17 de setembro de 2026

Haruki Murakami, os acordes distantes da Norwegian Wood dos Beatles

「記憶を辿りながら⽂章を書いていると、僕はときどきひどく不安な気持ちになってしまう。ひ ょっとして⾃分はいちばん肝⼼な部分の記憶を失ってしまっているんじゃないかとふと思う からだ。僕の体の中に記憶の辺⼟リンボ とでも呼ぶべき暗い場所があ って、⼤事な記憶は全部そこに つもってやわらかい泥と化してしまっているのではあるまいか、と。」
春樹 村上,『ノルウェイの森』(1987)

Costumo guardar para os meses de verão a leitura dos livros de tamanho grande académico ou de padrão médio retangular com um número razoável de páginas. Os dias mais longos, a serenidade dos espaços escolhidos e a tranquilidade do tempo de férias propiciam e justificam esta prática sazonal. Os bestsellers romanescos de Haruki Murakami encaixam cabalmente nesta categoria seletiva. A última incursão no seu universo criativo recaiu desta feita no Norwegian Wood (1987), publicado pela Casa das Letras em formato volumoso, repartido por onze capítulos de histórias contadas à boa maneira do grande criador nipónico de heróis da imaginação e uma ressonância musical forte inspirada nos Beatles.

Viajei pela sua tessitura narrativa numa assentada, o que me levou a enveredar por uma leitura inédita de partida dupla. Na tirada inicial, deixei-me embalar pela toada ritmada das palavras traçadas numa prosa poética modelar, sem pausas, anotações ou hesitações de percursoDepois, visitei passo a passo todos os dados extratextuais preciosos com que a tradutora me brindou a mim e a todos os leitores do romance. Numa dessas NdT, dá conta do plano do autor sobre a estrutura geral da obra, registado por Jay Rubin no Haruki Murakami and the Music of Words (2002), numa síntese perfeita do resultado obtido. Tinha ideado a criação de cinco personagens, entre as quais duas mulheres destinadas a morrer. Ignorava qual delas pereceria no final do relato, mas sabia que o protagonista-narrador se apaixonaria intensamente por ambas. A oposição existente entre uma e outra atuaria para alimentar uma atração tão fora dos cânones tidos como usuais tanto na vida real como na fingida, capaz de alimentar a longa confissão do jovem efabulador da primeira à derradeira confidência.

As histórias de vida de Toru, Naoko e Midori, contadas pelo primeiro, ocorrem no curto período de tempo situado entre as primaveras de 1968 e 1970, com ação repartida pela cidade de Tóquio e montanhas de Quioto, quando os intervenientes rondavam os vinte anos de idade. Desenvolve-se como uma ampla retrospetiva pessoal efetuada em 1987, a dezoito anos de distância da formação do triângulo amoroso que corpo à efabulação. Caso raro, mas a todos os títulos possível no mundo real em que vivemos, muito embora se revele algo invulgar, singular ou incrível, causando uma certa reação de estranheza. Ao invés do verificado pontualmente no corpus literário anterior e se imporá depois no seguinte, o maravilhoso está totalmente ausente da trama efabulativa, não tolerando sequer a dubiez explicativa, ainda que ténue, sobre a sua sujeição integral às leis da natura. Os atores do drama centram a sua atenção no universo da música, do cinema, do teatro, da pintura, dos livros e das leituras, nas referências culturais ocidentais então vigentes e num ou noutro registo da realidade nipónica local a matizar a global de sentido anglo-saxónico.

As memórias nostálgicas do jovem estudante universitário de letras faz-se, também, através das fartas alusões a textos modelares, com especial enfoque no romance atual e na tragédia ática. O recurso a estratégias afins explanadas em três dessas obras, unem-no, v.gr., ao À espera do centeio, de J. D. Salinger, baseado, ademais, numa canção então em voga, a provar a aptidão que certos livros têm de evocar outros livros. Os amores triangulares com final pautado pela morte e suicídio presentes n'O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, são movidos da West Egg e East Egg da Long Island americana para as ilhas asiáticas do país do sol nascente. Depois todo o ambiente marcado pela solidão, silêncio e sossego d'A montanha mágica, de Thomas Mann, com a serenidade idílica oferecida pelo Sanatório Internacional de Berghof suíço a servir de modelo à Residência Ami japonesa. O apelo solidário das diegeses citadas é completado pelas repetidas idas ao palco da trindade ateniense helénica da tragédia antiga, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, com um destaque especial para este último, sem a indicação específica de nenhuma peça.

Lidas e relidas as histórias contadas no livro, fiquei com a vontade de ler uma compilação de histórias independentes reunidas num livro de contos. Vou investigar se algum disponível nas raras livrarias que ainda mantêm as portas abertas perto de mim. Descobri que existem alguns publicados recentemente entre nós, no nosso idioma e em legítimos carateres latinos. É que para um leigo como eu, resultam muito mais fáceis de seguir do que a imensidade de ideogramas e silabários japónicos nos facultam. Por muito que o tente decifrar, recorrendo ou não à tradução automática fornecida pela IA, ficará sempre na mais viva ignorância. Neste caso específico, deitamos de lado o velho aforismo italiano do traduttore, traditore, que a pura traição em literatura é ter um livro entre mãos e não fruir o proveito e deleite da sua leitura.

EPÍGRAFE
«De vez em quando, ao pôr no papel os meus pensamentos, sinto-me invadido por uma angústia terrível. Terei deixado escapar as coisas mais importantes? E se as lembranças fundamentais se tiverem acumulado num lugar obscuro do meu corpo, numa espécie de limbo da memória, formando uma massa tão inconsistente como o lodo? Assaltam-me dúvidas.»
Haruki Murakandi, Norwegian Wood (1987)

2 comentários:

  1. Li pouco de Murakami e na sua expressão do realismo fantástico, desconhecendo os romances que o celebrizaram. Obrigada pela partilha deste texto, Prof., que bem salienta a genialidade do escritor!

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    1. A escrita de Haruki Murakami é viciante, quer se trate da sua incursão nos universos do natural como do sobrenatural. Acho-o exímio em todas as variantes do insólito: o estranho, o fantástico, o maravilhoso. Deixo-me cativar, sobretudo, pela capacidade inata pela arte poética de lidar com as palavras. Vou continuar a lê-lo ou a relê-lo com o proveito e o deleite habituais.

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