24 de outubro de 2015

Poema visual a preto e branco...

Avelino Araújo, Apartheid Soneto (1988)


O PODER DO POVO
Clístenes é tido como o pai da democracia helénica, ao estabelecer em 508-507AEC, na capital da Ática, a primeira experiência da história. O regime político então inaugurado estava centrado na capacidade do «povo» (δῆμος - demos) exercer o «poder» (κράτος - kratos). Encalhava, todavia, no facto de só incluir os homens, filhos de pai e mãe atenienses, livres e maiores de 21 anos. Excluídos ficavam os estrangeiros, escravos e mulheres de todas as idades. Numa altura em que a população de Atenas rondava os 200/400 mil habitantes, a cidadania democrática só era reconhecida a uma elite de cerca de 30/60 mil pessoas, i.e., 15%  da população.

O PODER DAS CASTAS
A implementação do  novo sistema de governo tem sido morosa. Passados mais de 2600 anos, ainda é desconhecido em grande parte deste nosso mundo de liberdades condicionadas. Surgiu ultimamente entre nós a ideia de que a democracia é para todos mas só pode ser exercida por alguns. Os iluminados pelas normas rígidas e imutáveis da tradição. Os seguidores de dogmas passados de geração em geração sem mais prova autêntica de veracidade do que a sua observação. A guerra entre filhos e enteadosO destro divino contra o sinistro diabólico. Apartheids políticos que a razão da «cidade» (πόλιςpólis) se encarregará de derrubar.

18 de outubro de 2015

Edgarda Ferri: peregrinações da judia errante em busca da terra prometida

«“Ha Geveret”, così hanno chiamato gli ebrei Dona Gracia Nasi, la Dominatrix, dal momento che aveva costruito a proprie spese, nel quartiere affollato di Balata, una sinagoga che ad un tratto fu chiamata "la Señora".» 
Edgarda Ferri, L'Ebrea Erante. Donna Grazia Nasi dalla Spagna dell'Inquisizione   alla  Terra Promessa   (2000)
Alguém disse algures que a criatividade humana é mais aparente do que real. A ideia até pode ferir os ouvidos mais sensíveis. A verdade nua e crua da afirmação pode ser testada com alguma facilidade. A conversão da natura em cultura tem vindo a ser concretizada por um conjunto de princípios que mantêm sempre algo de comum entre si. Opõem-se sobretudo na capacidade de disfarçar a imitação com um ou outro elemento estranho que dê uma ilusão consistente de novidade. A configuração do nosso mundo envolvente tem vindo a obedecer a um processo contínuo de afirmação/rejeição das normas vigentes nos sucessivos períodos de espaço-tempo que pontuam o devir histórico do homo sapiens. A cíclica luta entre o cosmos previsível do já feito e o caos imprevisível do por fazer é particularmente visível nas dialéticas seguidas pela república das letras. Os modelos biográficos de figuras públicas conhecidas são dos mais expostos a esse pendor diegético de dizer o mesmo com outras palavras. O percurso de vida de Beatriz de Luna Mendes / Grácia (Hannah) Nássi encontra-se nessa situação ingrata de ter sido relatada ao sabor da imaginação dos efabuladores mais ou menos oficiais que lhe deram corpo.

A recente releitura da versão gizada por Catherine Clément, n' A Señora (1992), levou-me a revisitar uma outra mais recente composta por Edgarda Ferri, n’ A Judia. Do Portugal da Inquisição à Terra Prometida (2000). O confronto entre as duas assaltou-me de imediato a ideia. Vou resistir à tentação de fazê-lo, muito embora a vontade me não falte. Limitar-me-ei a destacar que a imaginação poética que define a primeira é substituída pela reportagem prosaica da segunda. A vertente objetiva da jornalista e ensaísta italiana impede-a de rivalizar com a subjetividade da romancista e ensaísta francesa. Escusado será dizer por qual das duas contadoras de fadários alheios a minha preferência recai. Revelação aliás bem pouco pertinente, dado que a vocação primordial dos livros é suscitar tantas leituras quantos os leitores envolvidos. A minha interpretação não é melhor nem pior do que as demais. Gostaria todavia de salientar que a grande dificuldade com que os cultores deste género se deparam depende em grande medida das fontes seguidas. Neste caso concreto, a consulta confessada por ambas em nota final de edição está ancorada nos trabalhos modelares de Sir Cecil Roth, A History of the Marranos (1932) e The House of Nasi (1940). Divergem naturalmente na forma. Outra coisa não seria de esperar em duas obras autónomas e complementares.

A peregrinação traçada por Edgarda Ferri segue de muito perto os caminhos trilhados pela marrana sefardita portuguesa e registados em todas as enciclopédias dignas desse nome. Lisboa, Londres, Antuérpia, Veneza, Ferrara e Istambul, com passagens rápidas por outros pontos intermédios da bacia mediterrânica europeia e asiática. A hipótese de ter falecido na Palestina é ignorada. O real sobrepõe-se sempre ao imaginário neste arrolar de factos acontecidos aceites por todos sem se deixarem estrebuchar por suspeitas pouco consistentes. O rigor enunciativo do discurso produzido esbarra, porém, com a verdade histórica exigida no ato da escrita. Deslizes pouco significativos mas sistemáticos. Tudo começa no subtítulo original dado à naturalidade da heroína. Segundo se julga saber, apesar de ter percorrido meio mundo até chegar à Terra Prometida, nunca terá pisado terras de Espanha. Pormenor a juntar a muitos outros geralmente situados na geografia cultural do Portugal da Inquisição. Como, por exemplo, insistir na antiga capitalidade de Évora, a cidade das muitas colinas e bosques de castanheiros, localizada a curta distância da Batalha. Falhas que podemos atribuir à pesquisa apressada de quem viajou mais pela fantasia delirante de ficcionista aprendiza do que pela mestria científica da investigadora aclamada, dando razão aos créditos aludidos na contracapa do exemplar que tenho entre mãos.

A Ha Gueveret do povo judeu na diáspora, a mecenas de artistas e financeira de reis, atravessa de modo muito tímido as menos de duas centenas de páginas da crónica factual disfarçada de romance. O mesmo se diga do papel meramente decorativo dos restantes elementos da família na tessitura narrativa. Sombras sem vida dum grupo de destinos iluminados pujantes de vida. Quem quiser perscrutar a dimensão psicológica de cada um deles que enverede por outras vias alternativas. Comece pelas palavras inspiradas que Samuel Usque dedicou «À Ilustríssima Senhora Dona Gracia Nasci», prossiga com «Da ordem e razão do livro prólogo aos senhores do desterro de Portugal» e ouça os três Diálogos que compõem a Consolação às tribulações de Israel (1553). Está tudo lá. Basta fazê-lo com toda a atenção que o tema merece e a memória exige.

16 de outubro de 2015

Perversidades, tempestades e delírios

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO (1500)
Hieronymus Bosch
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa] 


LIVROS & TELAS

O Pintor Copiador abriu uma garrafinha de terebentina e começou a limpar as mãos com cuidado. O Bosch tinha uma imaginação perversa, disse, ele atribui essa imaginação ao pobre do Santo Antão, mas a imaginação é do pintor, era ele quem pensava todas essas coisas feias, é evidente, acho que o pobre Santo Antão nunca teria imaginado coisas dessas, o Santo Antão era uma pessoa simples. Mas foi tentado, objetei eu, é o diabo que insinua essas coisas perversas na imaginação dele, Bosch pintou a tempestade que se está a passar na alma do santo, pintou um delírio.
Antonio Tabucchi, Requiem (1991: 78-79)

12 de outubro de 2015

Hélia Correia, história dum adoecer enigmático num cenário pré-rafaelita

«E ela, que detestava o tempo quente e se entusiasmava com as chuvas, começou nesse outono a adoecer. Porém, não era uma doença de inverno, nem a vulgar fraqueza das londrinas. Esse enigma tornava-a interessante e o grupo de Barbara Leigh Smith fechou-se à sua volta, a protegê-la. Elas amavam as mulheres doentes. Tudo o que havia de materno e sororal dentro das suas compleições robustas se lançava naquela direção.»
Hélia Correia, Adoecer (2010)
Já lá vão longos anos guardados na bruma das memórias inscritas num cenário pintado de cinzento, em que uma geração de jovens incomodados com a situação do país cantava, quase em segredo, as poesias de Hélia Correia e doutros poetas iluminados, musicadas por alguns nomes sonantes no meio estudantil de então. Vivia-se intensamente o período áureo da canção de intervenção contra a guerra colonial em curso e das baladas de protesto ao regime totalitário que ameaçava eternizar-se no tempo. Defendia-se uma «Arte Poética» alternativa que fizesse um barco de pinho e deitasse as armas ao mar. Depois dos textos em verso vieram os textos em prosa. Sempre breves, sempre densos. Os manuais escolares etiquetá-los-iam de novelas, forma genérica que se situaria entre o conto e o romance. Questões teóricas de lana-caprina. As histórias lírico-diegéticas esboçam-se com poucas palavras. Por vezes atingem a dimensão épica que exige um pouco mais do fluir verbal. É o que se passa com o Adoecer (2010), a derradeira ficção publicada que em boa hora me chegou às mãos e me fez companhia incondicional estas férias de verão. Regresso ao seu convívio num ambiente outonal para registar as impressões de viagem recolhidas no universo das imagens visitadas com o olhar, numa cumplicidade avocada entre a leitura e a escrita.

A voz que dá vida à narrativa e empresta significados ao discurso enceta uma viagem nostálgica pelos espaços cénicos que viram nascer a Irmandade Pré-Rafaelita. Tudo começa na Inglaterra vitoriana de meados do séc. xix, quando um conjunto de jovens artistas inaugura uma espécie de confraria medieval que se opunha ao modelo clássico inaugurado pela escola florentina de Rafael e imposto pelas academias europeias desde então. Em contrapartida, a nova agremiação desejava atingir a genuinidade estética que dizia existir na viragem da arte gótica para a renascentista. E assim se abriam alguns dos caminhos revivalistas e ecléticos do sentir romântico oitocentista que alastraram por toda a parte e estiveram na origem de muitas das modernidades novecentistas. Os entendidos na matéria registam o movimento como uma antecipação perfeita das ruturas criativas que brotariam no horizonte ismado do naturalismo, realismo, impressionismo, expressionismo, pontilhismo, simbolismo, futurismo, cubismo e de muitas outras correntes plásticas terminadas em ismo.

Esta incursão de Hélia Correia pelos trilhos da biografia ficcionada está ancorada no percurso de vida de Elizabeth Siddal, uma antiga modista lançada no universo da pintura, onde se celebrizou por ter sido retratada pelos fundadores do «Bando Rossetti». Uma figura frágil de mulher no meio viril dos homens. Uma sombra idealizada que um dia resolveu sair da penumbra a que tinha sido votada como modelo e abraçar de motu proprio a república das artes e das letras. Um vulto menor, sem dúvida, mas, mesmo assim, basilar para o desbrochar da emancipação feminista, movimento que não deixou de crescer e afirmar desde aí até aos nossos dias. O relato oferece-nos, ainda, o evoluir dum adoecer imparável, que dá o título à obra e descreve o longo processo de formação pessoal da protagonista. A maturação da pupila, amante e mulher do poeta, ilustrador e pintor inglês de origem italiana Daniel Gabriel Rossetti, culmina com o desaparecimento físico da heroína, já antevisto uma década atrás por Sir John Everett Millais, na Ophelia (c. 1851), um quadro que fez furor na época e pode ser observada hoje em dia na Tate Britain de Londres. A musa ruiva de artistas morre na flor da idade, tal como o idealismo ultrarromântico ditava e a realidade quotidiana teima em imitar.

O império de paixões-compaixões sentidas/consentidas é atravessa-do por uma ou outra pincelada caricatural de Charles Augustus Howell, alegado descendente do Marquês de Pombal. A figura do «portuguee», como era conhecido, é convocado por ter sido o encarregado de abrir o túmulo de Miss Lizzie e exumar um caderno de poemas que o marido ali depositara. Episódio macabro que viria a engrossar a lenda negra do casal. Os Poems by D. G. Rossetti (1870) foram devidamente publicados em livro. Uma página manuscrita está depositada na British Library. Consulte-a quem quiser ou puder. O acesso aos seus segredos parece difícil de satisfazer. Assim se afirma nas linhas finais do relato que acabei de ler, com todo o proveito e deleite que a escrita da autora sempre me brindou e com a qual me fico à espera de novas propostas a explorar.

10 de outubro de 2015

Heróis modernos do Parnaso

Den som inom litteraturen har producerat det utmärktaste i idealisk riktning.

A Academia Sueca acaba de anunciar o Prémio Nobel da Literatura 2015. Os louros da glória couberam este ano à jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch, cujo nome ouvi pela primeira vez e ainda não me atrevi a repeti-lo em voz alta. Provavelmente vou ter poucas oportunidades de o fazer. Trata-se duma figura pouco conhecida entre nós e escapa às áreas da ficção que ocupam as minhas práticas de leitura. Parece-me que o perfil da laureada, assente numa «escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época», estaria mais adequado a um Prémio Pulitzer do que àquele que agora os mass media estão a apregoar à escala global.

Quando frequento alguns dos autores premiados pelos académicos suecos, questiono-me sobre os critérios por si seguidos para erguer aos píncaros da fama uns em detrimento doutros. As estratégias geopolíticas do momento associadas às culturas linguísticas que lhes dão corpo estarão na origem dos resultados obtidos. As estatísticas são fáceis de traçar. Basta consultar os factos coligidos e divulgados pelo The Official Web Site of the Nobel Prize. Fico-me pelas 65 atribuições a obras compostas em inglês (27), francês (14), alemão (13) e espanhol (11), o que corresponde, números redondos, a 58% das 112 candidaturas vencedoras desde 1901.

Os prémios valem o que valem. O instituído por Alfred Nobel não foge à regra. Observando a lista dos novos residentes divinos do Parnaso, admiro-me da minha ignorância olímpica. Desconheço-os a quase todos. A minha biblioteca de livros lidos não coincide, grosso modo, com a dos académicos escandinavos. James Joyce, Marcel Proust e Jorge Luís Borges são apenas alguns dos fundadores da literatura moderna ostracizados pelos iluminados de Estocolmo. Acrescentaria ainda o vulto incontornável de Fernando Pessoa, para demonstrar que a genialidade perene dos criadores se antecipa sempre algumas décadas à efemeridade judicativa dos críticos.  

7 de outubro de 2015

Catherine Clément, as histórias com história da Senhora

«Béatriz était leur Dame. Elle était devenue leur Señora. […] “Ha-Gueveret”, criaient nos frères en hébreu. La Dame. C’est à Salonique qu’on l’appela ainsi pour la première fois.»
Catherine Clément, La Señora (1992)
A escrita foi inventada pelos Sumérios cerca de 5300 anos. A literatura deve ter surgido pouco mais ou menos por essa altura. Desde então até hoje, o homem terá criado qualquer coisa como cem milhões de milhões de originais que a voragem do tempo lá foi fazendo chegar até nós. Cifra prodigiosa que nem o leitor mais aplicado logrará atingir nas suas viagens contínuas pelos livros que contam histórias fingidas ou verdadeiras. Estima-se que nenhum deles consiga ultrapassar uma escassa parcela de 0,01% dessa cifra prodigiosa. Desconheço o modo como os entendidos na matéria chegaram a tais resultados de cálculo probabilístico. Fica-se todavia com a ideia geral da grandeza da criatividade humana e da pequenez que todos nós temos de o entender na sua universalidade.

Há obras que percorremos uma única vez ao longo dos nossos trajetos empenhados pelas letras feitas de palavras portadoras de sentido. A qualidade relativa de cada uma delas é irrelevante para explicar essa singularidade. O desejo de achar outras associações de sons geradoras de prazer estético limita-nos os passos e obriga-nos a saltar de página em página até descobrir o tal poema-ficção da nossa vida. Tarefa inglória, porque todos os dias surgem títulos novos que nem teremos ocasião de conhecer pelo nome. De quando em quando, deixamo-nos de ilusões e nos lembramos dum texto que em tempos nos encheu as medidas e temos vontade de visitar de novo. A Senhora (1992), de Catherine Clément, cabe nesta categoria de livros repescados num passado recente, sem direito, ainda, a serem postos na prateleira dos clássicos imortalizados por gerações sucessivas de ledores. Nunca o saberemos.

O mais conhecido relato da autora francesa de origem judaica está centrado na mais ilustre humanista portuguesa que a centúria de quinhentos produziu. Beatriz de Luna se chamou na pia batismal (1510) e Mendes após o casamento católico (1528). Dona Grácia (Hannah) Nassi se passou a nomear por vontade própria após a fuga à Inquisição de Lisboa (1536) e posterior substituição da qualidade de conversa forçada pela de judia convicta em Ferrara (1550). Ganhou o epíteto de A Senhora em Salónica (1553/4), que manteve pela vida fora até ao ano da morte ocorrida na Terra Santa (1569), onde era tida como uma digna rainha da Palestina. A história desta mulher invulgar é também a história dum mundo em mudança. Aquele que trocou as alegadas trevas medievais pelas proclamadas luzes renascentistas. As que levaram a civilização ocidental aos quatros cantos da terra e deram origem à globalização. Época de grandes transformações culturais nas artes, filosofia e ciências, de grandes convulsões sociais na economia, política e religião. Aquela que opôs papistas e protestantes, expulsou marranos e mouriscos, promoveu a limpeza de sangue, acendeu fogueiras e espalhou o terror e a guerra um pouco por toda a parte. No velho continente, a tolerância e convívio dos três monoteísmos abrâmicos foi sentido de modo diferente nos diversos países que o compunham, com particular complacência no império otomano, local de refúgio final da comunidade sefardita ibérica, tutelada pela viúva do banqueiro Francisco Mendes / Semah Benveniste, a dominadora ou Ha-Gueveret, como também era apelidada.

A crónica das errâncias da protetora do povo hebreu na diáspora, mecenas de artistas e intelectuais no exílio, patrocinadora da Bíblia de Ferrara e das Consolações das tribulações de Israel de Samuel Usque, íntima do médico João Rodrigues de Castel-Branco, mais conhecido por Amato Lusitano, partidária do messias David Rubeni e do rabi Isaac Louria, é-nos transmitida através do ponto de vista do sobrinho e genro João Micas / Dom Josef Nassi, feito cavaleiro pelo imperador Carlos Quinto e Duque de Naxos pelo sultão Selim II. É a esta figura incontornável da primeira modernidade europeia, amigo íntimo de Maximiano II de Áustria e inimigo figadal de Filipe II de Espanha, que Catherine Clément confia o fio condutor de todas as histórias com história de Dona Grácia Nassi, a Senhora, escrita em homenagem de todas as Beatriz da dispersão de Israel. Tributo literário que a judia de Lisboa merecia, graça que todos nós ficamos a dever à judia de França. Assim o afirma no derradeiro parágrafo do romance, assim se identifica com a protagonista da efabulação, assim se evoca o exemplo duma vida que a ortodoxia católica tentou apagar e que a ficção romanesca recuperou e trouxe ao nosso convívio. Que a leitura se faça refaça então e que aproveite.

NOTA 
As movimentações migratórias que atualmente assolam a Europa levaram-me a revisitar alguns testemunhos literários ancorados nessa realidade cíclica da História. As deambulações quinhentistas de Beatriz de Luna / Grácia Nassi, traçadas por Catherine Clément em A Senhora, encontram-se nessa situação de releitura motivada. Deixo aqui as impressões de viagem publicadas há mais de três anos no Pátio de Letras,  com alguns pequeníssimos ajustes de forma, para que as histórias como lembrança e a cultura como companhia se mantenha neste espaço de memórias partilhadas. 

4 de outubro de 2015

O triunfo da velha senhora

Quentin Matsys, Vieille femme grotesque (1513)
[National Gallery de Londres]

A velha senhora grotesca vestiu o traje de gala, arrumou o cabelo na coifa, apertou os atilhos do corpete, retocou as pregas do cen-dal, cobriu o colo e o rosto de carmim vivo, sentou-se no toucador da alcova e perguntou à imagem projetada à sua frente: «Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém  mais bela do que eu?»

O interpelado fitou-a cara a cara e respondeu: «Não vos inquieteis, se-nhora minha! No mundo até pode haver, mas aqui neste reino do Faz-de-Conta a vossa beleza peregrina conta. O Ali-babá rendeu-se ao Abre-te Sésamo dos 40 ladrões. Os choramigas já partiram no tapete-voador à procura do génio da lâmpada noutras paragens...»

E continuou por ali fora com o blá-blá-blá de banha-da-cobra usual. Não se coibiu de dizer que depois da abalada geral só tinham ficado os zombies desejosos de ficar adormecidos por mais 100 anos de tranquila inércia e apetite acrescido de sofrer, agora que os muros-da-vergonha se voltaram a erguer no velho mundo.

A velha senhora grotesca olhou para espelho mágico e disse para os seus botões: «Felizmente que os contos da carochinha mudaram de figurino e as bruxas-más do passado viraram nas fadas-boas do presente». E preparou-se para imperar sobre os submissos sem-memória compulsivos. Infalível, majestosa, triunfante.