30 de maio de 2015

As idades dum país milenar

Brasão de D. Afonso Henriques
Conde, duque, infante, príncipe & rei de Portugal
[Academia das Ciências - Lisboa]

RELATIVIDADES
Cumpriu-se no passado dia 23 de maio 836 anos que o papa Alexandre III assinou a bula Manifestis Probatum (1179). Nessa decreto pontifício, a Santa Sé confirmou D. Afonso Henriques como rei e Portugal como reino. Com a precipitação habitual nestas circunstâncias, os canais de informação em massa apressaram-se a celebrar o aniversário do nascimento do país.

Olhando com um pouco mais de cuidado para os anais registados pela história, lá nos apercebemos que a delimitação da Terra Portucalense, como entidade distinta da Galiza, ocorreu há 1147 anos. Adveio duma iniciativa de Afonso III das Astúrias, monarca que confiou a administração do território a Vímara Peres, na qualidade de primeiro Conde de Portugal (868).

O processo que levaria à libertação paulatina da nova entidade política da coroa de Leão efetuar-se-ia nos tempos seguintes. Tornaram-se definitivos, sobretudo quando o filho do conde D. Henrique e da condessa-rainha D. Teresa, fundadores da dinastia de Borgonha (1095), assumiu a governação do Condado Portucalense, depois da batalha São Mamede (1128)

Assume o título real após a batalha de Ourique (1139), que lhe é reconhecido por Afonso VII na Conferência de Zamora (1143). A fase final da separação de Leão será negociada em Roma nos 36 anos seguintes. Portugal libertava-se do poder secular hispânico e sujeitava-se ao poder eclesiástico papal. A história da independência dos povos tem destas pequenas relatividades.

28 de maio de 2015

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: segundo folhetim – Central...

«No meio da Vila que crescia, o Central, que já se chamara República, ficava na mesma. A bica de saco aguentava bem a ofensiva do café expresso.»
Álvaro Guerra, Café Central (1984)
É sempre com uma certa dificuldade que me refiro ao regime político que vigorou em Portugal entre as duas revoluções militares de sinal contrário mais marcantes da centúria passada, a nacionalista do 28 de maio de 1926 e a democrática do 25 de abril de 1974, com a denominação clássica e cronológica de Segunda República, quando os próprios magistrados máximos do país preferiram a etiqueta protocolar bastante mais cómoda de chefe de estado. O mais paradoxal da situação é que nenhum deles deixou de se considerar presidente da república de um muito discutível Estado Novo. Alguma razão haveria, com certeza, para terem alimentado durante tanto tempo o equívoco. Pouco importa apurar aqui as razões dessa ambiguidade tão peculiar de lidar com os títulos oficiais da res publica. Não seria o lugar nem o momento mais oportunos para proceder a uma tal pesquisa. Os historiadores que o façam se para aí estiverem virados e se acharem que ainda merece a pena nos dias que correm.

Álvaro Guerra também não chamou à colação essa problemática de somenos importância para a consecução do romance. Chamou-lhe Café Central (1984), adotando o mesmo nome com que o galego Manuel Maria rebatizara prudentemente o Café República, ao aperceber-se para que lado tinham começado a soprar os ventos que os conspiradores de Braga tinham levado para Lisboa, a dois passos mal contados do pacato lugarejo da borda-d’água ribatejana que escolhera alguns anos atrás para levar uma vida tranquila e sem sobressaltos de maior. Decisão sábia que lhe permitiu manter o estabelecimento de portas abertas durante toda essa época conturbada de ditaduras disfarçadas e de o transmitir depois ao filho como herança. O cronista oficial da «Trilogia dos Cafés» situa essa mescla de efemérides fingidas e verdadeiras entre o final da segunda guerra mundial e o movimento dos capitães, balizas históricas de particular importância tanto a nível global como local, a que dá o subtítulo sugestivo de Folhetim do mundo vivido em Vila Velha (1945-1974).

O painel intermédio do tríptico mantém a estrutura narrativa inaugurada no anterior. As personagens encontram-se agrupadas em núcleos familiares representativos das diversas forças vivas do burgo. As casas, as herdades, as quintas são as mesmas. Só o estado de conservação de algumas delas e a saúde dos donos se vão arruinando. Nasce-se, vive-se e morre-se como em toda a parte. Umas vezes na paz podre da metrópole, outras nas guerras distantes do ultramar. As alterações são sempre insignificantes e só são arroladas para dar a ilusão fugidia de progresso. A pharmácia passa a farmácia e a Pvide a Pide e depois a DGS, as grafonolas são rendidas pelos pick-up e a mercearia pelo supermercado. A União Nacional é revezada pela Ação Nacional Popular e os ditadores recuperam o nome. A liberdade anunciada pelo Santa Maria não se confirma e a aventura de Humberto Delgado culmina de forma trágica sobejamente conhecida. Salazar cai da cadeira e Caetano sobe ao poleiro. Promessa ilusória da muito falada renovação na continuidade, exaustivamente aclamada pelos canais oficiais postos à disposição do poder instituído, com algum afinco demagógico nas conversas em família dos serões televisivos. A primavera marcelista acalentada por alguns revelou-se uma miragem logo desfeita. A questão colonial vive à sombra dos seculares fumos das índias e ventos do império. Só o narrador atualiza a sua forma especial de contar os factos. A terceira pessoa alterna com a primeira, a objetividade neorrealista luta com a subjetividade neorromântica, o ponto de vista dos intervenientes internos da ficção rivaliza com as opiniões pessoais do autor. Através dos romancistas encartados da crónica, não perde a ocasião de divulgar as novíssimas estéticas do realismo fantástico latino-americano que as gerações seguintes de escritores reais acabariam por assimilar e consagrar entre nós.

Lido o livro na altura em que se festeja o centenário da queda da monarquia e advento da república, em que voltamos a eleger um novo presidente por sufrágio universal, sem ambiguidades nem constrangimentos, ficamos com uma sensação amarga de vazio quanto ao peso dado neste segundo folhetim ao regime fundado em 1910. A liberdade então conquistada é encerrada no forte de Peniche, no presídio de Caxias, nos curros do Aljube, nos calabouços do Governo Civil, no campo do Tarrafal, nas cadeias da Pide, nas picadas perdidas de África. A consolação é que a crónica termina na madrugada do dia dos cravos. Aquela que nos devolveria o direito de restaurar a legitimidade do regime. Mas isso é já o cenário a pintar no terceiro café da série. Entretanto, ficamos com a derradeira pincelada desta saga de sagas, com a representação da cena patética do sorriso duma das protagonistas feito com os olhos rasos de água, a provar-nos que nem sempre se chora de dor ou de tristeza. A alegria da mudança tem este efeito purificador que se expressa através das lágrimas incontidas duma felicidade anunciada ou simplesmente adiada...

NOTA 
Este texto é o segundo de três que publiquei no Pátio de Letras, no ao ano em que a República celebrava o seu centenário. Já trouxe para este espaço o Primeiro Folhetim, a que se segue agora o Seguinte. A data escolhida para a reposição foi ditada pelo calendário histórico deste país, que em tempos também passou por uma experiência de repressão mais ou menos consentida...

23 de maio de 2015

A nova era da pedra lascada

Leonardo da Vinci - Uomo Vitruviano (c. 1490)
[Gallerie dell'Accademia, Venezia]

NEOPALEOLÍTICO

Foram descobertos no Quénia ferramentas de pedra fabricadas há 3,3 milhões de anos, ou seja, 700 mil anos mais velhas do que os vestígios humanos mais antigos que resistiram à voragem do tempo. Significa isto que as marcas manufacturadas deixadas pelo homem para transformar a natura são bem mais resistentes do que as marcas biológicas deixadas pelo inventor da cultura.

Com esta capacidade de dar uma nova forma ao mundo, os descendentes da família de mamíferos homínidas procederam à conversão do caçador-recoletor em agricultor-pastor. Aprenderam a pensar, a falar, a comunicar. Inventaram a escrita, erigiram cidades, povoaram a terra. Passaram do estado de barbárie primitiva aos estado de civilização moderna. Fizeram-no por tentativa e erro.

Agora anda por uma horda de kaliphatopithekoi a destruir por onde passam tudo aquilo que outros construíram. A apagar em instantes as marcas de humanidade que as ferramentas criarem em milénios. Usurpadores duma espécie que teimam em negar. Por inversão empedernida do homo sapiens em ignarus. Troglodita empenhado na fundação duma nova era da pedra lascada. Total e definitiva.

20 de maio de 2015

Uma história desenhada

Markus Zusak The Book
Durante essa semana, Max cortara uma série de páginas do Mein Kampf e pintara-as de branco. Depois pendurou-as com molas numa corda, de uma ponta à outra da cave. Depois de todas secas, começou a parte difícil. Ele tinha instrução para se safar, mas não era de maneira nenhuma um escritor, nem um artista. Apesar disso, formulou as palavras mentalmente até conseguir formulá-las sem erros. Só então, no papel que encurvara e formara bolhas sob a pressão da tinta seca, é que começou a escrever a história. Fê-lo com um pequeno pincel preto...

O HOMEM DEBRUÇADO

Toda a minha vida, tenho sentido medo de homens debruçados sobre mim.

Suponho que o meu primeiro homem debruçado sobre mim foi o meu pai, mas ele desapareceu antes de eu poder recordar-me dele. 

Fosse por que fosse, quando era garoto eu gostava de lutar. Grande parte das vezes, perdia. Outro garoto, às vezes com sangue a escorrer do nariz, estava então debruçado sobre mim.

Muitos anos depois, precisei de me esconder. Tentava não dormir porque tinha medo de quem poderia lá estar quando acordasse. Mas tive sorte. Era sempre o meu amigo.

Quando estava escondido, sonhava com um certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ter com ele.

Com sorte e muitos passos, consegui chegar.

Dormi lá durante muito tempo. Três dias, disseram-me… e o que encontrei ao acordar? Não um homem, mas outra pessoa, debruçada sobre mim.

À medida que o tempo passava, a rapariga e eu percebemos que tínhamos coisas em comum. 

Mas uma coisa estranha. A rapariga diz que eu pareço outra coisa. 

Agora vivo numa cave. No meu sono ainda vivem sonhos maus. Uma noite, após o meu habitual pesadelo, uma sombra debruçou-se sobre mim. Ela disse: «Conta-me o que sonhas.» E eu assim fiz… 

Em troca, ela explicou de que eram feitos os seus próprios sonhos.

Agora acho que somos amigos, essa rapariga e eu. No dia dos meus anos, foi ela que me deu um presente a mim. O que me fez compreender que o melhor homem debruçado que já conheci não é de todo um homem…

Markus Zusak, A rapariga que roubava livros (2005 | 2008: 193-205)

16 de maio de 2015

Brutal & viral



O real e o imaginário cruzaram-se comigo esta semana. De rompante e sem aviso prévio. As notícias ao minuto e as páginas dum romance levaram-me à problemática do bullying. Coincidências. Por outras palavras pedidas emprestadas ao Dicionário Priberam: «(c)onjunto de maus-tratos, ameaças, coações ou outros atos de intimidação física ou psicológica exercido de forma continuada sobre uma pessoa considerada fraca ou vulnerável».

O faits-divers mediático diz-nos que, durante 13 minutos, um gang de oito jovens, na casa dos 16 anos, agrediu um outro de 17. Gravaram o ato, deixaram-no alguns meses a ganhar patine e colocaram-no agora na Net. A dar crédito aos mass media, poucas horas depois de ter sido publicado, o vídeo contava já com mais de meio milhão de visualizações e cerca de trinta mil partilhas nas redes sociais, suscitando insultos e comentários de repúdio.

O testemunho literário tem-me estado a ser transmitido estes dias por Mario Vargas Llosa, em La ciudad y los perros (1962), relato de formação semibiográfico com que se estreou no universo das letras há mais de meio século. Os episódios de puro sadismo, de praxes académicas de cariz militarista, excessivas e gratuitas, perpetradas pelos alunos mais velhos sobre os seus colegas mais novos, surgem a cada momento. A uma cadência alucinante. Imparável.

O factual como mimese do ficcional. A vida a inspirar a arte. As histórias ocorridas a rivalizarem com as fingidas. Tão chocantes umas como as outras. Fenómeno antigo replicado de geração em geração. Em casa, na escola, na caserna. Ritos de iniciação. Perpetuação de modelos marginais de transgressão tolerada. O esconde e foge a jogar com o agarra e revela. A ponta dum iceberg ocasional a transformar-se num caso brutal de propagação viral.

12 de maio de 2015

Maria Teresa Horta, uma galeria de meninas desenhadas ao sabor da pena

«Quando as meninas | fitam o nada | de olhos vagos || Uma brisa cruel | vacila e sussurra | no seu peito || Estão a ver um anjo |  imagino || Mas as mães | desesperam»
Maria Teresa Horta, Meninas (2014) 
Quando soube que Maria Teresa Horta estava prestes a publicar uma coletânea de contos intitulado Meninas (2014), associei-o instantaneamente ao quadro homólogo de Diego Velázquez, Las meninas (1656), obra maior do barroco peninsular seiscentista, onde o pintor sevilhano de origem portuguesa representara, numa tela de grandes dimensões, a família de Filipe IV das Espanhas, já então despojado da coroa dos reinos e senhorios de Portugal. Aí capta, com o olhar atento de quem sabe ver e gosta de o mostrar, a visita informal dos monarcas hispânicos à oficina palatina do artista, centrada na figura radiosa da infanta Margarida de Áustria e das suas açafatas ou meninas. Uma mão cheia de figuras reais eternizadas a óleo e registadas todas elas nos anais oficiais da Casa de Áustria e das suas aliadas europeias.

Após o início da leitura-contemplação do painel desenhado com palavras, o déjà vu muda de rumo e instala-se nas páginas percorridas há trinta anos num texto de Maria Isabel Barreno, Célia e Celina (1985), protagonizado por duas mulheres-meninas que dão corpo e nome à obra. Nas etapas seguintes da viagem, já estou na companhia mais remota ainda de Maria Velho da Costa e das três habitantes das Casas pardas (1977), mulheres que em tempos também foram meninas e nos ajudam a traçar, como as restantes, uma vasta galeria de heroínas de todas as idades, marginalizadas no dia-a-dia e recuperadas para a vida pela arte de contar das «Três Marias». As tais que compuseram em conjunto e no feminino as Novas cartas portuguesas (1979), baseadas no testemunho epistolar seiscentista de sóror Mariana Alcoforado e de muitos outros percursos dramáticos dos nossos e de todos os tempos.

Em entrevista dada recentemente ao Notícias Magazine, a contista revela-nos alguns segredos destas trinta e duas meninas desenhadas em prosa e uma delineada em verso, repartidas por duas secções ou galerias. Na primeira confessa haver posto muito de si mesma nos testemunhos de vidas reinventadas pela ficção e na segunda uma porção significativa da sua própria forma de ser e estar no mundo. Considera-se uma contadora de histórias a que deu inteira liberdade, depois de ter passado por dezassete anos de psicanálise intensiva para fazer a catarse da infância. Nesse período de tempo de purgação planificada, de reencontro com as mulheres tutelares da família, reservou treze desses anos para conversar, à distância de dois séculos e meio, com a Condessa de Oeynhausen, a Alcipe das arcádias literárias, mais conhecida por Marquesa de Alorna, a sedutora de anjos, poetas e heróis, a avó em quinto grau da prosadora-poetisa, que retratou em forma de romance n’As luzes de Leonor (2011). Ecos mais ou menos distantes, mais ou menos próximos duma figura iluminada das letras portuguesas e que, agora, voltamos a encontrar plasmada num ou noutro flash rápido deste conjunto de relatos curtos arrumados segundo os caprichos da memória.

Impossível identificar neste espaço restrito de notas soltas todos os fragmentos narrativos convocados pela colecionadora compulsiva de palavras. Todos eles representam uma situação concreta de amor/ódio, vida/morte, sonhos/pesadelos duma única artífice de coisas feitas com uma multiplicidade de nomes. Míticos, quase todos, distribuídos pelos dois rios matriciais da cultura greco-romana e judaico-cristã. Lilith, Lucinha, Matilde, Beatriz, Mónica, Raquel, Laura, Sara, Branca, Eurídice, Dulce, Cassandra, Carlota, Esther, Lívia, Íngride, Rute, Teresa e muitas mais. Meninas num universo de adultos, formado por homens e mulheres. Maridos, amantes, pais/padrastos, dum lado; irmãs, avós, mães/madrastas, do outro. Um percurso pela mundividências da condição humana nos seus mais íntimos pormenores, balizados entre o vir a ser e o deixar de estar, entre o nascer e o perecer, entre o tudo e o nada. Uma combinação caleidoscópica de imagens captadas ao sabor do momento por uma profusão de vozes gritadas/ciciadas pelos eus e tus do discurso, atualizadas sempre por uma ela/elas singular e plural. Interpretes, todas elas, de um ou outro caso de desobediência, assombro, transformação, resgate, fatalidade, perdição, solidão, abandono. De Inocência perdida e sem culpa. O abismo, a ilha, a cidade, o mar, o calor, o eclipse estão todos reunidos na infância destas meninas-mulheres à espera da companhia dos leitores, ouvintes atentos das histórias de vida que a autora tem para nos contar, com toda a mestria que lhe conhecemos e reconhecemos. Aquela que os artistas põem em tudo aquilo que criam e nos oferecem cada dia. Incondicionalmente.

9 de maio de 2015

O corpo e o rosto da Europa

Heinrich Bünting, Europa Prima Pars Terrae In Forma Virginis (1548)
          Brazão, campos & castelos

          A Europa jaz, posta nos cotovelos:
          De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
          E toldam-lhe românticos cabelos
          Olhos gregos, lembrando.

          O cotovelo esquerdo é recuado;
          O direito é em ângulo disposto.
          Aquele diz Itália onde é pousado;
          Este diz Inglaterra onde, afastado,
          A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

          Fita, com olhar esfíngico e fatal,
          O Ocidente, futuro do passado.

          O rosto com que fita é Portugal.


Fernando Pessoa, Mensagem (1941: I, i, 1)