13 de março de 2017

Queques & Marmelada

JOSEFA DE ÓBIDOS

«Natureza morta - um marmelo»

Palavras vão, palavras vêm... 

Pedi emprestado a um quadro atribuído a Josefa de Óbidos (c1634-1684) a imagem dum marmelo seiscentista, idêntico em tudo aos que então serviriam às religiosas do mosteiro de Odivelas para confeci-onar a mais reputada marmelada da doçaria conventual portuguesa. A fama alcançada no seu tempo chegou até aos nossos dias, pelo que terá a sua quota-parte de verdade assegurada.

É pouco provável que a infanta Catarina de Bragança (1638-1705) tenha levado consigo para a corte de Carlos II Stuart uma reserva desse fruto acabado de colher ou transformado em compota. Já terá bastado à nova rainha consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda (1662-1685) ter-se feito acompanhar do precioso chá de Ceilão com que inaugurou entre os britânicos a tradição do five o'clock tea.

O que parece ser uma certeza é que nas merendas reais haveria uma citrinada de laranja amarga e uns bolos em forma de coroa. A compota virara marmalade pelos súbditos britânicos nos tempos em que Henrique VIII recebera uns boiões de marmelada portuguesa. Palavra vai, palavra vem, a soberana lusitana converteria os cakes em queques. O equilíbrio vocabular ficava assim estabelecido.

QUEQUE

Um cake em forma de coroa...

6 de março de 2017

Frédéric Richaud e as guerras longas e silenciosas do jardineiro do rei


«Jean-Baptiste de La Quintinie restait assez peu préoccupé de ces sourdes agitations. Il écoutait distraitement les récits sanguinaires qu'on venait lui conter, observait de loin l'inquiétude grandissante de la cour, les va-et-vient continus des messagers. Non qu'il ne s'intéressât pas aux campagnes et au devenir de leurs héros – il connais-sait bien Condé et éprouvait un réel plaisir à entendre les épisodes qui vantaient sa gloire nouvelle –, mais parce qu'il avait, de son côté, sa propre guerre à mener, une guerre longue e silencieuse, une guerre dont personne ne parlait.»
Frédéric Richaud, Monsieur le jardinier (1999)
Caso as leis da vida e da morte fossem compagináveis com as li-berdades que as palavras por vezes têm, Luís XIV poder-se-ia gabar de deter o mais longo reinado da história francesa e um dos mais extensos da europeia. Durante esses setenta e dois anos, repartidos por dois séculos (1643-1715), teve oportunidade de se tornar num dos soberanos mais marcantes do seu tempo e de ter convertido a Coroa Franco-Navarra dos Bourbon numa potência à escala global. Entre as peripécias sangrentas maiores das guerras dos Países Baixos, dos Nove Anos e da Sucessão Espanhola, e dos conflitos menores das guerras da Devolução e das Reuniões, ainda teve tempo de erigir o palácio de Versalhes, um dos maiores do mundo e símbolo indiscutível do absolutismo régio de origem divina que se arrogava ter. O Grande, lhe chamaram os súbditos, e Rei Sol, se passou a designar a si mesmo. Megalomanias do Ancien Régime a que a Révolution Française poria cobro no reinado de Luís XVI, o tetraneto que perdeu a cabeça na guilhotina por essas manias de poder ditadas pelos ditames do despotismo aristocrático ilimitado.

Se as paredes tivessem também a capacidade de falar, muito teriam a dizer sobre as incontáveis intrigas de corte, experienciadas no interior da residência oficial de Suas Majestades Cristianíssimas, erguida a uma distância confortável de Paris, capital do reino, a que as gerações seguintes batizariam de Cidade Luz. Frédéric Richaud estreou-se na literatura com um romance centrado em Jean-Baptiste de La Quintinie (1626-1688), intitulado Monsieur le jardinier (1999), nome pelo qual o botânico do rei passou a ser conhecido, à falta doutras dignidades nobiliárias que não possuía nem pretenderia possuir. Pelo menos é o que nos dá a entender o relato biográfico do obreiro do Jardin Potager du Roi à Versailles, i.e., a horta que passou a alimentar todos os inquilinos que se sentavam quotidianamente à mesa do monarca. História banal se não fosse protagonizada por uma das figuras mais notáveis da época, tanto a nível nacional como internacional. Senhor duma personalidade misteriosa, com um caráter reservado, modesto no trajo e cordato no trato. Enxada numa mão, a pá na outra, um enxerto em vista, em luta constante contra os insetos e as borrascas. Fascinante em qualquer circunstância.

Entre as muitas conquistas alcançadas pelas modernas tecnologias postas à nossa disposição, a possibilidade de viajar no tempo e de registar ao vivo o que de facto ocorreu no mundo concreto constitui ainda uma lacuna insuperável. Ficarão indefinidamente por determinar quais as palavras exatas proferidas ou pensadas por cada um de nós num qualquer instante da nossa vida já vivida. Sem tirar nem pôr nada de espúrio nesse filme fac-similado da nossa existência individual e coletiva. A verificar-se tal avanço, num futuro mais ou menos afastado, os atuais relatos históricos estariam condenados ao desaparecimento do universo dos géneros poéticos viáveis, por terem perdido o privilégio de imaginar o real. Sendo assim, só nos resta abstrair-nos do caráter aproximado dos diálogos-monólogos conjeturados com a verosimilhança exigida nestas circunstâncias pelos intervenientes da ficção, para proveito e deleite dos leitores. Aceitar, por exemplo, que o protagonista poderia ser um celibatário inveterado, como dá a entender o texto, quando os registos da época nos afirmam ter contraído casamento com Demoiselle Margueritte Joubert em 1670 e gerado três filhos, que lhe perpetuaram o nome.

O relato fragmentário das guerras longas e silenciosas do jardineiro do rei decorre entre 1674 e 1688, período de tempo que corresponde, grosso modo, ao seu envolvimento no projeto régio de criar um espaço rural destinado a suprir as necessidades diárias da cozinha do complexo palaciano. A monarquia foi-se, os impérios e repúblicas sucederam-se ininterruptamente ao longo dos tempos, os regimes políticos combateram-se incessantemente uns aos outros, mas o legado do grande visionário seiscentista mantém-se atuante nos nossos dias, muito embora os produtos hortícolas ali produzidos tenham deixado de ser consumidos apenas por alguns privilegiados de sangue azul aristocrático e se destinem atualmente a todos os interessados de sangue vermelho plebeu. Lidos os apontamentos biográficos que constituem o testemunho romanesco, fica-se com uma visão mais clara dum dos recantos menos conhecidos de Versalhes, aquele que os cortesãos de então se escusavam de pisar e os turistas apressados de agora se esquecem de visitar. Lacuna imperdoável que urge colmatar com celeridade. O espírito do seu criador continua bem vivo em todo esse vergel mágico, a promover ininterruptamente o diálogo do homem com a natureza, uma das formas mais elevadas da cultura.

27 de fevereiro de 2017

Vem ao baile, vem ao baile...

Fernando Botero  -  Pareja bailando  (1987)

[Museo Botero del Banco de la República - Bogota - Colômbia]

UM CARNAVAL


Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile

E vais ver o que é bailar.

Alexandre O´Neill

20 de fevereiro de 2017

El rey planeta y el valido girasol

ALEGORIA

 FELIPE IV, EL REY PLANETA 

«El cuarto planeta que era el sol resultaba un emblema de lo más apropiado para el rey Felipe, cuarto de este nombre, y el concepto de “rey planeta” probablemente ya acuñado hacia 1623. Felipe tenía que aparecer ante el mundo como rey planeta, y lo mismo debía suponer para la posteridad, un personaje central en una corte deslumbrante, que dispensaba luz y favores. Illuminat y fovet, ilumina y calienta, tale era la divisa de Felipe que se hacía correr entre el público en general. Olivares, por su parte, elegiría como emblema el girasol, que se inclina hacia donde luce el sol.»
J. H. Elliot, El conde-duque de Olivares, 1986

MEGALOMANIAS  ASTRAIS...

Felipe IV de todas as Espanhas e algo mais nas Américas, Euro-pas, Áfricas e Ásias considerava-se um monarca global. Não foi o primeiro nem o último a sofrer de tais megalomanias. Tal como fize-ra o avô Felipe II, arrogava-se o direito de dizer que no seu império o Sol nunca se punha. Por essa razão, achou por bem autocogno-minar-se El Rey Planeta.

O epíteto de Su Majestad Católica caiu no goto de Sa Majesté Très Chrétienne que rapidamente se passou a representar e a designar como Louis XIV,  Le Roi Soleil. Por alguma razão era filho duma es-panhola e estava casado com outra. A casa francesa dos Bourbon não podia em caso algum brilhar menos do que a casa castelhana dos Habsburger. Noblesse oblige.

Entre nós, o rei dos astros nunca ultrapassou a órbita de Mercúrio, o deus da comunicação, do comércio e dos ladrões. Talvez por isso, Filipe III tenha passado de o Grande a o Opressor e sido despojado dos reinos e senhorios da Coroa Portuguesa que não lhe pertence-riam de direito, de nada valendo ao rei planeta e pai do rei ocaso a subserviência inútil do valido girassol.

13 de fevereiro de 2017

Roberto Bolaño, o terceiro reich e os demais jogos de guerra

«– Ese tablero, como puedes apreciar, es el mapa de Europa. Es un juego. También es un desafío. Y es parte de mi trabajo.»
Roberto Bolaño, El Tercer Reich (2010)
Lidos os livros de que gostamos, só nos resta voltar a abri-los mais uma vez para uma nova visita ou fechá-los por uns tempos e encetar um longo diálogo silencioso com as ideias que despertaram em nós. Se a conversa for frutuosa e a quisermos preservar para uma memória futura, podemos sempre confiar excertos dessa amena cavaqueira a uma folha de papel. Para ser mais preciso neste admirável mundo novo de virtualidades digitais, transformar as palavras escritas com tinta em impulsos elétricos de uma página word com carateres escolhidos de acordo com a inspiração do instante e o assunto tratado.

Roberto Bolaño tem essa rara aptidão de cativar o leitor, de o desafiar a trocar confidências com as personagens dos universos por si inventados, à sombra de casos de vida real com que se cruza todos os dias sem lhe prestar uma atenção especial, tão banais lhe parecem. Pessoalmente, já havia saboreado essa sensação com o 2666 (2004), o último romance de romances ou novelas que nos ofertou já a título póstumo e lhe abonou o passaporte para um muito justo reconhecimento internacional. O mesmo efeito de captura total voltou a ocorrer com O Terceiro Reich (2010), também ele deixado inédito, apesar de ter sido arquitetado por volta de 1989, no início da sua fulgurante carreira de artesão de relatos em prosa. Ignoramos as razões que o terão levado a deixá-lo esquecido, talvez incompleto ou abandonado, no meio de outros manuscritos em boa hora descobertos, que os fiéis depositários literários têm vindo a converter em letra de forma e a confiar ao convívio de todos nós. A partilha tem sido preciosa.

O argumento é fácil de traçar. Centra-se numas breves férias de verão que um jovem casal de alemães, na casa dos 25 anos, goza na Costa Brava espanhola. As peripécias que marcaram a estada no hotel Del Mar, os encontros e desencontros com turistas e nativos, as aventu-ras e desventuras experienciadas por todos, as conhecidas e as ima-ginadas, estão meticulosamente registadas no diário do protagonista, que constitui, em suma, o romance que temos entre mãos. Como relato de primeira pessoa que é, a sua descoberta proporciona o mistério, a dúvida, a hesitação. Um cheirinho policial a estimular o enredo. A subjetividade de informação impera. O ponto de vista do narrador a alternar aqui e ali com fragmentos de discursos proferidos em direto pelos restantes intervenientes da intriga. As certezas de uns a colidirem com as incertezas de outros. A fronteira entre amigos e inimigos muito difícil de traçar. Sobretudo quando se sentam em lugares opostos duma mesa de jogo, com um tabuleiro hexagonal e muitas fichas de permeio, quando se transmudam em estrategas rivais dum wargame que dá pelo nome provocador de Terceiro Reich, quando se convencem que o destino dos homens pode ser vivido duas vezes e de forma diferente. Os combates travados por ambas as partes pela vitória chegam a assumir o contorno duma luta de vida e morte. A imagem dos dois jogadores de xadrez filmados por Ingmar Bergman n’O sétimo selo a pairar insistentemente no meu imaginário particular, mas com um desfecho menos dramático. No final da contenda, o derrotado não é incorporado na procissão de flagelados como o cruzado medieval. Limita-se a regressar à Alemanha natal duas vezes vencida pelas forças aliadas, no palco real da II Guerra Mundial e no cenário fingido dum jogo de guerra social. O bélico e o lúdico lado a lado a comentarem as efemérides dum passado recente.

Mais do que uma incursão de nos meandros do defunto império germânico dos mil anos anunciados, duma apologia ou anátema aos princípios que nortearam a sua criação, abrigo e queda, este texto quase inaugural de Roberto Bolaño convida-nos a pisar as tábuas do teatro europeu contemporâneo e a rever os dramas que nele se representaram em meados do Séc. XX. Alerta-nos para a impossibilidade de reescrever a nosso belo prazer a História, de não estar ao alcance de nós a faculdade de comutar os desastres em triunfos ou de disfarçar os erros em sucessos. Afirma-nos que o destino das nações não se joga aos dados nem ao sabor dos caprichos da sorte e do azar, que os logros e malogros dos heróis e anti-heróis da gesta dum povo não podem ser refeitos por nenhuma vontade humana ou divina. Pensar o contrário é como se fôssemos fantasmas dum estado-maior fantasma a exercitar-se continuamente sobre tabuleiros de wargames, como se fôssemos sombras sobre sombras, oficiais de faz de conta a zombar da legalidade dos factos feitos por homens de carne e osso. Esta a realidade nua e crua imposta à imaginação, mesmo quando posta ao serviço dos labirintos insondáveis da literatura.

NOTA
Os jogos de guerra andam por aí. Estão na moda. Imagina-se um determinado conflito mundial resolvido pela lei do mais forte e reequacionam-se novas estratégias, como alterar arbitrariamente a listagem dos vencedores e vencidos. Roberto Bolaño fê-lo muito à sua maneira n'O Terceiro Reich, texto que comentei há precisamente seis anos no Pátio de Letras. Lembrei-me de o trazer para aqui para uma releitura feita à luz do contexto bélico de palavras que agora se vão vivendo... 

6 de fevereiro de 2017

O rodízio do Africano

RODÍZIO DE D. AFONSO V

Tapeçarias de Pastrana - Cerco de Arzila (séc. xv)
[Colegiada de Pastrana - Espanha]

As mensagens subliminares, guardadas no corpo e na alma das divi-sas reais, dão histórias fabulosas, quando nos pomos a decifrar os segredos seculares que as envolvem. A empresa de D. Afonso V (1432-1481) enquadra-se nesta categoria. Um rodízio a derramar go-tas, acompanhado dos dizeres VII e e o lema Jamais. Mistérios das cabeças coroadas.

Ao que parece, tudo se resume a uma jura de amor que o monarca terá feito ao enviuvar de D. Isabel de Coimbra (1432-1455). Tinham ambos 23 anos e estavam profundamente apaixonados. Jamais vol-tarei a amar. Terá dito ou pensado. Vá-se lá saber. A verdade é que se viria a casar com Joana de Castela em 1474. Contradições que a alta política dita.

As gotas vertidas seriam lágrimas de saudade ou de contrição. Tanto faz. O E associado a rodízio permitiria a leitura de duas palavras: Erro dízio. Mais uma promessa solene a que o Africano se obrigava. Revelar sempre em confissão todos os VII pecados capitais que cometesse. Explicações engenhosas para um enigma que a história consagrou.
   

2 de fevereiro de 2017

Fadário & Alvedrío

Michelangelo Buonarroti - Creazione di Adamo (circa 1511)

[Cappella Sistina, Musei Vaticani, Città del Vaticano]
Entre Thánatos & Kéres
O homem está condenado desde o início dos tempos a nascer, viver e morrer. Até ao final dos tempos continuará a ser assim. Ninguém é imortal, nem sequer os deuses e os heróis. Estes necessitam de ser lembrados pelos mortais para existirem com caráter indefinido. Caso contrário, desapareceriam do nosso horizonte de referências. Afinal, dizer que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus acaba por ser uma forma encapotada de dizer que os deuses foram feitos à imagem e semelhança dos homens. Não daquilo que de facto são mas sim daquilo que gostariam de ser.

O homem está condenado a ser livre. Defende o existencialismo ma-terialista de Jean-Paul Sartre. Livre, porque depois de ter nascido passa a ser responsável por tudo o que fizer em vida. Até de deter-minar o momento da morte. O fadário iniciado com um ato em que não foi perdido nem achado pode ser corrigido com o alvedrío que a razão lhe ditar. Ninguém nos perguntou se queríamos dar entrada neste mundo do ser mas também ninguém nos pode impedir de antecipar a nossa partida para os domínios do nada. Preferir o toque suave de Thánatos ao trespasse violento das Kéres.