8 de janeiro de 2021

Virgílio, a epopeia de Eneias e de Roma

Pompeii, Casa di Sirico (séc. I AEC)
Enea ferito, in piedi, viene curato dal medico Japix, mentre Venere, preoccupata,  giunge
portando erbe medicamentose; intanto il figlio Ascanio, in lacrime, è presso il padre.

[Museo Archeologico Nazionale di Napoli]

Arma virumque canō, Trōiae quī prīmus ab ōrīs
Ītaliam, fātō profugus, Lāvīniaque vēnit
lītora, multum ille et terrīs iactātus et altō
vī superum saevae memorem Iūnōnis ob īram;
multa quoque et bellō passūs, dum conderet urbem,
inferretque deōs Latiō, genus unde Latīnum,
Albānīque patrēs, atque altae moenia Rōmae.
Publii Vergilii Maronis, Aeneis (c.19AEC: I, 1-7)

Acaba de sair a mais recente tradução portuguesa em verso da Eneida (19AEC) de Virgílio, elaborada cuidadosamente durante seis anos por Carlos Ascenso André, crítico literário e professor-associado da Universidade de Coimbra, acompanhada duma breve Introdução para leigos e algumas anotações mínimas dispersas ao longo das suas quatrocentas e trinta páginas de textos. Data do passado mês de junho, a demonstrar que nem tudo se manifestou aziago nesse ano bissexto de 2020, em que até os doze deuses maiores do Panteão Grego se mudaram para este 2021, a fim de assistirem em Tóquio à ⅩⅩⅩⅠⅠ Olimpíada da Era Moderna. O reverso da medalha é que os Livros Cotovia chegaram ao fim. Esta publicação da mais perfeita das obras imperfeitas da literatura latina deve ter sido uma das últimas a ser impressa nos prelos da editora. Assim vai a cultura no nosso país na segunda década do terceiro milénio.

Depois de Homero (c. Séc. AEC)  ter cantado a vitória dos Aqueus sobre os Teucros na Ilíada e na Odisseia, Virgílio (70-19AEC) resolve fechar o Ciclo Troiano com um poema épico latino construído à imagem e semelhança da dupla epopeia grega, cuja composição o havia antecedido cerca de oito séculos. Tal como o aedo lendário fizera, o imitador romano opta pelo hexâmetro datílico como esquema rítmico da história heroica de Eneias, filho do mortal Anquises e da divina Vénus, desde a tomada da cidade de Ílion pelas forças aliadas de Agamémnon e o estabelecimento dos alicerces da fundação da cidade de Roma. Fá-lo, todavia, em apenas doze livros, opondo-se assim ao modelo helénico seguido, que consagrara o dobro de cantos a cada uma das narrativas. Neste exercício de contensão discursiva, o decalque da obra fundadora da literatura ocidental prossegue com a divisão equitativa da Eneida em duas partes: a réplica ao espírito da Odisseia, representada no regresso dos heróis às suas origens de Ítaca e da Itália (livs. i-vi); a adaptação ao espírito da Íliada, na justificação da guerra travada entre dois povos,  Argivos vs. Dánaos e Cartagineses vs. Romanos, motivado pelos amores de Helena-Páris e de Dido-Eneias (livs. vii-xii).

Sem grandes exageros, pode dizer-se que a Grécia Antiga inventou quase tudo em termos poéticos, todos eles depois imitados, ampliados e adaptados pela restante Europa e mundo ocidental. É sabido que Homero não terá sido o criador absoluto do género narrativo em verso. Antes dele, já as lendas sumérias e o espírito criador acádio haviam gravado em tabuinhas de argila e em carateres cuneiformes a Epopeia de Gilgamesh, rei de Uruk cerca de 2700-2650AEC. A proximidade relativa das culturas mesopotâmica e helénica permite-nos aceitar que o rapsodo cego de Quios se tenha inspirado nesses textos assírio-babilónicos para compor o duplo poema épico que lhe é atribuído, mormente no desenho aventureiro do rei Odisseu-Ulisses de Ítaca. Para todos os efeitos, foi este modelo arcaico que serviu de base ao poeta clássico de Mântua para traçar os feitos heroicos do príncipe Eneias de Troia, um dos fundadores da Cidade das Sete Colinas. Maneirista à sua maneira, tal como Camões o será mil e seiscentos anos mais tarde com Os Lusíadas (1572), centrados na história das armas e dos barões assinalados lusitanos, representados simbolicamente por Vasco da Gama. O mesmo se poderá dizer de Dante e da Divina Comédia, composta no início do Séc. ⅩⅠⅤ, sobretudo na descida do vate italiano aos infernos na companhia do vate latino (Eneidaliv), à semelhança do Ulisses na rapsódia que Homero lhe dedica na (Odisseialivⅺ).              

Mais do que uma mera imitação latina dum conjunto de rapsódias homéricas, as sequências odisseica e iliádica virgilianas têm como principal propósito superar o complexo de inferioridade sentida pelos descendentes de Rómulo e Remo face aos descendentes de Heleno. Funciona quase como uma vingança à distância da confederação tróada vencida pela confederação micénica cerca de 1250AEC. Eneias, descendente de Dárdano, oriundo da Etrúria e fundador de Troia, está nas origens remotas do Império Romano, que a seu tempo conquistará todo o Império Grego de Alexandre da Macedónia. Ironia trágica de ver os vencidos convertidos em vencedores, os conquistadores transformados em conquistados e os senhores reduzidos a súbditos. O amigo de Horácio e protegido de Mecenas bem podia oferecer pessoalmente a Augusto a sua opera magna, consagrando a glória da Cidade Eterna de Roma e da gens predestinada dos Júlios, uma estirpe divina representante dos mitos ancestrais helénicos de Minos, Micenas e Hélade, se a morte o não tivesse levado inesperadamente em Brundísio, quando se dirigia à cidade de Príamo na Anatólia. Não teve tempo de rever o texto final, mas apercebeu-se mesmo assim que não conseguiria melhorá-lo tal como desejava, dando instruções precisas para que o destruíssem. Felizmente este seu desejo perfecionista não foi respeitado, tornando-se desde cedo na obra-prima da literatura latina e o ponto de partida para as epopeias dos povos herdeiros tanto da tradição troiana como da romana.

3 comentários:

  1. Gostei imenso do texto, especialmente de reconhecer vários dos nomes.
    Ando de olho nessa edição da Eneida, depois de ler este texto mais convicta fiquei de que tenho que o adquirir e ler.
    Viva os clássicos!

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    1. Sei que gostaria, depois de andar a ler a «Ilíada» Homérica. Boas leituras no seio dos clássicos.

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  2. Grande lição sobre literatura antiga, Prof.! Li a Eneida e a Odisseia apenas em edição escolar... Entende-se o teu entusiasmo como especialista e ainda bem que 2020 deixa registos tão valiosos!

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