19 de outubro de 2026

Rebanhos Sagrados de Hiperião

 

UTRECHT PAPIRY
[Gr. Ms. B6. 39 - sécs. III /IV EC]
 
«Ζεῦ πάτερ ἠδ᾽ ἄλλοι μάκαρες θεοὶ αἰὲν ἐόντες,  
τῖσαι δὴ ἑτάρους Λαερτιάδεω Ὀδυσῆος, 
οἵ μευ βοῦς ἔκτειναν ὑπέρβιον, ᾗσιν ἐγώ γε
χαίρεσκον μὲν ἰὼν εἰς οὐρανὸν ἀστερόεντα,
ἠδ᾽ ὁπότ᾽ ἂψ ἐπὶ γαῖαν ἀπ᾽ οὐρανόθεν προτραποίμην.
εἰ δέ μοι οὐ τίσουσι βοῶν ἐπιεικέ᾽ ἀμοιβήν,
δύσομαι εἰς Ἀΐδαο καὶ ἐν νεκύεσσι φαείνω.»

As evidências científicas atualmente disponíveis dizem-nos que no assentamento arqueológico de Hisarlik, na Turquia, existem vestígios duma arcaica citadela micénica da Idade do Bronze, destruída pelo fogo há mais de três milénios e descoberta pelo alemão Heinrich Schliemann no séc. XIX EC. A datação aproximada foi calculada através do carbono-14, que a situa no intervalo temporal de 1300 a 200 AEC e remeteria para a lendária Guerra de Troia, descrita por Homero na Ilíada e na Odisseia, entre 750 e 725 AEC.

Os eventos reais ou imaginados ocorridos nessa mítica Troia VIIa tiveram de atravessar a Idade das Trevas (1100-750 AEC) e o período de transmissão oral dos versos do aedo cego de Quíos pelos seus seguidores até aos tempos de Pisístrato (c. 600-528/527 AEC). Foi durante as reformas deste tirano ateniense que o duplo poema épico foi compilado e transcrito pela primeira vez em grego clássico. A editio priceps da obra, porém, teria de esperar ainda até 1498 EC, ano em que Demétrios Calcondilas a imprimiu em Florença.  

São muito raros os fragmentos homéricos antigos de argila, papiro e pergaminho sobreviventes, datando os mais remotos ao séc. III EC. Não excedem as três dezenas de exemplares e estão expostos no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. O mais recente rondará os 1700 anos e jazia esquecido na Universidade de Utreque. Preserva versos referentes ao roubo dos rebanhos sagrados de Hiperião. O episódio insere-se ao Canto 12 da Odisseia, que os leitores atuais poderão seguir sem problema numa edição moderna.

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«Zeus pai, e vós outros deuses que sois para sempre! | Vingai-vos dos companheiros de Odisseu, filho de Laertes, | que na sua insolência me mataram o gado, no qual eu sempre | me deleitava quando subia para o céu repleto de astros | e quando de novo à terra do céu regressava. | Se deles não receber expiação condigna, | irei para o Hades e lá brilharei para os mortos.»
Homero, Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia, 2003

[Trad. Frederico Lourenço, Ⅻ, 377-383, p. 210]

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