22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

16 de janeiro de 2026

O rosto exótico de judeu errante, pastor grego e cabelos ao vento de Moustaki

Georges Moustaki, Le Métèque (1969)

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents Avec mes yeux tout délavés qui me donnent l'air de rêver, moi qui ne rêve plus souvent. Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur qui ont pillé tant de jardins. Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu sans jamais assouvir sa faim.

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec de voleur et de vagabond. Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés et tout ce qui portait jupon. Avec mon cœur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert sans pour cela faire d'histoires. Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut pour éviter le purgatoire.

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents. Je viendrai ma douce captive, mon âme sœur, ma source vive, je viendrai boire à tes 20 ans. Et je serai prince de sang, rêveur ou bien adolescent comme il te plaira de choisir.

Et nous ferons de chaque jour toute une éternité d'amour que nous vivrons à en mourir.

Em algum momento da sua chegada a Paris, em 1951, Giuseppe Mustacchi, Yussef Mustacchi, Ζωρζ Μουστακ ou Georges Moustaki (Alexandria, 1933 - Nice, 2013) terá sido apelidado de «meteco», nome dado em Atenas aos estrangeiros residentes na cidade e por extensão xenófoba aos imigrantes instalados em França. As suas origens judaico-italo-gregas, nado num país árabe, terão contribuído para esse epíteto que inspiraria uma canção evocativa do termo em 1969, tornando-o num dos compositores-autores-intérpretes de maior sucesso da sua geração.

Dizem que escrever um bestseller é fácil, o difícil é escrever vários. Duvido que assim seja, mas, se assim fosse, também seria possível expandir esta máxima para outras artes criativas, como a música. Quem compuser um sucesso discográfico dificilmente comporá um segundo. De qualquer modo, em nenhum dos casos se poderá garantir que a quantidade de livros ou discos vendidos ande de mão dadas com a qualidade de cada um deles por si só. As obras-primas não se fazem a metro nem se tropeça com nenhuma delas ao virar da esquina.

O primeiro grande sucesso de Georges Moustaki tem a duração de 2.29min, tempo mais do que suficiente para compor e interpretar uma autodescrição em três estrofes e um refrão, cantada e musicada, a que deu o título sugestivo de Le métèque (1969). Seguiram-se-lhe muitos outros hits discográficos nos diversos cantos da aldeia global, mas este manteve-se sempre o seu verdadeiro cartão de visita, aquele que muito provavelmente abrira caminho para se naturalizar francês em 1985, aquele que há muito obtivera o estatuto de cidadão do mundo.

Meio século e picos após os primeiros acordes versificados, ainda nos apetece trautear, cantarolar, assobiar e ouvir à exaustão a voz melodiosa daquele judeu errante e pastor grego, de rosto exótico, olhos desbotados e cabelo ao vento. E assumir depois como nossas aquelas mãos de saqueador, músico e vagabundo, senhores duma pele que roçou o sol de todos os verões e sermos também nós outros tantos príncipes de sangue, sonhadores e adolescentes, para fazer de cada dia uma eternidade de amor e assim vivermos na máxima plenitude.

10 de janeiro de 2026

Thomas Mann e a relação decadente de vida, amor e morte na montanha mágica

Die Geschichte Hans Castorps, die wir erzählen wollen,  nicht um seinetwillen (denn der Leser wird einen einfachen, wenn auch ansprechenden jungen Menschen in ihm kennenlernen), sondern um der Geschichte willen, die uns in hohem Grade erzählenswert scheint (wobei zu. Hans Castorps Gunsten denn doch erinnert werden sollte, daß es seine Geschichte ist, und daß nicht jedem jede Geschichte passiert): diese Geschichte ist sehr lange her, sie ist sozusagen schon ganz mit historischem Edelrost überzogen und unbedingt in der Zeitform der tiefsten Vergangenheit vorzutragen.

Não nenhum romance que se preze, de maior ou menor extensão, sem a presença obrigatória duma entidade encarregada de contar a história aos seus potenciais destinatários internos e externos. Thomas Mann escolheu para A montanha mágica (1924) a voz anónima dum narrador conhecedor como ninguém mais dos factos alegadamente ocorridos no mundo de faz-de-conta contido na ficção. Escolhe como figura central do relato Hans Castorp, um jovem estudante alemão de engenharia naval oriundo de Hamburgo, e situa a ação no Sanatório Internacional de Berghof, situado em Dalvos nos Alpes suíços, num contexto cosmopolita anterior à Primeira Guerra Mundial. Fá-lo numa primeira pessoa do plural, como se estivesse a conversar com os leitores-ouvintes, apesar de não participar implícita ou explicitamente nos eventos narrados. Revela uma omnisciência absoluta no que se refere ao protagonista desde as linhas iniciais da Proposição, usando um registo mais comedido com os restantes intervenientes, a quem reserva uma focalização tendencialmente externa.

O tratamento privilegiado concedido ao principal ator do drama em cena pode explicar-se através duma possível projeção da experiência de vida do autor da peça, que em tempos frequentara uma estância isolada de repouso similar à convocada pela fábula. É através desse testemunho de cariz pessoal que o emissor diegético penetra nos pensamentos mais íntimos da personagem nuclear agregadora de todas as demais. A feição algo autobiográfica do romancista torna-se, assim, numa mera biografia do herói por si escolhido para dar corpo à obra, a demonstrar duma forma subtil a interligação possível entre os factos vividos por seres reais de carne, osso e sangue nas veias os feitos atribuídos a entidades de papel e tinta desenhadas pela mente criadora dos heróis da imaginação.

Composto e publicado antes da descoberta acidental da penicilina por Alexandre Fleming em 1928, a miríade de infeções bacterianas era tratada à data com os meios rudimentares que a medicina então dispunha. O uso em larga escala dos antibióticos modernos estava, por conseguinte, afastada dos casas de repouso versadas nessas enfermidades, com grande destaque para a tuberculose pulmonar. O sanatório alpino trazido ao universo romanesco pelo mestre das letras germânicas não foge a essa regra, associado à ideia vigente ainda hoje de se situar num alta montanha, onde a cura se atingiria com a ajuda mágica do ar puro ali presente, muito mais raro de encontrar numa zona baixa da planície.as zonas. O contraste entre o mundo do cá em cima e do lá em baixo é constante em toda a obra, numa perfeita dicotomia espacial traçada em torno da saúde, a almejada a recuperar e a perdida a salvaguardar.

Como resulta pouco prático reduzir a poucas linhas as oito centenas e meia de páginas de prefácio, texto, anexo e notas, sem deixar um ou outro pormenor de fora, limitemo-nos a dizer que o herói ficcionado chegou ao centro helvético de cura sanitária para visitar um primo ali internado. As três semanas inicialmente previstas prolongaram-se por dias, semanas, meses e anos difíceis de precisar, mas no termo do relato limitadas a sete, compreendidos entre os verões de 1907 e 1914. Chegou aparentemente são, viu-se apanhado pelas teias da tísica , assistiu a sucessivas chegadas/partidas/regressos de novos e velhos pacientes, testemunhou à luta sem quartel entre a vida e a morte, experimentou os efeitos dum curto caso de amor platónico, presenciou um duelo travado entre dois dos seus companheiros de infortúnio, pronúncio simbólico do fim dum microcosmos europeu e do início dum outro diametralmente diferente, aquele que o conduz, sem desvios, aos campos de batalha do grande conflito europeu espalhado à escala global.

Dizem os especialistas de Thomas Mann ser esta sua obra maior um Zeitroman, um «romance do tempo», observado de modo distinto, consoante o espaço onde a história nos conduz. Na planície, a vida decorre placidamente com a dinâmica diversificada que o dia a dia lhe confere; na montanha, a morte espreita a cada instante com a estaticidade repetitiva que os ciclos anuais lhe imprimem. Depois, do dia para a noite, ouve-se o ribombar do trovão, a virar tudo, num ápice, de pernas para o ar. O deflagrar da Grande Guerra esvazia o sanatório dum país neutral e enche os campos de batalha dos países beligerantes, mais sangrentos do que alguma vez haviam sido. É neste cenário apocalíptico que vamos encontrar Hans Castorp, para quem o período formativo próprio dum Bildungsroman, ou «romance de aprendizagem», como também é considerado por alguns. A sua ânsia de conhecimento chegara abruptamente a um beco sem saída. O próprio narrador que até aí tu do sabia desinteressa-se de revelar qual terá sido o seu destino, dando por terminado o relato poucos parágrafos depois. Finis operis. Regista transformado em autor real da fabulação, como se, num contexto eucarístico não explicitado no diálogo travado com os leitores, dissesse: Ite, missa est!

EPÍGRAFE
«A história de Hans Castorp, que vamos contar —  não por sua causa (pois o leitor vai deparar nele com um jovem simples, embora cativante), mas por causa da história, que nos parece em alto grau de ser contada (embora, deva lembrar-se, para fazer jus a Hans Castorp, que se trata da sua história, e que não é a qualquer um que acontece qualquer história): esta história aconteceu há muito tempo, está, por assim dizer, já toda coberta por uma pátina histórica e tem absolutamente de ser contada na forma temporal do passado mais remoto.»
Thomas Mann, A montanha mágica (1924)

4 de janeiro de 2026

Cíclicas

GLOBE TERRESTRE
Andreas Cellarius, Atlas cœlestis seu Harmonia Macrocosmica, 1708

Ano velho, ano novo e de meia idade...

Não há Ano Velho sem Ano Novo, nem ano de meia idade entre um e outro. Tudo começa no primeiro dia do ano e no segundo ninguém se lembra do que que disse na véspera, muito menos no terceiro e em todos aqueles que se lhe seguirem. Os dias, as semanas e os meses revezam-se uns aos outros sem pausas, iguais/diferentes a todos os demais que os precederam e sucederão. Ilusões de quem concentra num só ponto todos os pontos dum círculo, roda ou espiral cíclicos.

Este ano como nos já idos e por vir, o Carnaval será à terça, a Páscoa ao Domingo e o Natal em dezembro ou quando um homem quiser. Depois, não há dia de Ano Bom sem a difusão do concerto de Ano Novo executado pela Filarmónica de Viena de Áustria, nem a bênção papal urbi et orbi difundida da Basílica de São Pedro em Roma. Também se comerá uma fatia de bolo-rei/rainha no Dia de Reis, apesar de vivermos numa república há muito tempo assente.

Diz a sabedoria popular não haver sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça. Sem sol, se não houver nuvens e não chover; com missa, se houver fiéis e alguém para a celebrar; com/sem preguiça, se houver trabalho e a insónia não reinar. Nascem e morrem pessoas todos os dias do ano, seja ele novo, velho ou de meia idade. É que o sol quando nasce/põe é para todos em qualquer altura do ano. Comum, como o atual, que nem sequer é bissexto.