25 de outubro de 2026

Ladainhas de mudança de hora

    O relógio da cozinha indiferente à roda-viva das horas    

O sexo dos anjos e a quadratura do círculo

O ritual sazonal da dança das horas voltou a repetir-se este fim de semana. Religiosamente. É assim ciclicamente duas vezes por ano. O dia do mês é variável mas recai sempre nas madrugadas dos últimos domingos de junho e de outubro.

A velha ladainha de mudança de hora foi rezada mais uma vez e com as mesmas palavras. O horário de verão devia manter-se no inverno. Imutável. A hora roubada ao sono nos dias quentes não devia ser devolvida ao sono nos dias frios.

O acerto da hora solar com a legal é a nova discussão do sexo dos anjos. Os prós e os contra duma hora a mais ou a menos ganha aos pontos à quadratura do círculo. No baile mandado das horas, o que falta mesmo é um mandador à altura.

19 de outubro de 2026

Rebanhos Sagrados de Hiperião

 

UTRECHT PAPIRY
[Gr. Ms. B6. 39 - sécs. III /IV EC]
 
«Ζεῦ πάτερ ἠδ᾽ ἄλλοι μάκαρες θεοὶ αἰὲν ἐόντες,  
τῖσαι δὴ ἑτάρους Λαερτιάδεω Ὀδυσῆος, 
οἵ μευ βοῦς ἔκτειναν ὑπέρβιον, ᾗσιν ἐγώ γε
χαίρεσκον μὲν ἰὼν εἰς οὐρανὸν ἀστερόεντα,
ἠδ᾽ ὁπότ᾽ ἂψ ἐπὶ γαῖαν ἀπ᾽ οὐρανόθεν προτραποίμην.
εἰ δέ μοι οὐ τίσουσι βοῶν ἐπιεικέ᾽ ἀμοιβήν,
δύσομαι εἰς Ἀΐδαο καὶ ἐν νεκύεσσι φαείνω.»

As evidências científicas atualmente disponíveis dizem-nos que no assentamento arqueológico de Hisarlik, na Turquia, existem vestígios duma arcaica cidadela micénica da Idade do Bronze, destruída pelo fogo há mais de três milénios e descoberta pelo alemão Heinrich Schliemann no séc. XIX EC. A datação aproximada foi calculada através do carbono-14, que a situa no intervalo temporal de 1300 a 1200 AEC e remeteria para a lendária Guerra de Troia, descrita por Homero na Ilíada e na Odisseia, entre 750 e 725 AEC.

Os eventos reais ou imaginados ocorridos nessa mítica Troia VIIa tiveram de atravessar a Idade das Trevas (1200-750 AEC) e o período de transmissão oral dos versos do aedo cego de Quíos pelos seus seguidores até aos tempos de Pisístrato (c. 600-528/527 AEC). Foi durante as reformas deste tirano ateniense que o duplo poema épico foi compilado e transcrito pela primeira vez em grego clássico. A editio priceps da obra, porém, teria de esperar ainda até 1498 EC, ano em que Demétrios Calcondilas a imprimiu em Florença.  

São muito raros os fragmentos homéricos antigos de argila, papiro e pergaminho sobreviventes, datando os mais remotos ao séc. III EC. Não excedem as três dezenas de exemplares e estão expostos no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. O mais recente rondará os 1700 anos e jazia esquecido na Universidade de Utreque. Preserva versos referentes ao roubo dos rebanhos sagrados de Hiperião. O episódio insere-se ao Canto 12 da Odisseia, que os leitores atuais poderão seguir sem problema numa edição moderna.

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«Zeus pai, e vós outros deuses que sois para sempre! | Vingai-vos dos companheiros de Odisseu, filho de Laertes, | que na sua insolência me mataram o gado, no qual eu sempre | me deleitava quando subia para o céu repleto de astros | e quando de novo à terra do céu regressava. | Se deles não receber expiação condigna, | irei para o Hades e lá brilharei para os mortos.»
Homero, Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia, 2003

[Trad. Frederico Lourenço, Ⅻ, 377-383, p. 210]

12 de outubro de 2026

Estremas Sazonais

        Olhar do cavaleiro cipro-arcaico & o corpus paidêutico da estante        

Saídas & Entradas

Os seis meses de pé descalço foram-se de vez, os seis meses de pé calçado aproximam-se a passos largos. As primeiras chuvas, ventos e trovoadas empurraram as t-shirts, bermudas e havaianas para longe. As linhas divisórias das estremas sazonais revezam-se regularmente entre solstícios e equinócios, a acenar às saídas e entradas cíclicas alternadas das estações quentes e das frias.

A mudança de hora está aí ao virar da esquina, a pôr um ponto final nas férias e abrir a porta à rentrée dos dias curtos e noites longas. Os ócios da primavera-verão a acenar aos negócios do outono-inverno. Os ensaios e consertos corais já cá cantam, as marchas e hatha yoga semanais já aí vêm, o corpus paidêutico já desceu da estante perante o olhar atento do cavaleiro cipriota arcaico.

5 de outubro de 2026

Abaixo a Monarquia, viva a República!

Xeque-mate ao Rei!

Le roi est mort, vive le roi ! Dizia-se em tempos idos dos sangue azul no poder. A passagem de testemunho era imediata, seguida logo depois duma coroação ritual ou duma aclamação formal. Regra geral, ao monarca falecido sucedia o filho mais velho, mas também o irmão, o neto, o sobrinho ou o primo, a par doutras variantes menos usuais, com quebra ou não de linha dinástica.

Rei morto, rei posto! Também se costumava dizer nos antigos rituais monárquicos. A regra, todavia, nem sempre funcionou em plenitude. O Príncipe Real Dom Luís Filipe não chegou a reinar nos 20 minutos de vida que terá superado a morte do pai. Sucedeu-lhe com esse exíguo intervalo régio de permeio o irmão mais novo, que nunca até então imaginara tal golpe do destino.

Out with the old, in with the new! A permuta do velho pelo novo nem sempre se expressou assim entre nós. Por vezes a sucessão de pai para filho fazia-se entre irmãos desavindos. Quertelas ideológicas pesadas ditaram que Dom João I sucedesse a Dom Fernando e Dom Miguel a Dom Pedro IV, saltando ambos por cima das sobrinhas legítimas, Dona Beatriz e Dona Maria II.

Arraial, arraial, por el-Rei de Portugal! Foi o grito de aclamação usado para alçar o rei de Portugal. Desde o primeiro ao derradeiro soberano. Presumo que com menos intensidade no caso na substituição dos monarcas destronados pela força das armas dos irmãos entronizados. Assim sucedeu como Dom Sancho II destituído por Dom Afonso III e com Dom Afonso VI por Dom Pedro II.

Abaixo a Monarquia, viva a República! Este terá sido o pregão mais ouvido na praça do Município em Lisboa, na madrugada do dia 5 de Outubro de 1910. O xeque-mate ao rei estava consumado. As guerras intestinas entre herdeiros aparentes e presuntivos, travadas por linha agnata ou cognata, legítima ou usurpada, haviam passado à história. Então, agora e sempre. Pela Lei & Pela Grei.