29 de setembro de 2026

Paulo Rezzutti e a história não contada de Dom João VI

«"Foi o único que me enganou." Esta sentença a respeito de D. João VI, atribuída a Napoleão Bonaparte, abre esta introdução porque, se não estivesse nesta obra, eu seria acusado de a ter esquecido. A frase que, segundo alguns, estaria no Memorial de Santa Helena, livro de memórias ditado pelo imperador dos franceses ao conde de Las Cases, na realidade não se encontra aí nem em lado algum. A atribuição surge, já no século xx, sem fonte, num artigo de Afonso Celso sobre D. João VI e o seu governo, publicado em 1903, e passa a ser repetida nas décadas seguintes, ganhando estatuto de verdade histórica, armadilha em que, confesso, caí inicialmente. Esse é apenas um dos diversos mitos criados ao redor de D. João VI. Mas o facto de não haver evidências de que a frase foi dita por Napoleão não significa que não expresse uma verdade.»

Cumpre-se este ano o bicentenário do falecimento de João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança, aquele que passou para a história como Dom João Sexto, o Clemente, sucessivamente Infante, Príncipe, Rei e Imperador, umas vezes de Portugal, outras do Brasil, por separado ou em associações conjuntas com o Algarve, efémeras, fortuitas e simbólicas. Como a causa monárquica está há muito morta e enterrada entre nós, as referências à efeméride têm-se pautado pela nota rápida e tímida de pé-de-página nos jornais e fim de emissão nas rádios e televisões. Afinal, não haveria razão para proceder de modo diferente. As quatro dezenas de soberanos que ocuparam o trono lusitano deram um peso muito relativo a um só dos seus pares, sobretudo quando o regime republicano já entrou em cena há mais dum século. Ao que parece, o destaque dado ao passamento de Sua Majestade Fidelíssima em terras de Vera Cruz terá sido bem mais efusiva. Pelo menos no que toca ao contributo monumental documentado por Paulo Rezzutti no meio milhar e pico de páginas biográficas do D. João VI: a história não contada (2006), publicadas em edições distintas nas duas margens do grande mar oceano.    

O arquiteto, escritor, historiador, investigador, biógrafo e youtuber, a par de ser um dos maiores autores bestsellers brasileiros, estruturou esta sua história não contada como\se tratasse duma genuína crónica tradicional adaptada aos nossos dias. Expõe os factos resultantes da pesquisa efetuada pela ordem do tempo em que se deram em três partes sequenciais, cada uma das quais referente à permanência efetiva da corte portuguesa nos principais domínios territoriais detidos pela Sereníssima Casa de Bragança: Portugal (1767-1807), Brasil (1808-1821), Portugal (1821-1826). A resenha minuciosa do atribulado processo de transferência de soberania da antiga colónia lusitana para o novo reino unido e império independente faz-se a um ritmo vertiginoso, acompanhando passo a passo as principais fases do percurso genealógico do Rei Fugitivo e Comilão de Coxinhas de Frango, do filho da Louca e do Capacidócio, do marido da Megera de Queluz, do pai real do Rei-Soldado Liberal e putativo do Usurpador Absolutista, popularmente designado nas terras tropicais pela forma abreviada de Dom Sexto ou simplória de Rei Velho.

Lidos os registos históricos conhecidos ou por contar referentes aos dados biográficos do monarca expostos, fica-se com a sensação de ter percorrido uma sequência encadeada de momentos tecidos nas peripécias dum romance de grande tiragem. A linguagem selecionada para tal obedece ao princípio da  acessibilidade própria dum texto de divulgação popular dirigido ao grande público, sem descurar, porém, o rigor académico exigido nestes casos, devidamente fundamentado na cronologia, notas e bibliografia registados no final da obra. O caráter exaustivo implementado na urdidura discursiva assume, amiúde, a feição duma longa reportagem/documentário de época, mesclando com agilidade a passagem das lendas negras, associadas à dinastia brigantina reinante, à sua efetiva contextualização epocal. Os ditos, rumores e anedotas breves, as pragas, ócios e rimas escatológicas, a par da notícia das tradições, festividades, diversões então em voga, tais como os jogos de canas e de touros, alternam, passo a passo, com as descrições minuciosas dos atos públicos efetuados por uma corte europeia num cenário americano. Os longos beija-mãos reais, o exigente etiqueta aristocrática, o formalismo dos tratados oficiais, o rígido protocolo de estado seguido na aclamação majestática do novo soberano do efémero Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves ocupam, v.gr., uma parte significativa de todo a tessitura narrativa.

O proveito e deleite proporcionado com alguma ironia e sentido de humor pelo cronista desta biografia-reportagem-documentário de Dom João Sexto, tido pelos editores da versão portuguesa como  o monarca estratega que enfrentou Napoleão Bonaparte e mudou para sempre o destino dos dois países onde reinou, assemelha-se ao prazer com que me deixei invadir pelas histórias não contadas de Dom Pedro Quarto, divulgadas entre nós há uma dezena de anos. O papel desempenhado pelos dois na transição direta/indireta do Antigo Regime luso-brasileiro é indiscutível, a despeito do modo como um e outro o exerceram nos dois países atlânticos, abrindo as portas para a Modernidade Constitucional agora vigente entre nós, apesar do cunho dinástico com que a família real portuguesa e a imperial brasileira o executaram tenha sido substituída há mais dum século pelo regime republicano. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, que perdurem os princípios inovadores que os nortearam.

Jean Baptiste Debret

«Alegoria da Aclamação de Dom João VI»
 (1818)

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