debitada pelos altifalantes, começou a soar baixinho a música de fundo. «Norwegian Wood», dos Beatles, numa versão orquestral delicodoce. Como de costume, a melodia teve o condão de me comover. Não, em bom rigor, não me comoveu; produziu em mim uma reação muito mais violenta do que era normal.

 Haruki Murakami, Norwegian Wood (1987)

Sem comentários:

Enviar um comentário