20 de março de 2019

Primaveras em verso

Sandro Botticelli - Primavera (1481 - 1482)

[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

Quando tornar a vir a primavera
Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Fernando Pessoa | Poemas de Alberto de Caeiro (1925)

15 de março de 2019

Espigueiro de granito

                  Nélson Paciência                  
Bonecos de Neve   Casinhas de Brincar
As memórias mais antigas que guardo da infância remetem-me para os meus quatro/cinco anos, aquando duma curta temporada passada no Caramulo. Aparecem-me soltas, avessas a qualquer princípio de ordenação cronológica precisa. Flasches sensoriais que o caráter exótico do instante ajudou a preservar. O ar puro da serra terá também contribuído para as guardar como primeiros registos de autoconsciência pessoal. Alguma importância terão tido então para as estar a evocar agora. Tão distantes, tão presentes.

Nessa primavera, duas estrelas de cabeleira sulcaram os céus. Uma a iluminar a noite com o rasto esbranquiçado de cometa errante, outra a colorir o dia com os tons garridos dum papagaio de papel. Quando as canículas estivais apertaram, uma voz gritou e outras repetiram em eco: Há fogo na Malhada! E as chamas abraçaram a montanha. Quando os frios invernais chegaram, fiz o meu primeiro boneco de neve. Gelado a queimar a pele, como se de fogo se tratasse. Contrastes térmicos a confundir os sentidos.

Esqueci-me de parte das brincadeiras tidas com a criançada local. Recordo-me bem do espigueiro de granito convertido em casinha de faz-de-conta. O insólito do cenário lúdico a bater aos pontos os rivais tradicionais. Com as maçarocas fazíamos bonecas com fartíssimas cabeleiras e saias de rodar. Com as barbas do milho moldávamos bigodes farfalhudos e enrolávamos cigarros a imitar os adultosCom os sabugos, capelo e grãos improvisávamos mil e um artefactos. Sem correrias, em liberdade, ao sabor da imaginação...

11 de março de 2019

As Plêiades do Magnânimo

CHAFARIZ DAS CINCO BICAS
(Caldas da Rainha)

CARTELA & LETREIRO

1749
COELI BENEFICIO SALUBRIU REGIS MUNIFICIENCIA PRERENIU PLEIADUM QUE ALIAE QUINQUE, SAT UNDE BIBAS

Dom João V elevou o olhar para as sete Plêiades da constelação do Touro e distribuiu-as pelos três fontanários que mandou erigir na rainha das caldas dos seus reinos e senhorios, espalhados pelos quatro cantos da terra. Corria então o ano da graça de 1749.

Pegou numa delas e transformou-a numa bica estrelar a jorrar água cristalina no chafariz da estrada da Foz. Para que não houvesse dúvidas de identificação, mandou gravar em latim, a língua global da época: PLEIADUM PRIMA HEC EST (= esta é a primeira Plêiade).

No chafariz da rua Nova, levantado junto ao Hospital Termal e ermida do Espírito Santo, reservou outra bica a outra das filhas de Atlas e Pleione. Ali continua a satisfazer todos os sequiosos. Em latim esculpido lê-se: PLEIADUM QUE SECUNDA (= é a segunda Plêiade).

As restantes irmãs míticas moram no chafariz das Cinco Bicas, às portas da Mata Real. A versão portuguesa da cartela e letreiro reza: E estas as outras cinco Plêiades, de onde beberás quando quiseres, saudáveis por benefício do céu, sempre correndo por mercê do Rei.

A retórica joanina escusou-se de identificar cada uma das deidades gregas. A metamorfose de Electra em cometa e das bodas de Mérope com um mortal leva-nos a localizá-las nas duas bicas isoladas. Maia, Taigete, Alcíone, Celeno e Asterope ficariam então na terceira.

A alocação de cinco Plêiades num espaço talvez se deva ao facto do Magnânimo ter sido o quinto monarca de nome João e aspirar ao epíteto estelar de Rei Constelação. Afinal, o seu esplendor não ficava em nada atrás do fulgor do Rey Planeta e do brilho do Roi Soleil. Avé!

As sete Plêiades de Sua Majestade Fidelíssima 
Estrada da Foz (1) + Rua  Nova  (1) + Mata Real (5) 

6 de março de 2019

Revisitações pintadas da poesia de Eugénio de Andrade

                                              ... a cada gesto que faziam
                                              um pássaro nascia nos seus dedos
                                              e deslumbrando penetrava nos espaços.
                                              Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro (1950)

Poesia & Pintura

Vinte e seis pintores criaram a leitura visual de vinte e seis poemas de Eugénio de Andrade. Sinestesias iluminadas de desenhar cenários para imaginar histórias a contar. Deram-lhe a forma duma exposição coletiva na Biblioteca Municipal do Fundão, preparada sob a direção do mestre Alberto Péssimo e inaugurada a 13 de junho de 2015, por ocasião do décimo aniversário da morte do poeta. Converteram-na simultaneamente num livro eclético de registos plástico-verbais, reunidos por José Queiroga.   

Ficam por comentar os textos coligidos. Sinto uma certa relutância em fazê-lo. Situo-a na diferença básica que tenho de encarar de ânimo leve a singularidade da autodescrição em verso e a pluralidade da narrativa em prosa. A imagem fixa dum momento preciso que se confidencia em privado e a sequência de imagens em movimento que se divulga aos quatro ventos. A foto do álbum de família que foi excluída dum filme a ser projetado publicamente à cadência de 24 fotogramas por segundo.

Ignoro se estes 26 poemas de Eugénio de Andrade* revisitados pelo Atelier 26** dispõem duma distribuição comercial preparada à altura das palavras-imagens compiladas. Talvez o Município do Fundão, a Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora e os herdeiros do poeta referidos na ficha técnica, em sintonia concertada com as livrarias e bibliotecas deste país, se tenham encarregado deste pequeno pormenor de divulgação da obra escrita e pintada. Ficaríamos todos a ganhar com a iniciativa.
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* EUGÉNIO DE ANDRADE: As mãos e os frutos: «Poema para o meu amor doente» e «Green god» (1948) | Os amantes sem dinheiro: «Os amantes sem dinheiro» (1950: ) | Até amanhã: «Coração habitado» e «Urgentemente» (1956) | Obscuro domínio: «Arte de navegar» (1971) | Véspera da água: «Sobre o caminho» e «É um dizer» (1973) | Matéria solar: «Podias ensinar à mão» (1980) | O peso da sombra: «É um dos mais belos sorrisos» (1982) | Branco no branco: «Ignoro o que seja a flor dada água» e «Encosta a face à melancolia» (1984) | O outro nome da terra: «Os amores» e «O sorriso» (1988) | Rente ao dizer: «Breakfast em Maspalomas» e «Último poema» (1992) | Ofício de paciência: «Fim de outono em Manhattan» e «A pergunta de Stevens» (1994) | O sal da língua: «O lugar da casa», «Verdade poética» e «Caem como pedras» (1995) | Os lugares do lume: «Sul» e «Quase elegia» (1998:) | Os sulcos da sede: «Aos jacarandás de Lisboa», «À beira de ser água» & «Ver Claro» (2001).

** ATELIER 26: Isabel Ribas | José Queiroga | Maria Guia Pimpão | Ana Vasco | Helena Homem de Melo | Félix Iglésias | Rui Silva Teixeira | Isabel Amaral | Odília Rocha | Isabel Rocha | Margarida Figueira | José Veloso | Amália Soares | Licínio Rego | Laura Maria | Isabel Aguiar | Fernando Barros | Alberto Péssimo | Adélia F. | Manuel Matias | Helena Oliveira | Teh | Carlos Ferreira | Madalena Pinheiro | Gonçalo Monteiro | Cácá.

1 de março de 2019

Carnavais em verso

José de Almada Negreiros
«Retrato Clássico de Arlequim»
(1941)

               É Carnaval, e estão as ruas cheias
               É Carnaval, e estão as ruas cheias
               De gente que conserva a sensação,
               Tenho intenções, pensamento, ideias,
               Mas não posso ter máscara nem pão.
               Esta gente é igual, eu sou diverso —
               Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
               Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
               E o que digo, eles nunca assim diriam.
               Que pouca gente a muita gente aqui!
               Estou cansado, com cérebro e cansaço.
               Vejo isto, e fico, extremamente aqui
               Sozinho com o tempo e com o espaço.
               Detrás de máscaras nosso ser espreita,
               Detrás de bocas um mistério acode
               Que meus versos anódinos enjeita.
               Sou maior ou menor? Com mãos e pés
               E boca falo e mexo-me no mundo.
               Hoje, que todos são máscaras, és
               Um ser máscara-gestos, em tão fundo...

               Fernando Pessoa |  Álvaro de Campos: «Carnaval» (s.d.)

25 de fevereiro de 2019

A idade das palavras da moda

  Hostel Wall Kazimierz Old Jewish Quarter Krakow  

MODOS, MODAS & MODISMOS

Ou dos neologismos arcaicos...

Os hostéis invadiram os espaços urbanos. Em cada rua e ruela que cruzarmos, haverá sempre um hostel à nossa espera. Hostéis por todo o lado e para todos os gostos. Insisto na grafia hostéis, muito embora os dicionários prefiram o registo inglês hostels, pretenso plural de hostel. Faço-o de forma distinta pelas mesmas razões que escrevo e pronuncio à portuguesa hotel e hotéis.

A palavra da moda para referir um alojamento a preço económico, em quartos coletivos ou individuais, é tão antiga no nosso idioma quanto a memória escrita a permite documentar. Ainda não se aferrara aos H-h surdos decorativos e registava-a estau, do latim hos-pitalis [domus], entendida como uma estalagem, casa de hóspedes, lugar de hospedagem ou de aposentadoria pública.

A idade das palavras é difícil de determinar. Sucedem-se umas às outras sem termo à vista. Por vezes mantêm as partes originais de modo irredutível. É essa raiz ou radical que encerra o sentido duma mesma família. Cognatas lhes chamam as gramáticas. Hospedaria, hospício, hospital, hostal/hostau, hostalagem, hostaria e hotel cabem nesta categoria. Latinismos locais tornados globais.

19 de fevereiro de 2019

Kazuo Ishiguro: a busca das memórias perdidas e o bafo do gigante enterrado

«The giant, once well buried, now stirs. When soon he rises, as surely he will, the friendly bonds between us will prove as knots young girls make with the stems of small flowers.»
Kazuo Ishiguro, The Buried Giant (2015)
A história do Homem está cheia de migrações efetuadas em todos os sentidos. A espécie humana nasceu para andar dum lugar para outro sem descanso e fim à vista, até encontrar um pouso certo entendido como porto seguroAssim os caçadores-recoletores se converteram em agricultores-pastores e de nómadas errantes em sedentários acomodados. Deste modo se explica também o povoamento de todos os recantos habitáveis da terra por uma casta andarilha de primatas que deu início às suas caminhadas planetárias a partir dos confins le-vantinos da África subsariana. O processo tem sido sempre o mesmo, desde o primitivo australopithecus até ao moderno homo sapiens sa-piens, também conhecido por homo viator. Kazuo Ishiguro, o ficcio-nista japonês de língua inglesa, centra-se no rico manancial das invasões bárbaras à antiga Britânia romana nos séculos V e VI e azo à inspiração de recuperar esses tempos conturbados da alta medievalidade europeia. Convida-os depois para as páginas do seu mais recente romance, a que atribui o título algo enigmático de O gigante enterrado (2015).

O desenrolar da ação está todavia longe de corresponder aos alvo-res da conquista do território celta pelas hostes tribais da Germânia e Escandinávia. Os Bretões nativos tinham sido empurrados para a parte ocidental da Ilha e os Saxões se haviam instalado em perma-nência na oriental, prefigurando à distância dos séculos as atuais entidades nacionais do País de Gales e Escócia dum lado e da Ingla-terra do outro. Realidade futura que a tessitura narrativa estrategica-mente ignora. O eixo condutor que a rege centra-se no cruzamento das duas matrizes nucleares da cultura literária europeia, a greco-latina dos relatos de amor e aventuras peregrinas e a judaico-cristã dos livros de amor cortês e cavaleiros andantes. Os povos mediter-rânicos atravessaram as vastas extensões do velho continente e juntaram-se ao universo de referências dos povos insulares dos mares do norte e a fábula principia.

Num mundo assombrado pela presença real ou sonhada de ogres, demónios, elfos, duendes e criaturas sem nome, uma densa neblina de esquecimento abatera-se sobre os seus habitantes, privando-os das memórias remotas e recentes da sua própria existência. Segundo a crença de alguns, essa amnésia coletiva dever-se-ia ao bafo do dragão Querig e às artes mágicas de Merlin. Essa a convicção dum casal de anciãos bretões, Axl e Beatrice, que em flashes rápidos de lucidez retrospetiva se recordam terem tido em tempos um filho que em data incerta tinha partido para outras paragens. A vontade de o reverem leva-os a encetar uma longa viagem à sua procura. Os sucessivos encontros de percurso vão-nos ajudando a recuperar muito gradualmente os elos perdidos duma vida traçada em comum até então apagados dos seus registos mentais. A morte do gigante causador dessas lacunas cognitivas e os devaneios de Sir Gawain, o derradeiro representante dos paladinos do Rei Artur, desempe-nharam um papel decisivo no desfecho da demanda por planícies, rios e montanhas dum devir histórico até então obliterado.

Os feitos e façanhas dos cavaleiros da Távola Redonda contados de boca em boca e de geração em geração desaparecem do horizonte de eventos e as lendas, sagas e gestas são substituídas pelas relações de factos acontecidos e registados nos anais oficiais que atestam a formação do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, relegando o Reino de Camelot para os universos imaginários das utopias literárias. Se se manterá como a conhecemos hoje em dia é que falta saber. A ancestral aliança de forças saxónicas oriundas do continente europeu poderá estar em risco com a saída desordenada do UK da UE, acordando de vez nas nações bretãs de raiz celta o sonho há muito acalentado de obterem a sua autonomia completa do poder britânico. O happy end desejado para esta Brexit em curso pode ser mais problemático de encontrar no mundo real do que o relatado pelo ficcionista no mundo imaginado do faz-de-conta.

14 de fevereiro de 2019

E antes de morrer estava vivo...

Albertus Pictor, Döden spelar schack (1480)
Kyrkomålning i Täby kyrka utförd - Sverige
Q U A T R A I N
Hélas, La Palice est mort, | Il est mort devant Pavie ; | Hélas, s’il n’était pas mort, | Il ferait encore envie...
Chanson à  la mémoire du Seigneur de La Palice

     O jogo de xadrez      

De quando em quando os mass media assaltam-nos com a notícia bombástica de que o país está a morrer a um ritmo assustador. o tabaco mata um português em cada cinquenta minutos, o que corresponde a trinta e duas pessoas por dia, engrossando as vítimas das doenças respiratórias em mais de vinte e duas mil por ano, ao ritmo de duas por hora. Uma pandemia sem solução aparente à vista. Agreguem-se ainda os problemas do pâncreas, da próstata, da hipertensão, da diabetes, do coração, dos intestinos e tutti quanti. Ao que parece, os impostos não serão suficientes para cobrir as despesas. É caso para perguntar como é que há ainda tanto vivo a jogar ao xadrez com a morte.

Esta mania das moléstias nos estragarem a saúde fez-me lembrar uma peça que vi em tempos no Parque Mayer. Estou a referir-me a La Mamma (1951), uma comédia francesa com sotaque italiano, de André Roussin. Estreou-se a 1 de julho de 1971 no teatro Capitólio, produzida por Vasco Morgado e encenada por António do Cabo. Laura Alves, a querida mamã da versão portuguesa, lamentava-se numa tirada infindável de todas as maleitas reais e imaginárias que tinha, tivera ou teria. Começava com o cabelo espigado e terminava com as unhas encravadas. Um verdadeiro catálogo de achaques que a obrigavam a inferir no final da deixa: é preciso ter muita saúde para aguentar tanta doença.

E como para morrer basta estar vivo, somos levados a concordar com a Lili Caneças no diz-que-disse que corre por  por ter dito: morrer é o contrário de estar vivo. Um diz-que-disse muito semelhante ao que se disse e teima em dizer de Monsieur de La Palice (1470-1525), o tal que un quart d’heure avant sa mort, il était encore en vie. Bernard de La Monnoye (1641-1728) brinca com o dito feito ditote e verseja com ironia chocarreira: Il est mort le vendredi, passée la fleur de son âge, s'il fut mort le samedi, il eût vécu davantage. Fraca consolação para o reputado herói de Pavia, que, em vez de causar inveja (envie) depois de morto, nos continua a fazer sorrir com os diz-que-disse que nunca disse em vida (en vie).

8 de fevereiro de 2019

O Vaticano por um buraco de fechadura

                Il buco della serratura               

Formas  alternativas  de  espreitar
A última vez que voei para a Itália, fui surpreendido por uma greve geral de transportes no Aeroporto Internacional de Fiumicino. Uma donna nativa habituada a essas paralisações sazonais instruiu-me dos expedientes a tomar em tais situações. E assim chegámos sem mais sobressaltos a Roma. Como reportei em tempos esta história aqui por estas bandas, dispenso-me de a repetir. Falhou-me todavia um pequeno pormenor que me apraz registar para assim completar este diário-de-bordo come dovrebbe essere

Depois de ter visto Braga por um canudo lá do alto do miradouro do Santuário do Bom Jesus do Monte, algumas décadas passadas dei comigo a observar a Cidade do Vaticano desde a colina do Aventino pelo buraco de fechadura do portão da Villa del Priorato di Malta. Duas formas alternativas de espreitar à distância: a primeira a ampliar, a segunda a limitar. De máquina fotográfica em punho, esperei numa longa fila de turistas a minha vez e fixei devidamente o momento per memoria futura che ora è arrivata. 

Voltei a ver a cúpula de São Pedro em toda a sua magnificência desde o giardino degli aranci, mesmo ali ao lado. Viagem prévia do olhar a preparar a que os pés pisariam de seguida. Deixei-me fotografar com a signora romana naquela varanda panorâmica debruçada sobre a Cidade Eterna, a papal e a imperial. Deve andar por aí perdida numa pen drive de trazer no bolso. O mesmo não posso dizer dos contactos registados num bloco de notas entretanto extraviado. Cosi, non ci vedremo mai più. Ecco!

4 de fevereiro de 2019

Laurent Binet e a sétima função da linguagem ou de quem matou Roland Barthes

« Néanmoins, en y réfléchissant, ou plutôt en relisant Jakobson, Simon Herzog trouve trace d'une potentielle septième fonction, désignée sous le nom de " fonction magique ou incantatoire ", dont le mécanisme est décrit comme " la conversion d'une troisième personne, absente ou inanimée, en destinataire d'un message conatif " Et Jakobson donne comme exemple une formule magique lituanienne : " Puisse cet orgelet se dessécher, tfu tfu tfu tfu ". Ouais ouais ouais, se dit Simon. »
Laurent Binet, La septième fonction du langage (2015)
Regressei inesperadamente ao meu curso de letras quando entrei de supetão no universo romanesco de Laurent Binet, plasmado no meio milhar de páginas d'A sétima função da linguagem (2015), exercício criativo logo galardoado com os Prix Interallié e Roman Fnac. A semiótica e a linguística irrompem de roldão nas primeiras linhas da trama e fazem-nos companhia até ao derradeiro ponto final. Pelo caminho, ainda dão as mãos em largas e rasgadas digressões à literatura, filologia, retórica, música, arte, cinema, história, política, ciência e comunicação em geral. Os grandes vultos da cultura universitária francesa ou a ela ligada nas vésperas da eleição de François Mitterrand como presidente da república e do render da guarda de Giscard d'Estaing no Palácio do Eliseu dão um ar solene aos atos relatadosMichel Foucault, Jean-Edern Hallier, Bernard Henry-Lévy, Julia Kristeva, Philippe Sollers, Louis Althusser, Jacques DerridaHélène CixousUmberto Eco ou John Searle são só alguns dos nomes das personalidades referidas e convertidas em maior ou menor grau em personagens da intriga, centrada na morte de Roland Barthes a 21 de fevereiro de 1980, vítima dum atropelamento aciden-tal ou dum bem orquestrado complot internacional com implicações imprevisíveis na ordem social da época.

Depois de ter estado cerca de dois anos em fila de espera para ser lido e quase outros tantos para ser comentado, ficou-me a vontade de partir à descoberta da obra já publicada deste jovem inventor de histórias dentro da história ou de aguardar pacientemente que novos títulos sejam entretanto disponibilizados nos locais habituais, para desfrute de todos aqueles que os souberem apreciar. O desejo de fazer anotações sem fim a cada passo foi vencida pela vontade de fruir devidamente o prazer do texto sem interferências académicas inoportunas. Ultrapassados os impulsos irresistíveis de percurso, fixei-me na estrutura genérica seguida pela fábula, toda ela ancorada nos parâmetros habituais do romance policial clássico com final clarificador de todos os enigmas em jogo. Tzvetan Todorov (também ele parte integrante do elenco intelectual citado) incluí-lo-ia nos domínios fantásticos do estranho puro ou do insólito explicado por meios naturais. Os próprios protagonistas de serviço, Jacques Bayard e Simon Herzog, são retratados como caricaturas acabadas do inspetor Sherlock Holmes e do Dr. John H. Watson, dados à luz por Sir Arthur Conan Doyle. Chamemos-lhe pastiche literário ou thriller desconcertante, se preferirmos. A ironia-crítica-sátira emprestada à investigação impediriam outras classificações alternativas que se afastassem minimamente dos meandros da paródia bem humorada.

A sétima função da linguagem funciona na intriga como um acréscimo às restantes seis teorizadas por Roman Jakobson nos Ensaios de linguística geral (1973). Assim, para além das emotiva-apelativa do eixo da subjetividade, das referencial-fática-metalinguística do eixo da objetividade, e da poética formada na cruzamento dos dois eixos referidos, haveria ainda que contar com uma suplementar, difícil de localizar no esquema original e que teria o poder encantatório e manipulador da comunicação humana. Roland Barthes estaria na posse dum documento com a chave de acesso a essa capacidade retórica de convencer infalivelmente os outros da verdade duma qualquer mensagem. A razão da sua eliminação física do mundo dos vivos estava encontrada e com ela o leitmotiv que animaria todo o relato. O faz-de-conta inventado a cada momento pelas poéticas da ficção e filosofias dos símbolos entram em cena. Os atores pisam as ribaltas montadas em Paris, Bolonha, Ithaca, Veneza e Nápoles, num drama repartido por cinco atos e um epílogo. Ocasião, também para atualizar quanto baste a hipótese da ucronia literária definida com precisão por Umberto Eco n'«Os mundos da ficção científica», incluído em Sobre os espelhos e outros ensaios (1985), i.e., de imaginar que os eventos reais do passado ocorreram de modo distinto, tornando as liberdades verbais urdidas na textura narrativa credíveis e aceitáveis.

O jet set de individualidades universalmente conhecidas levadas do mundo exterior para o interior dum romance ganham uma nova vida. Coincidem nos nomes mas distinguem-se em todos os feitos que lhes são atribuídos. Continuam a revivê-las sempre que são atualizadas pela leitura. Ficam congeladas nas páginas dos livros que as contêm. Admirável destino destes seres que podem aspirar à eternidade. Só terão de pertencer a uma obra imortal a que todos os autores podem aspirar e nenhum tem a capacidade de confirmar. Pessoalmente, atrevo-me a antever um futuro promissor na república das letras, assim a vivacidade já manifestada na escrita se mantenha sem falhas e a nossa capacidade de decifração se não esgote. Numa época em que as humanidades andam pela rua da amargura e as universidades já não são o que eram, torna-se um pouco arriscado que a erudição académica consiga trilhar com sucesso as veredas sinuosas da criação diegética. Laurent Binard que se cuide e trate de se adaptar às novas retóricas do terceiro milénio. É que nos dias que correm as eleições presidenciais fazem-se mais à custa das fake news virtuais do que das funções restritas ou ampliadas da linguagem por muito fascinantes que sejam ou pareçam ser.