27 de fevereiro de 2017

Vem ao baile, vem ao baile...

Fernando Botero  -  Pareja bailando  (1987)

[Museo Botero del Banco de la República - Bogota - Colômbia]

UM CARNAVAL


Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile

E vais ver o que é bailar.

Alexandre O´Neill

20 de fevereiro de 2017

El rey planeta y el valido girasol

ALEGORIA

 FELIPE IV, EL REY PLANETA 

«El cuarto planeta que era el sol resultaba un emblema de lo más apropiado para el rey Felipe, cuarto de este nombre, y el concepto de “rey planeta” probablemente ya acuñado hacia 1623. Felipe tenía que aparecer ante el mundo como rey planeta, y lo mismo debía suponer para la posteridad, un personaje central en una corte deslumbrante, que dispensaba luz y favores. Illuminat y fovet, ilumina y calienta, tale era la divisa de Felipe que se hacía correr entre el público en general. Olivares, por su parte, elegiría como emblema el girasol, que se inclina hacia donde luce el sol.»
J. H. Elliot, El conde-duque de Olivares, 1986

MEGALOMANIAS  ASTRAIS...

Felipe IV de todas as Espanhas e algo mais nas Américas, Euro-pas, Áfricas e Ásias considerava-se um monarca global. Não foi o primeiro nem o último a sofrer de tais megalomanias. Tal como fize-ra o avô Felipe II, arrogava-se o direito de dizer que no seu império o Sol nunca se punha. Por essa razão, achou por bem autocogno-minar-se El Rey Planeta.

O epíteto de Su Majestad Católica caiu no goto de Sa Majesté Très Chrétienne que rapidamente se passou a representar e a designar como Louis XIV,  Le Roi Soleil. Por alguma razão era filho duma es-panhola e estava casado com outra. A casa francesa dos Bourbon não podia em caso algum brilhar menos do que a casa castelhana dos Habsburger. Noblesse oblige.

Entre nós, o rei dos astros nunca ultrapassou a órbita de Mercúrio, o deus da comunicação, do comércio e dos ladrões. Talvez por isso, Filipe III tenha passado de o Grande a o Opressor e sido despojado dos reinos e senhorios da Coroa Portuguesa que não lhe pertence-riam de direito, de nada valendo ao rei planeta e pai do rei ocaso a subserviência inútil do valido girassol.

13 de fevereiro de 2017

Roberto Bolaño, o terceiro reich e os demais jogos de guerra

«– Ese tablero, como puedes apreciar, es el mapa de Europa. Es un juego. También es un desafío. Y es parte de mi trabajo.»
Roberto Bolaño, El Tercer Reich (2010)
Lidos os livros de que gostamos, só nos resta voltar a abri-los mais uma vez para uma nova visita ou fechá-los por uns tempos e encetar um longo diálogo silencioso com as ideias que despertaram em nós. Se a conversa for frutuosa e a quisermos preservar para uma memória futura, podemos sempre confiar excertos dessa amena cavaqueira a uma folha de papel. Para ser mais preciso neste admirável mundo novo de virtualidades digitais, transformar as palavras escritas com tinta em impulsos elétricos de uma página word com carateres escolhidos de acordo com a inspiração do instante e o assunto tratado.

Roberto Bolaño tem essa rara aptidão de cativar o leitor, de o desafiar a trocar confidências com as personagens dos universos por si inventados, à sombra de casos de vida real com que se cruza todos os dias sem lhe prestar uma atenção especial, tão banais lhe parecem. Pessoalmente, já havia saboreado essa sensação com o 2666 (2004), o último romance de romances ou novelas que nos ofertou já a título póstumo e lhe abonou o passaporte para um muito justo reconhecimento internacional. O mesmo efeito de captura total voltou a ocorrer com O Terceiro Reich (2010), também ele deixado inédito, apesar de ter sido arquitetado por volta de 1989, no início da sua fulgurante carreira de artesão de relatos em prosa. Ignoramos as razões que o terão levado a deixá-lo esquecido, talvez incompleto ou abandonado, no meio de outros manuscritos em boa hora descobertos, que os fiéis depositários literários têm vindo a converter em letra de forma e a confiar ao convívio de todos nós. A partilha tem sido preciosa.

O argumento é fácil de traçar. Centra-se numas breves férias de verão que um jovem casal de alemães, na casa dos 25 anos, goza na Costa Brava espanhola. As peripécias que marcaram a estada no hotel Del Mar, os encontros e desencontros com turistas e nativos, as aventu-ras e desventuras experienciadas por todos, as conhecidas e as ima-ginadas, estão meticulosamente registadas no diário do protagonista, que constitui, em suma, o romance que temos entre mãos. Como relato de primeira pessoa que é, a sua descoberta proporciona o mistério, a dúvida, a hesitação. Um cheirinho policial a estimular o enredo. A subjetividade de informação impera. O ponto de vista do narrador a alternar aqui e ali com fragmentos de discursos proferidos em direto pelos restantes intervenientes da intriga. As certezas de uns a colidirem com as incertezas de outros. A fronteira entre amigos e inimigos muito difícil de traçar. Sobretudo quando se sentam em lugares opostos duma mesa de jogo, com um tabuleiro hexagonal e muitas fichas de permeio, quando se transmudam em estrategas rivais dum wargame que dá pelo nome provocador de Terceiro Reich, quando se convencem que o destino dos homens pode ser vivido duas vezes e de forma diferente. Os combates travados por ambas as partes pela vitória chegam a assumir o contorno duma luta de vida e morte. A imagem dos dois jogadores de xadrez filmados por Ingmar Bergman n’O sétimo selo a pairar insistentemente no meu imaginário particular, mas com um desfecho menos dramático. No final da contenda, o derrotado não é incorporado na procissão de flagelados como o cruzado medieval. Limita-se a regressar à Alemanha natal duas vezes vencida pelas forças aliadas, no palco real da II Guerra Mundial e no cenário fingido dum jogo de guerra social. O bélico e o lúdico lado a lado a comentarem as efemérides dum passado recente.

Mais do que uma incursão de nos meandros do defunto império germânico dos mil anos anunciados, duma apologia ou anátema aos princípios que nortearam a sua criação, abrigo e queda, este texto quase inaugural de Roberto Bolaño convida-nos a pisar as tábuas do teatro europeu contemporâneo e a rever os dramas que nele se representaram em meados do Séc. XX. Alerta-nos para a impossibilidade de reescrever a nosso belo prazer a História, de não estar ao alcance de nós a faculdade de comutar os desastres em triunfos ou de disfarçar os erros em sucessos. Afirma-nos que o destino das nações não se joga aos dados nem ao sabor dos caprichos da sorte e do azar, que os logros e malogros dos heróis e anti-heróis da gesta dum povo não podem ser refeitos por nenhuma vontade humana ou divina. Pensar o contrário é como se fôssemos fantasmas dum estado-maior fantasma a exercitar-se continuamente sobre tabuleiros de wargames, como se fôssemos sombras sobre sombras, oficiais de faz de conta a zombar da legalidade dos factos feitos por homens de carne e osso. Esta a realidade nua e crua imposta à imaginação, mesmo quando posta ao serviço dos labirintos insondáveis da literatura.

NOTA
Os jogos de guerra andam por aí. Estão na moda. Imagina-se um determinado conflito mundial resolvido pela lei do mais forte e reequacionam-se novas estratégias, como alterar arbitrariamente a listagem dos vencedores e vencidos. Roberto Bolaño fê-lo muito à sua maneira n'O Terceiro Reich, texto que comentei há precisamente seis anos no Pátio de Letras. Lembrei-me de o trazer para aqui para uma releitura feita à luz do contexto bélico de palavras que agora se vão vivendo... 

6 de fevereiro de 2017

O rodízio do Africano

RODÍZIO DE D. AFONSO V

Tapeçarias de Pastrana - Cerco de Arzila (séc. xv)
[Colegiada de Pastrana - Espanha]

As mensagens subliminares, guardadas no corpo e na alma das divi-sas reais, dão histórias fabulosas, quando nos pomos a decifrar os segredos seculares que as envolvem. A empresa de D. Afonso V (1432-1481) enquadra-se nesta categoria. Um rodízio a derramar go-tas, acompanhado dos dizeres VII e e o lema Jamais. Mistérios das cabeças coroadas.

Ao que parece, tudo se resume a uma jura de amor que o monarca terá feito ao enviuvar de D. Isabel de Coimbra (1432-1455). Tinham ambos 23 anos e estavam profundamente apaixonados. Jamais vol-tarei a amar. Terá dito ou pensado. Vá-se lá saber. A verdade é que se viria a casar com Joana de Castela em 1474. Contradições que a alta política dita.

As gotas vertidas seriam lágrimas de saudade ou de contrição. Tanto faz. O E associado a rodízio permitiria a leitura de duas palavras: Erro dízio. Mais uma promessa solene a que o Africano se obrigava. Revelar sempre em confissão todos os VII pecados capitais que cometesse. Explicações engenhosas para um enigma que a história consagrou.
   

2 de fevereiro de 2017

Fadário & Alvedrío

Michelangelo Buonarroti - Creazione di Adamo (circa 1511)

[Cappella Sistina, Musei Vaticani, Città del Vaticano]
Entre Thánatos & Kéres
O homem está condenado desde o início dos tempos a nascer, viver e morrer. Até ao final dos tempos continuará a ser assim. Ninguém é imortal, nem sequer os deuses e os heróis. Estes necessitam de ser lembrados pelos mortais para existirem com caráter indefinido. Caso contrário, desapareceriam do nosso horizonte de referências. Afinal, dizer que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus acaba por ser uma forma encapotada de dizer que os deuses foram feitos à imagem e semelhança dos homens. Não daquilo que de facto são mas sim daquilo que gostariam de ser.

O homem está condenado a ser livre. Defende o existencialismo ma-terialista de Jean-Paul Sartre. Livre, porque depois de ter nascido passa a ser responsável por tudo o que fizer em vida. Até de deter-minar o momento da morte. O fadário iniciado com um ato em que não foi perdido nem achado pode ser corrigido com o alvedrío que a razão lhe ditar. Ninguém nos perguntou se queríamos dar entrada neste mundo do ser mas também ninguém nos pode impedir de antecipar a nossa partida para os domínios do nada. Preferir o toque suave de Thánatos ao trespasse violento das Kéres.

30 de janeiro de 2017

Italo Calvino: os diálogos de Marco Polo e Kublai Kan sobre as cidades invisíveis

«Non è detto che Kublai Kan creda a tutto quel che dice Marco Polo quando gli descrive le città visitate nelle sue ambascerie, ma certo l’imperatore dei tartari continua ad ascoltare il giovane veneziano con piú curiosità e attenzione che ogni altro suo messo o esploratore.» 
Italo Calvino, Le città invisibili (1972)
As suspeitas de que Marco Polo nunca terá estado na China vêm de longe. Datam das primitivas versões do Il Milione, relato de viagens que o mercador veneziano ditou a Rustichello da Pisa, entre 1296 e 1298, quando partilhavam o mesmo cárcere de Génova. O manuscrito do escritor italiano de língua francesa foi dado a conhecer ao mundo com o título de Le livre de Marco Polo, também designado por Devisement du monde ou Livre des merveilles. Baseiam-se essas dúvidas no facto da descrição dos países submetidos ao poder mongol, palmilhado pelo aventureiro medieval europeu ao longo de 24 anos, ter omitido a referência ao hábito de tomar chá ou de dobrar os pés das mulheres para torná-los mais pequenos, à caligrafia, à imprensa e aos livros, para além de ignorar Grande Muralha, começada a construir por Qin Shi Huang Di em 221 AEC e finalizada no século XV pela dinastia Ming. Lapsos inexplicáveis que os especialistas têm vindo a apontar ao longo dos tempos. Distraídas deveriam andar as Publicações Europa-América, quando reproduziram uma foto do mais conhecido monumento do chamado Império do Meio na capa da edição de bolso da tradução portuguesa. Atrevo-me a avançar que essas lacunas estariam salvaguardadas na declaração registada no corpo do texto: Há outras coisas que não vos conto*. E mais não digo para não correr o risco mais que certo de errar, que a minha ciência sobre o assunto é declaradamente escassa.

Entrei em contacto com o testemunho do viajante ocidental nas paragens orientais através duma das obras de divulgação cultural preparada para um público juvenil por Adolfo Simões Müller, que dava pelo nome apelativo de O mercador da aventura: a vida de Marco Polo e o seu livro (1966). Fi-lo através dum exemplar pertencente ou à biblioteca de turma do secundário ou à itinerante da Gulbenkian. A leitura do texto original ocorreu muito depois, numa altura em que trabalhos académicos então em curso sobre as dimensões do maravilhoso e das suas fronteiras escorregadias com o estranho me mandavam pesquisar as alusões ali documentadas sobre o papel-moeda e a porcelana, as histórias dos três Magos, do Velho da Montanha e do Prestes João das Índias, as palhinhas de ouro do rio Azul e, sobretudo, as pedras que ardem (carvão) e à água que se queima (petróleo), então desconhecidas no mundo cristão. Uma descoberta fascinante que me convidou a confrontar outras relações de viagens tidas como fraudulentas pelos seus contemporâneos, com um destaque especial às alegadas mentiras registadas por Fernão Mendes Pinto – o Fernão, mentes? Minto! das anedotas da época – na Peregrinação, publicado em 1614, três décadas após a morte do autor.

Chegou-me agora às mãos um romance já clássico de Italo Calvino, As cidades invísiveis (1972), onde o grande mestre das letras italianas lança para trás das costas as celeumas seculares contidas no roteiro de viagem ducentista e lhes dá uma dimensão simbólica mais compaginável com as visões vigentes nos nossos dias, exercício literário feito de reflexões, experiencias e conjeturas só exequível através da criatividade prodigiosa dum grande inventor de fábulas. Retoma o livro das maravilhas e idealiza uma série de relatos de viagem que Marco Polo apresenta de viva voz a Kublai Khan, com quem dialoga e troca impressões sobre as caraterísticas de cada uma das cinquenta e cinco cidades visitadas e descritas minuciosamente. Agrupa-as em cinco categorias, distribuídas por nove capítulos ou etapas de percurso. Dá-lhes o nome de mulheres. Associa-as à memória, ao desejo, aos sinais, às trocas, aos olhos, ao nome, aos mortos e ao céu. Considera-as subtis, contínuas e ocultas. Todas elas invisíveis a olho nu porque só podem ser vistas com os olhos da imaginação. A verdade que podia ser mentira transforma-se em mentira que poderá ser verdade. Nada impede que a estrutura utópica, edílica, onírica, insólita, impossível de que são feitas se transforme numa realidade vindoura possível.

A era do imperador mongol desloca-se livremente no fluxo cronotópico e estabelece a ligação entre as urbes exóticas do antes e as do porvir, com a modernidade da escrita de permeio. Muito se poderia dizer sobre a filosofia esplanada nos fragmentos dialógicos que alternam com os expositivos. Referir a solidão, angústias e inquietações do Grande Khan, a certeza que tinha da fragilidade do seu poder efémero sobre os seus inúmeros súbditos espalhados por todos os vastos domínios espalhados por grande parte do continente eurasiático, constituindo a maior extensão em território contíguo da História. O melhor será mesmo mergulhar nas palavras compostas em primeiríssima mão pelo seu criador para depois as colocar na boca dos interlocutores que lhe dão vida. É o mínimo que se pode fazer depois de lidos os livros aqui evocados ao correr da pena, imagem poética para referir o matraquear ruidoso do processador de texto.

NOTA
(*). As viagens de Marco Polo (Lisboa: Europa-América, s/d, xv: 25)

 

25 de janeiro de 2017

O hortelão real de Versalhes

Aucline Quiec avec privilège du roi - Vue et perspective du Jardin potager de Versailles

Jean-Baptiste de la Quintinie et le jardin potager du Roi-Soleil


« Le jardinier avait suivi les plans du Roi à la lettre : le jardin serait composé d'un espace central en creux constitué de seize carreaux encadrant une large pièce d’eau circulaire, auxquels seraient ad-joints, à l'entour, une trentaine de petits jardins rectangulaires sépa-rés les uns des autres par de hauts murs de refend. “ Dans cet es-pace parfaitement réparti et protégé du vent, écrivit-il à Neuville, je serai en mesure de cultiver ce que bon me semblera. Je taillerai, modèlerait mes arbres. Les fruitiers, exposés régulièrement et de toutes parts à la chaleur du ciel, donneront, j’en suis convaincu, le meilleur d’eux-mêmes. C’est merveille, pour moi, de contribuer à construire et à embellir ce monde  ” 
é
“ Pourquoi, demanda Neuville, avoir cerclé votre terre de remparts, séparé vos petits jardins par des murs infranchissables ? J'observe les plans que vous m'avez adressés, et je ne vois que cloisons, sé-parations rigoureuses, allées rectilignes. Pardonnez ma franchise, cher ami, mais je ne parviens pas à comprendre la présence de ces murailles qui ferment le monde au lieu de l’agrandir. Pourquoi vous couper ainsi de l'univers, quand aujourd'hui tout nous appelle au-dehors, quand le monde s'agrandit sous nos pas et que nos yeux touchent aux étoiles lointaines ? ”

“ Votre franchise me touche, lui répondit le jardinier. Ces murs dont vous déplorez l'existence, je les ai voulus comme des tuteurs pour mes fruitiers. J'ai surtout voulu ces espaces enclos comme des abris. Vous ne devinerez jamais combien il m'est agréable de trouver refuge au creux d'une parcelle isolée, à toute heure du jour ou de la nuit, bien loin de tout. Et là, la tête penchée sur chacun de ces territoires cachés, le monde s'anime librement : l'herbe pousse la fleur qui la gêne, la limace escalade avec précaution une feuille de laitue, la sauterelle bondit prodigieusement d'une herbe à une autre, la fourmi transporte avec elle une graine plus grosse qu'elle. Et moi, moi je n'existe plus au cœur de ces petits univers qui me sont, chacun, bien plus grands que vos galaxies tout entières. Quand viendrez-vous ici où tout vous attend, où je vous attends ? ”»